Embora atuem de maneira efetiva na comunidade, jovens não gostam de ser chamados de militantes, muito menos de políticosEles agem politicamente, pensam politicamente, mas não querem ser vinculados à política. É esse o perfil do jovem protagonista bauruense, um ator social que enxerga a política como um sinônimo de poder e corrupção, e não como a arte de proporcionar o bem comum, como defendiam os filósofos gregos.Esse é o caso de Ivan Ferrazoli de Marchi, 25 anos, secretário executivo da ONG Instituto Ambiental Vidágua. Formado em biologia, o ambientalista hoje é um dos responsáveis por três atividades importantes desenvolvidas pela entidade: o programa de educação ambiental, que capacita e treina professores e alunos de 34 municípios da região sobre meio ambiente; um viveiro de mudas, atualmente em construção, mas que quando pronto terá capacidade de produzir 100 mil mudas por ano.A terceira é o Click Árvore, site desenvolvido em conjunto com o S.O.S. Mata Atlântica e a Editora Abril, que já registrou 270 mil clicks, os quais resultarão em quantidade igual de mudas de espécies nativas de árvores - 50 mil já foram plantadas em Bauru e, até 2001, outras tantas reflorestarão áreas em 17 estados brasileiros -.Todas essas atividades importantes não são vistas por Ivan como ações políticas, mas ambientais. Para o ambientalista, ação política é elaborar a papelada que resultará em projetos que culminarão ou não na obtenção de recursos para o desenvolvimento dos projetos da ONG. O distanciamento do conceito tem explicação: Política, pelo que aprendi, é sinônimo de poder, explica.O secretário executivo do Instituto Ambiental Vidágua não é o único jovem com essa visão, que está lentamente mudando. Daniel Francisco Sinhorilo, 19 anos, filiado ao PC do B e secretário da União da Juventude Socialista (UJS), trabalha para reformular esse conceito.Filiado ao partido há 3 anos, Daniel defende a tese do socialismo como a única solução para remediar o mundo. Para tanto, atua dentro da UJS para recriar as reuniões de estudo sobre obras de teóricos socialista, como Karl Marx e Lenin. Sem teoria, não há revolução, diz o socialista, parafraseando Lenin.Para Daniel, que concluiu o 2.º grau e atualmente está desempregado, a formação política contribui para que o jovem adquira visão crítica e tenha argumentos para agir politicamente. Mas ele próprio reconhece que é difícil ser político e muita vezes confessa sentir-se sufocado. Não é fácil se opor ao sistema, comenta. Mesmo assim, o jovem socialista mantém as ações políticas, que para ele não se reduzem a participar de reuniões na UJS, mas incluem todos os atos cotidianos, de levantar-se da cama a escolher o canal da televisão. Ser político não é ser somente partidário. Política é a arte do possível, é o único caminho para mudar o mundo, define.Antônio Carlos Martins Sampaio, 33 anos, coordenador diocesano da Pastoral da Juventude de Bauru e da Equipe Diocesana de Articulação Juvenil (Edaj), também acredita que pode mudar o mundo. Como Daniel, confessa que encontra obstáculos, mas sua autocrítica é tão grande que não permite abandonar os projetos que lhe consomem, pelo menos, 3 horas diárias.Não me vejo como militante político porque acho que não faço o bastante. Por mais consciente que esteja sobre o meu papel, ainda acho que falo muito e faço pouco. Precisaria fazer mais, afirma Antônio Carlos, que tem como objetivo na pastoral e no Edaj contribuir para que o jovem adquira senso crítico social. É preciso ampliar a visão que se tem da realidade, defende.O estudante de jornalismo Gilberto Kurita Yoshinaga, 21 anos, procura servir de exemplo para os ouvintes que acompanham semanalmente o Som das ruas, programa sobre movimento hip hop, veiculado aos sábados, das 17 horas às 18 horas, pela Unesp FM (105,7 KHz).Nascido nos Estados Unidos no final da década de 70, o hip hop chegou ao Brasil sob a febre do break. Os reflexos são sentidos até hoje por meio de seus quatros elementos: o DJ e o MC (responsáveis pelo rap), o break e o grafite. Gilberto entrou no movimento com pouco mais de 9 anos, em Mogi das Cruzes. Sem perceber, estava fazendo daquilo sua religião.Para ele, o hip hop é mesmo uma religião na medida em que permite a valorização da auto-estima daquele que participa do movimento e proporcionando acesso à informação. É a revolução da mente, afirma, citando James Brown, e continua. É uma filosofia de vida que preza a verdade e o agir correto, permitindo àquele que está acostumado a ser oprimido e explorado a ver que todos têm o mesmo valor, explica Gilberto.O estudante, que prepara um livro sobre o movimento hip hop, sabe que é um militante cultural, mas não gosta de se definir como tal. As coisas não podem estar concentradas em um só pessoa. Todos têm a mesma importância. Não há em cima ou em baixo, prega Gilberto, que em 18 meses de programa já recebeu 60 cartas de ouvintes, 90% delas escritas por presidiários, o principal público do Som das ruas.Por causa do programa e da valorização do hip hop, Gilberto prevê que o movimento vai estourar em Bauru em 2001. A movimentação já começou. Um grupo de rap formado por presidiários gravou uma fita demo dentro da cadeia. A música já ganhou as ondas de rádio pelo programa. Toquei porque considero esse o tipo mais genuíno de rap, porque foi gerado como filosofia, conclui o estudante, um militante político que não espera o futuro. Para ele, o futuro é agora e o lugar é onde possa agir.
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