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Desenhos animados dividem estudiosos

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Alguns pais acreditam que estão protegendo os filhos dos efeitos nocivos da televisão quando os proíbem de ver filmes e novelas. Mal sabem eles que o perigo pode não estar apenas nesses tipos de programaEles fazem bem ou não? Transmitem violência e maus exemplos ou são meras formas de diversão? Os desenhos animados dividem os estudiosos. Enquanto até os desenhos clássicos da Disney, que pairavam absolutos como exemplos de diversão sadia para as crianças foram colocados em questão por pesquisadores nos Estados Unidos, no Brasil, um grupo multidisciplinar de estudiosos defende que além de entretenimento infantil, os desenhos animados podem ser um eficiente instrumento pedagógico para transmitir valores éticos, morais e modelos de comportamento para as crianças. Os defensores da animação como instrumento pedagógico são 12 pesquisadores do Laboratório de Pesquisa sobre Infância, Imaginário e Comunicação (Lapic), uma entidade ligada à Escola de Comunicações e Artes da USP. Eles desenvolveram há um ano e meio um trabalho que mapeou os desenhos preferidos pelas crianças e analisou seus conteúdos e suas estruturas. Foram ouvidas 311 crianças de 6 a 11 anos, que vivem em São Paulo. Segundo o resultado da pesquisa, os desenhos têm situações, comportamentos e noções morais importantes para a formação da criança. Por isso ajudam a resolver conflitos e colaboram para o desenvolvimento cognitivo e simbólico delas. O desenho Pica-Pau, um dos clássicos infantis reprisado na televisão há décadas, foi um dos mais citados pelas crianças e pode servir como exemplo da tese dos pesquisadores do Lapic. O desenho tem uma estrutura simples e a ação normalmente se desenvolve a partir de um elemento que o retira de uma situação de tranqüilidade.Os pesquisadores acreditam que, no plano simbólico, a criança pode se identificar com o personagem Pica-Pau, projetando-se nele e resolvendo, mentalmente e de modo positivo, uma situação de inferioridade. Já no plano do desenvolvimento cognitivo, ela pode absorver e interiorizar a estrutura formal do desenho, desenvolvendo suas próprias estruturas mentais.Mecanismos parecidos podem ocorrer com os outros desenhos, até com os considerados violentos, como o YuYu Hakusho, um desenho japonês onde vários personagens vivem tramas paralelas, que, às vezes, geram brigas e discussões. É claro que dependendo da capacidade de elaboração mental da criança, o que está ligado à faixa etária e ao tipo de ambiente em que vive.Essa tese remete a outras discussões: afinal, até que ponto as cenas de violência estimulam comportamentos agressivos?Um estudo, elaborado pelo Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente (Ilanud), conclui, por exemplo, que o YuYu se destaca pela quantidade de crimes que mostra: foram computadas 29 lesões corporais e 18 homicídios ou tentativas de homicídio durante uma semana de exibição.Foram analisados desenhos transmitidos em sete canais abertos de tevê e as ações dos personagens classificadas com base em 13 crimes do Código Penal. Contabilizaram-se 1.433 delitos - 56,7% de lesão corporal, 30,3% de homicídios ou tentativa de homicídios, 5,5% de furtos e 4,1% de roubo. Em comum os desenhos assumem a ética do bateu levou, onde não há a figura da justiça. Segundo os pesquisadores do Ilanud, a influência que um desenho violento pode ter sobre uma criança depende do seu contexto de vida. Cada criança vai ser influenciada de maneira diferente e a violência não está só no desenho. Está no telejornal, nas novelas e nas ruas... O que elas vivem na vida real, o que aprendem com a família e a escola são ainda mais importantes. É mais fácil a criança incorporar uma cena violenta do desenho se a agressividade fizer parte de seu dia-a-dia. Para os pesquisadores do Lapic, as crianças não são passivas, sabem diferenciar a realidade da fantasia e usam os desenhos para reelaborar as dificuldades. Os desenhos agradam pela estrutura simples e repetitiva. O Pica-Pau e o Piu Piu, por exemplo, são personagens frágeis que, pela esperteza, quase sempre, se dão bem no final. Eles criam uma identificação que ajuda a criança e vencer o conflito que sobre pela dominação do adulto, aponta o trabalho.Perda da inocênciaUm trabalho divulgado pelo Harvard Center for Risk Analysis, nos Estados Unidos, no meio do ano, não deixou intacta a aura de inocência das produções de Walt Disney e outros desenhos produzidos para o cinema voltados para o público infantil. Os pesquisadores Fumie Yokota e Kimberly Thompson analisaram 74 vídeos e concluíram que 49% têm cenas pouco recomendáveis ao público infantil. Foram listadas 125 imagens agressivas; 62 delas resultavam em morte e o tempo médio de duração das cenas é de 9,5 minutos. O objetivo da pesquisa não era saber que efeitos essas imagens provocam nas crianças, mas sim mostrar que nem sempre um filme animado apresentado como livre, está isento de imagens violentas ou chocantes para as crianças. A morte de mãe de Bambi, no desenho do mesmo nome, produzido em 1942, é um dos exemplos de cena chocante para as crianças. Kimberly classificou de impressionante a cena que contém tiros e os gritos de Bambi chamando pela mãe. Outro exemplo mais recente, segundo o trabalho americano, é a morte do Rei Leão, pisoteado por uma manada de Gnus, depois de ter sido traído pelo irmão invejoso.Nem Dumbo escapa da análise. O simpático elefante orelhudo tem reações violentas quando é motivo de chacota e em uma cena do filme, produzido em 1941, usa a tromba para metralhar de amendoins nos amigos que o importunam, passando a mensagem de que é certo reagir a uma gozação com violência.Um desenho recente produzido pela Warner, A Espada Mágica, inspirada na lenda do rei Arthur, é o campeão de violência: 28 minutos de cenas agressivas. Um dos responsáveis é o dragão com duas cabeças, que luta o tempo inteiro para ter o controle do corpo. Em uma cenas, uma das cabeças chega a usar a serra elétrica para se livrar da outra. Em todos os casos, o trabalho americano chegou a conclusão de que os personagens usam o embate físico para resolver os conflitos sem problemas porque se a violência é praticada pelo herói, acha-se graça.

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