Em verdade, Ferde Grofé (1892-1972) era um modesto mas correto músico de orquestra, nascido em Nova York. Tocava viola na Sinfônica de Los Angeles e não era bem isso que queria. Atraído pelo jazz, ritmo de origem negra, convidado, integrou a banda de Paul Whiteman como pianista. Era a época brilhante do jazz americano que conquistaria, em pouco tempo, não só os Estados Unidos, mas o mundo.Sua habilidade nesse mister, chamou a atenção do maestro Paul Whiteman, que o incumbiu de fazer o arranjo da composição escrita por George Gershwin, assim, na música de maior expressão dos EE.UU. e na coqueluche mundial, graças aos méritos musicais e, também, ao apoio maciço dos teatros da Broadway e dos estúdios e Hollywood. Foi em 1924, ano em que Grofé desligou-se de Whiteman para tornar-se franco atirador, logo após, conquistando renome e glória.Seu maior sucesso como compositor deu-se ao escrever a suíte Grand Canyon. Eis aqui, a sua excitante história. Os canyons são enormes erosões conseqüentes de mais de 10 bilhões de anos, quando a natureza, com a ajuda dos ventos, tempestades e rios inundados, cavaram, caprichosamente o solo, transformando-o em acidente geográfico espetacular, quase inconcebível para nós.O Grand Canyon, hoje Parque Nacional, possui dimensões indescritíveis.Atinge 1.500 quilômetros de extensão, passando pelos estados do Arizona, Nevada e Utah. A profundidade do canal, em cujo leito corre, majestoso, o Colorado, chega a ter, em alguns lugares, 1.500 metros de fundura. Os Canyon norte-americanos foram vistos, pela primeira vez por um homem branco, no ano de 1542. O personagem desta extraordinária descoberta foi o explorador Francisco Vasquez, de Coronado, que percorria, em expedição, a fantástica região. Ele ficou curioso ao ouvir os índios hopis contarem a respeito do extenso vale com água no fundo. Suas altas margens são denominadas North Rim e South Rim (margens norte e sul). Foi, provavelmente em 1776, que se originaram os nomes do Estado e do grande rio, dados pelo padre espanhol Francisco Tomas Garcez, também corajoso aventureiro. Estou vendo, mas não acredito, teria dito um fotógrafo ao contemplar a soberba paisagem talhada pela mão de Deus.Talvez esta estupefata exclamação tenha levado o regente Arturo Toscanini (1867-1957), então no auge de sua fulgurante carreira de maestro, a conhecer, também, tão notável maravilha da natureza.Seguiu para lá buscando novas emoções, passou todo um dia atônito com o panorama incomum. Assistiu o nascer do sol entre as rochas e desertos; sofreu o calor terrível do sol abrasador; presenciou o desabar violento da tempestade, com relâmpagos e raios tronitoantes, rasgando o céu escuro e abalando o universo. Depois da tempestade, a bonança confortadora e amiga, como que a dizer: nem tudo está perdido. Por fim o crepúsculo, estendendo sobre o chão áspero, o seu manto de paz, calmaria e amor.Marcado por esta descrição, Toscanini gravou pela primeira vez a soberba manifestação dos elementos naturais, traduzindo-os por visões musicais inesquecíveis: alvorada, o deserto colorido, na trilha, crepúsculo, temporal e anoitecer. Todas estas sensações foram captadas por Ferde Grofé, que soube traduzí-las na partitura com eloqüente competência, descrevendo tudo aquilo que sentimos e vivemos, extasiados, sendo, o grande Toscanini, o seu melhor intérprete.Anos depois, em 1935, nossos patrícios João de Barro e Alberto Ribeiro, lançaram composição carnavalesca cujo tema musical lembra o 3º movimento on the trail (na trilha) da Grand Canyon Suite, apresentada em 1932. A melodia singela, escorreita e fácil, provocou celeuma. Plágio ou coincidência!!! (*)Especial para o JC Cultura
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