Especialistas da medicina convencional entrevistados pelo Jornal da Cidade foram unânimes em dizer que é preciso haver estudos científicos sérios antes que se recomende qualquer terapêutica ao ser humano.De acordo com o infectologista Fernando Monti, todo medicamento, exame ou procedimento terapêutico passa por uma série de testes que seguem critérios rígidos e evolutivos. Ele explica que as experiências começam com animais.Você estuda se não traz riscos, verifica a eficácia, os resultados preliminares. Se tudo correr bem, aí a pesquisa passa para a fase 1 em humanos, quando os testes são feitos em populações de saúde normal. Nesta fase são verificados os efeitos colaterais e possíveis reações adversas. Na fase 2, os testes são feitos grupamentos pequenos de pessoas que têm o problema. Só na fase 3 os grupos são maiores.Nestes testes, os grupos são divididos e administra-se a substância a uma parte dos pacientes, enquanto a outra parte dos doentes vai receber placebo, ou seja, uma substância que tenha a mesma aparência do produto testado, mas sem qualquer efeito. Só então comparam-se os resultados. Isso se chama estudo controlado. É preciso tudo isso para que seja aprovada a comercialização de um produto, um remédio. E eu não acredito que os defensores (da urinoterapia) tenham um estudo controlado para mostrar, diz Monti.O médico patologista Antônio Lázaro Valeriano Marques também afirma desconhecer estudos científicos sobre a urinoterapia. Mas se você analisar a urina normal, ela tem glóbulos vermelhos, brancos, pode ter bactérias, fungos. Acho que só a presença desses elementos já indica um pequeno risco. Sabe-se, pela literatura, que urina não transmite aids. Eu coloco uma vírgula: a menos que haja sangue.Ele lembra que o HIV habita os glóbulos brancos e que todo sangue contém esses leucócitos. Em contato com o sangue de uma pessoa sadia, poderia, segundo ele, haver contaminação. Não sei como seria se essa urina fosse filtrada ou esterilizada, por exemplo, mas não há qualquer prova científica cabal sobre isso.Já o dermatologista Wagner Monteiro Cardoso prefere analisar a urinoterapia sob dois aspectos. A urina é estéril, ou seja, via de regra ela não tem bactérias, a menos que a pessoa tenha uma infecção. Agora, ela também tem coisas tóxicas, que poderiam fazer mal. Afinal, eu acho que tudo o que se coloca para fora é porque não deve voltar para o organismo. Seja como for, sabe-se que, antigamente, usava-se a urina em Roma, na Grécia, para cicatrização de feridas. Não sou contra, não quero ser cético, mas acho que a gente sabe muito pouco sobre isso para recomendar. Vários outros especialistas consultados pelo JC confirmaram esta tendência. Confira suas opiniões.Opinião de especialistasMário Hamada, gastroenterologista:Particularmente, eu não recomendaria, porque do ponto de vista fisiológico, a urina é um detrito que não presta e o organismo joga fora. Eu não acredito que possa ser benéfico para o organismo. Mas é duro dar uma opinião. Precisaria haver trabalhos e experiências para eu poder dar uma opinião gabaritada. Não há nada que indique que é bom. Mas também não há nada que indique que é ruim. Na verdade, nós não temos informação suficiente a respeitoEnidélcio Sartori, urologista:A urina tem uma série de substâncias diferentes. A única coisa que vejo é o uso da uréia em produtos cosméticos. No mais, há grande quantidade de metabólicos - substâncias resultantes do metabolismo que são excretadas, teoricamente inúteis ao organismo. Mas não me recordo de ter visto qualquer trabalho ou artigo científico sobre isso e é só assim que podemos avaliar se um tratamento é benéfico ou não. Sem trabalho científico eu acho que é um riscoHenrique Furtado, cardiologista:Eu não li nada a respeito, não tenho experiência, não vi nenhum trabalho científico a respeito, não tenho notícia de que algum paciente meu tenha usado. Mas eu, particularmente, não usaria. Por agnosia (desconhecimento), porque não tenho conhecimentos que me permitam entender os eventuais benefícios ou malefícios dissoWagner Cardoso, dermatologista:A urina é estéril. Para algumas coisas ela deve servir realmente. Mas também há coisas tóxicas que o rim vai filtrar e jogar fora, como a amônia, por exemplo. Agora, tem também o outro lado da moeda: é comum usar o esterco na plantação. Alguma coisa faz crescer verduras e frutas e depois você come isso. Não sou contra, mas só conheço boatos. Acho que é preciso estudar mais a respeitoFernando Monti, infectologista:Não recomendo, não usaria e não vejo lógica teórica numa coisa desse tipo. Estamos quase no século XXI, sabemos perfeitamente bem o que tem na urina e nada daquilo tem efeito terapêutico. (...) Também não me ocorre nenhum malefício, a não ser o psicológico - fazer alguém crer que algo vai funcionar, quando não funciona. Embora eu creia que não haja malefícios, a luz do conhecimento científico me leva mais a desacreditar do que a acreditarAntônio Lázaro Marques, patologista:Eu nunca li nada em revistas médicas, artigos idôneos sobre isso . Por isso, não tenho uma opinião formada a respeito. Mas faço um alerta. Toda urina, dentro dos padrões de normalidade, tem glóbulos vermelhos e brancos. E os glóbulos brancos em potencial podem transmitir doenças viróticas, inclusive a aids, se a pessoa tiver uma ferida na boca. E quem, depois de uma certa idade, não tem uma gengivite?Felinto dos Santos Neto, pediatra:Eu jamais daria urina a uma criança. Porque não acredito. Acho que fisiologicamente não há nada que comprove isso e fazer uma coisa sem comprovação científica é complicado. Nenhum estudo garante que isso aumenta a imunidade, a resistência. É diferente dos tratamentos alternativos que já têm resultados, como a homeopatia, os florais, que nós já vimos benefícios. Eu jamais adotaria um procedimento sem ter um embasamento forte disso e não recomendaria para ninguémPaulo Eduardo de Souza, oncologista:Não tenho nenhum fundamento para dar uma opinião pró ou contra. Não conheço a ação farmacológica, só sei da literatura leiga e de relatos esporádicos. Mas por uma questão fisiológica, se é eliminado do corpo, teoricamente é porque não tem nenhuma função. Quanto a usar, eu não usaria. Também não quero ser preconceituoso. Talvez até tenha algum fundamento, mas eu desconheço e, dentro do que entendo por ciência, não referenciaria a ninguém
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