A decoradora Nara Portinari, que mora em Bauru há 15 anos, é sobrinha do mestre, Candido Portinari, a quem ainda se refere carinhosamente como tio Candinho, e passou alguns períodos da infância em sua companhia. Meu pai, além de irmão, era um dos melhores amigos dele e estava sempre na sua casa e eu ia junto, conta. Atualmente, ela prepara uma exposição de quadros de artistas da cidade em conjunto com uma amostra sobre o tio, que deve ser realizada na segunda semana de dezembro. Enquanto organiza o evento, Nara falou ao Jornal da Cidade sobre Portinari e suas lembranças das férias passadas no apartamento do pintor, no Rio de Janeiro quando era criança.Jornal da Cidade - Por que você passava períodos com o seu tio? Nara Portinari - Eu era filha única e meu pai (Antonio Portinari) era muito amigo dele. Então, tinha períodos muito grandes que eu passava com ele, principalmente nas férias. Eu morava em São Paulo e ele no Rio, como eu não tinha mãe, quando meu pai ia visitá-lo eu ia junto e ficava lá. O meu pai, além de irmão, era o melhor amigo dele. Fiz isso desde que tinha 12 ou 13 anos. No dia em que fiz 15 anos ele morreu.JC - Como era o relacionamento entre vocês?Nara - Ele gostava de mim porque eu já gostava muito de arte, então me interessava muito e ele gostava de conversar comigo por isso. A gente tinha uma afinidade bem grande.JC - O que você lembra desse período, como ele era em casa, no dia-a-dia?Nara - Ele era uma pessoa difícil de contato, ele não gostava de barulho, não se podia nem fazer café na casa dele, porque ele não suportava o cheiro. Isso apesar dele ser da terra do café e ter feito muitos quadros reverenciando o café, ele odiava o cheiro. Ele era todo rigoroso com o horário, me lembro que alguns primos também iam para lá e nós íamos à praia na frente do apartamento, que é a praia de Copacabana. Quando ele queria almoçar, a empregada dele colocava toalhas na sacada como sinal. A gente ficava de olho e tinha que subir rápido, porque senão ele ficava bravo. Ele era muito rigoroso com a gente, mas também tinha os momentos em que quebrava o gelo, quando acabava de pintar. Ele sempre pedia para a gente lavar os pincéis com ele. Ele era agradável mas tinha o seu próprio ritmo de vida que não mudava quando a gente ia para lá. Os horários eram mantidos e a disciplina também. Eu era a única sobrinha que se sentava na mesa para comer com ele porque era a única que não ficava escolhendo o que queria comer ou não. Como estudava em um colégio interno, tinha uma educação rígida. As outras crianças ficavam querendo uma coisa e não-querendo outra e ele não suportava isso. Eu não questionava nada, simplesmente comia e ficava quieta e ele gostava. As outras crianças comiam na cozinha.JC - E como era o método de trabalho dele, ele pintava muito?Nara - Muito. Ele recebia muitas visitas, mas se de repente ele decidisse começar a pintar ia até o ateliê e deixava todos na sala, ele era de lua, não queria nem saber. Ele pintou o Juscelino Kubitschek várias vezes e fez trabalhos para ele, mas o presidente podia ir até o apartamento e se ele não quisesse atendê-lo por estar pintando, dizia: não, hoje não, e não atendia o Juscelino. Ele que voltasse outro dia. Meu tio era assim com todo mundo, sem ser malcriado. Era o jeito dele. Temperamental. Ele era culto, sossegado e simpático.JC - Ele cultivava outro hábito que não fosse pintar?Nara - Não. Ele também não saia muito de casa. A atividade profissional dele era muito intensa e ele viajava muito, mas a trabalho, sempre. Ele ainda morreu cedo, deixou muita coisa por fazer.JC - Do que ele morreu?Nara - Por intoxicação das tintas. Ele tinha uma tinta que não podia usar, que era uma tinta que ele usava para dar o fundo das telas. Ele só deveria usar aquela tinta com luvas ou com máscara, porque fazia mal para ele, mas ele não usava. Meu pai, nos últimos anos da vida do meu tio ficava insistindo para que ele tomasse cuidado, para evitar aquelas congestões que ele tinha, mas não adiantava, quando meu pai chegava, ele estava sem luva, sem máscara, já tinha dado fundo no quadro... Ele era teimoso, obstinado. Na última vez que teve as congestões acabou morrendo no apartamento mesmo, foi levado para o hospital por protocolo, mas já estava morto. Culpa do gênio dele, que não gostava de ser contrariado. A separação da minha tia Maria Vitória também piorou a situação.JC - Por que?Nara - Ela se separou dele porque não queria que o meu primo (filho deles) se casasse com uma moça que ele havia engravidado. Ele queria que filho casasse porque não queria que a criança nascesse sem um casamento antes. Tanto que a netinha que veio, a Denise, era a paixão da vida dele. Minha tia não queria o casamento e disse que se meu tio forçasse, iria embora de casa. Ele insistiu e o meu primo se casou com a Maribel (depois eles tiveram outro filho, chamado João Candido) e a minha tia foi embora. Ela continuou o assessorando, fazendo o trabalho de marchand, mas nunca voltou para casa. Ela fazia tudo, comercializava os quadros e até morava perto dele, mas nunca voltou para casa. Eu acho que depois disso ele perdeu o gosto pela vida. Ele mesmo dizia que não tinha mais prazer em viver, aquilo foi uma grande tristeza na vida dele. Inclusive essa era a grande preocupação de todo mundo porque eles viam que era verdade. Todo mundo tomava o maior cuidado com ele, mas não adiantava, ele queria morrer. Meu pai dizia que ele procurou morrer porque não agüentava viver sem ela. Já que ele tinha essa tinta que envenenava na mão, usou esse meio. Ele morreu de desgosto.JC - E a sua tia?Nara - Ela é viva até hoje, tem 95 ou 96 anos e ainda faz parte do Projeto Portinari. Meu primo João Candido é físico nuclear. JC - O que faz o Projeto?Nara - Sob a coordenação do meu primo, eles cadastraram todas as obras do meu tio, até aquelas que ficaram muito tempo perdidas, como o Baile na Roça, e que são pouco conhecidas como as paisagens e flores. Eles tiveram patrocínio da IBM e vão fazer uma reinauguração, uma abertura ao público em Nova York, mas ainda não há uma data definida. JC - Qual o evento que você vai organizar sobre o seu tio?Nara - Eu comercializo obras de arte, além de ser decoradora. E quero fazer uma mostra com todo o material que se escreveu sobre ele até hoje, todas as notinhas, jornais, revistas, todos os livros, tudo, desde a primeira que apareceu escrito: Portinari rumo a Paris, até a revista do enterro. Gostaria de mostrar porque, como está deteriorando, porque muita coisa eu não sabia como guardar, esse material vai ser restaurado na USP e esse trabalho vai demorar até dois anos. Antes disso gostaria de fazer essa mostra. Vai ser num anexo da Vidraçaria São Luiz, na Virgílio Malta. Também vou expor quadros de algumas artistas daqui de Bauru e de um artista de Ribeirão Preto.JC - Existe mais alguém na família que é artista?Nara - Relacionados com o mundo das artes tinha um tio, que era escultor e de vez em quando se aventurava pela pintura, a minha prima Marísia, que morou com o tio Candinho e aprendeu muito com ele e é pintora, e eu, que sou decoradora e, por isso, estou relacionada com a arte. Mas não sei se essa nova geração vai revelar algum artista, por enquanto, não.ServiçoA exposição e mostra organizada por Nara Portinari vai ser realizada no dia 18 de dezembro, na rua Virgílio Malta, nº 15-39, na Vidraçaria São Luiz. Quem foi Candido PortinariNascido em Brodósqui, no nordeste do Estado de São Paulo, em 29 de dezembro de 1903, Candido Torquato Portinari é o segundo filho de uma família de doze irmãos que logo cedo demonstra habilidade para o desenho. Na juventude se muda para o Rio de Janeiro para freqüentar a Escola Nacional de Belas-Artes e, em 28, é premiado com a medalha de ouro no Salão Nacional de Belas-Artes e ganha uma viagem à Europa. Na França, entra em contato com os modernistas europeus e, influenciado por eles, altera a sua pintura. De volta ao Brasil, participa do Salão Revolucionário e é descoberto por Mário de Andrade. Abandonando a linha clássica, Portinari passa a deforma as figuras humanas nas suas obras. Para expressar o sofrimento dos personagens do mundo rural que retrata em seus quadros (um de seus temas mais abordados), passa a pintá-los com mãos ossudas e pés abrutalhados, numa alusão ao contato que eles têm com a terra. É dessa época a tela Café, com a qual recebe pela segunda vez a menção honrosa do Prêmio Carnegie, no salão de exposição de Pittsburg, nos Estados Unidos, em 1935. Em seguida, apresenta três painéis na Feira Mundial de Nova York, em 39 e produz uma série de pinturas Os Retirantes, um dos seu principais trabalhos. Em 1946, expõe em Paris e recebe a condecoração da Legião de Honra do governo francês. Outras obras importantes são os painéis Guerra e Paz, que decoram a sede das Nações Unidas em Nova York, os painéis e azulejos da Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte, construída em 1940 e sua série de painéis históricos Tiradentes, Descobrimento do Brasil, Chegada de Dom João VI, entre outros. Um dos principais artistas brasileiros desse século, internacionalmente conhecido, Portinari morre no Rio de Janeiro, em 6 de fevereiro de 1962. Fonte: Almanaque Abril - Quem é Quem na História do BrasilMenino tristeNara conta que o tio possuía uma deficiência física, que o atormentou por toda vida, resultado de um acidente quando ainda era bebê. Minha avó o estava amamentando quando meu tio (irmão mais velho dele) entrou em casa com um ferimento na testa. Não era nada grave, mas, assustada, ela foi socorrê-lo e tropeçou, caindo sobre o Tio Candinho, conta Nara. A queda, aparentemente, não trouxe maiores problemas a não ser o fato de que o bebê chorava demais. Demorou algum tempo até que a madrinha da criança percebesse que suas pernas eram diferentes. A queda havia provocado algum tipo de fratura em uma das pernas, o que impediu Candido de ter uma vida normal na infância. Era um garoto arredio, quieto. Meus tios e o meu pai contavam que ele ficava olhando as crianças brincar de longe, pois não podia subir em árvores, correr, pular como elas. A sua brincadeira era rabiscar no chão, fazendo desenhos... as crianças acabavam fazendo um círculo em volta dele para pedir que ele desenhasse coisas variadas e ele fazia isso com perfeição, diz Nara.Quem descobriu o talento de Portinari foi o padrinho, que começou a comprar material para que o menino desenvolvesse o seu dom. Foi quando ele começou a desenhar no papel. O padrinho ainda foi o responsável pela ida de Candido ao Rio de Janeiro, para estudar Belas-Artes.
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