Para aquelas férias, nós, o amigo Klaus e eu, resolvemos visitar sua irmã que vivia na ilha de Skye, no norte da Escócia. Nós havíamos planejado fazer um tour pelo País, saindo de Edinburgh em direção ao norte até a ilha de Skye e depois voltar ao sul, à Glasgow. Poucos quilômetros ao norte de Londres percebe-se a mudança da paisagem: tudo torna-se muito rústico e selvagem, a neblina começa a fazer parte da paisagem, as pequenas cercas de pedra delimitam as propriedades e as ovelhas estão por toda a parte. A atmosfera vai tornando-se medieval e gótica. A paisagem humana também muda, os escoceses não são tão formais e distantes como os ingleses, mas sim simples e alegres. Os albergues da juventude foram as nossas hospedagens e desta forma tivemoscontato com pessoas de diversas nacionalidades. Como por exemplo, duas jovens da Galícia, região espanhola que faz fronteira com o norte de Portugal.Foi interessante poder conversar em "portunhol", já que na Galícia se fala o galego, uma mistura de Português e Espanhol. Somente em um lugar não utilizamos Albergue da Juventude: à beira do famoso Lago Ness. O Lago Ness é estreito e possui alguns quilômetros de comprimento. Em uma das extremidades está a cidade de Inverness, na outra um mosteiro beneditino. Construído na Idade Média e todo em estilo gótico, o mosteiro está em plena harmonia com o Lago Ness, o qual possui águas escuras, pois constitui-se no lago mais profundo da Europa, quase sempre com névoa e cercado de montanhas. Quando se está à beira do Ness, é inevitável a sensação de mistério no ar. A impressão de que a qualquer momento um mostro surgirá das águas escuras é inevitável. Para um dos monges que encontramos, Nessie, o monstro do lago, tornou-se mais do que uma lenda popular.Aquele monge de oitenta e poucos anos e modos aristocráticos, falava de Nessie com muita intimidade. Há uns quarenta anos, estava o nosso amigo monge em um pequeno barco no meio do Ness. O silêncio dominava todo o lugar, quando lentamente as águas escuras do Lago tornaram-se agitadas.Inesperadamente, o pobre monge viu-se diante de Nessie. Com um pescoço de seis ou cinco metros de altura, aquilo que parecia ser um dinossauro começou a olhá-lo atentamente por alguns segundos. Perplexo, o nosso amigo ficou paralisado olhando fixamente para o monstro. Alguns segundos depois Nessie submergiu rapidamente e desapareceu. O caso ficou conhecido em todo o mundo e o nosso monge apareceu em vários jornais e livros sobre o Ness e seu monstro.Klaus quase perguntou ao nosso amigo monge, quantas doses de whisky são necessárias para poder ter a mesma experiência com a Nessie, mas acabou não provocandoo velhinho. De qualquer forma, não fomos naquela tarde passear de barco, ficamos caminhando à beira do Ness e refletindo como a Nessie - fantasia ou não - tornou-se parte viva da vida daquele monge.Não precisamos ir até à Escócia para encontrarmos monstros em nosso cotidiano. Muitas vezes supervalorizamos fatos e acontecimentos de nossa vida deixando com que eles se tornem absolutos e dominem todo o resto de nossa existência. Muitas vezes colocamos em nós mesmos estigmas que carregamos depois injustamente. Por outro lado, "positivamos" muitas de nossas conquistas e ações com tal energia que acabamos por viver com elas o resto de nossas vidas e não damos a nós mesmos a oportunidade de vivermos outras experiências. Nós nos tornamos escravos de nossa própria subjetividade, de nossa fantasia. Outras vezes queremos ver algo de misterioso e fantástico em nosso cotidiano. Nos perguntamos o porquê de acontecimentos inesperados ou tentamos entendê-loscomo se fossem cartas do além ou intervenções divinas. Fernando Pessoa nos lembra que a vida muitas vezes é mais simples do que pensamos, pois "também às vezes, à flor dos ribeiros, formam-se bolhas na água. Que nascem e se desmancham e não tem sentido nenhum, salvo serem bolhas de água que nascem e se desmancham."Sem dúvida alguma a fantasia é fundamental, desde que ela se torne um motor para a criatividade, fazendo com que nos tornemos verdadeiros construtores do real. Triste é quando a fantasia nos afasta da lucidez e nos torna habitantes de um mundo que não existe, mesmo que este seja maravilhoso. Realizar as nossas fantasias não significa tornarmo-nos suas vítimas, mas sim sermos ativos o suficiente para transformá-las em vida. "Vivo para ser um regente da vida, não um escravo." (Walt Whitman)
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