Lembro-me com saudades do meu tempo (não tão distante) de infância, quando brincava de bandido e mocinho. Lembro-me da armas de brinquedo e, naquele tempo, não havia essa neurose de estar incentivando crianças ao crime... aliás, a sutil brincadeira apenas representava a luta do bem contra o mal e, quem era escolhido para ser o bandido, sempre levava a pior. Eu e meus amigos adorávamos bradar: mãos ao alto! É a polícia! Recentemente, estava com meus filhos numa grande loja comprando duas pistolas dágua. Quando me afastava da prateleira, três garotos (de uns 10 anos, aproximadamente), visivelmente maltrapilhos, empolgaram-se com as armas e, um deles, empunhando uma metralhadora dágua, gritou ao outro: parado aí! Isto é um assalto....Apesar de ser apenas outra brincadeira, considerei o fato sintomático. Na verdade, será que os garotos pobres de hoje não enxergam a polícia como o exemplo? Ou será que isso é genético? Estariam eles predestinados ao crime, aos delitos? Por Deus, por que aqueles garotos identificaram-se como bandidos?Desde aquele dia cubro-me de indagações que ainda não consegui desvendar. Tenho receio de estarmos numa sociedade viciada, onde a pobreza empurre a grande maioria para a desonestidade e as crianças, outrora inocentes, sucumbem diante dos bons exemplos e da vida fácil dos criminosos. Quem sabe a corrupção sem fim (e sem punição) não acabe estimulando-os? Não, não pode ser isso. Eles não têm acesso a esse tipo de formação e informação... ou têm?Será que a mídia, que contribui para dar ampla divulgação aos poucos casos de violência policial, é a responsável? Ou será que é a absoluta falta de bons exemplos na sociedade, seja em que nível for, que estimula ao vício?Isto é um assalto!. Ainda ouço a inocente brincadeira e, com sinceridade, preocupo-me com ela, pois esses garotos de hoje, homens de amanhã, poderão estar tirando a vida de nossos filhos, também crianças. Sinceramente, gostaria de estar vendo coisas, mas independente de qual for o desvio no caráter daqueles jovens, a conclusão é uma só para todas as indagações: se cada um não fizer a sua parte na construção de uma sociedade e cidade melhor (não no nível familiar apenas), todos padeceremos com as conseqüências, infelizmente. (Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173)
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