Geral

Pretória ou Santiago

(*) Miguel Ignatios
| Tempo de leitura: 3 min

A recente reunião de cúpula do Mercosul, realizada em meados de dezembro, em Florianópolis, coloca algumas questões que merecem reflexão de todos nós, brasileiros. O clima que antecedeu ao encontro não poderia ter sido pior: a adesão do Chile à Alca, o agravamento da crise argentina, o suspeito namoro dos nossos vizinhos com os negociadores americanos do governo Clinton; e o anúncio das retaliações por parte dos canadenses a diversos produtos brasileiros, em conseqüência do affaire Embraer-Bombardier, ameaçavam o sucesso do evento.

Em meio a tal sucessão de contrariedades, duas notícias boas, talvez até mesmo excelentes, para o Brasil, passaram despercebidas. A primeira delas refere-se à confirmação de George W. Busch como o próximo presidente dos Estados Unidos, o que poderá mudar radicalmente a atual visão estreita, que, na prática, chega a lembrar a política da big stick e a doutrina Monroe, da atual política externa de Tio Sam para a América Latina. É que, tradicionalmente, as administrações republicanas costumam ser bem mais liberais nas questões externas, ao contrário das dos democratas, em geral, extremamente protecionistas.

A segunda novidade foi a presença, em Brasília, do Presidente da África do Sul, Thabombeki. A importância dessa visita foi totalmente subestimada pela mídia porque simplesmente não houve espaço para ela, em meio à virtual implosão do Mercosul, decretada por alarmistas de plantão.

Uma sutil atitude diplomática do presidente sul-africano também não foi captada por experientes articulistas: em Brasília, Mbeki assinou com autoridades brasileiras um acordo bilateral para o setor automotivo. A partir de 2001, automóveis fabricados no Brasil, desmontados ou não, bem como uma série de componentes e de autopeças, terão alíquotas de importação rebaixadas, o mesmo valendo, daqui a alguns anos, para produtos similares sul-africanos que entrarem no mercado brasileiro.

A sutileza reside no fato de o acordo ter validade apenas para o nosso país e não se estender automaticamente para os demais parceiros do Mercosul. Apesar disso, Mbeki fez questão de prestigiar com sua presença, na qualidade de observador, o encontro de cúpula de Florianópolis. Como já fizera, aliás, o seu antecessor, Nélson Mandela. O recado dado pelas diplomacias brasileira e sul-africana foi bastante claro: Brasil e África do Sul vão negociar acordos comerciais que poderão ser gradativamente ampliados com ou sem os demais parceiros do Cone Sul.

Obviamente, os leitores já deverão estar se perguntando: será que a diplomacia brasileira resolveu trocar o Chile pela África do Sul? Aparentemente não, uma vez que os entendimentos para acordos comerciais daquele país com o nosso e sua eventual extensão para os outros parceiros do Cone Sul já vinham sendo negociados há alguns anos. No entanto, a hábil manobra do Itamaraty não deixa de ser uma resposta à pressa com que os chilenos (e até mesmo argentinos) foram seduzidos pelo canto da sereia da Alca.

Com todo o respeito aos nossos irmãos do subcontinente, se, efetivamente, o futuro do Mercosul tiver sido atingido pelos torpedos dos negociadores comerciais de Bill Clinton, a eventual troca de Santiago por Pretória poderia, sim, tornar-se mais atraente do que a adesão do Chile ao Mercosul, esperada para o final de 2001.

Por sua vez, a retaliações comerciais do Canadá contra o Brasil deveriam servir de alerta para os demais países das Américas do Sul e Central, que sonham em transformar-se em nações desenvolvidas, da noite para o dia, num passe de mágica, com a simples adesão à Alca.

A luta pelo pleno desenvolvimento dos países emergentes pressupõe a união política destes em blocos para contrabalançar o poder dos desenvolvidos.

Que tal começar a acelerar a união do Mercosul com a Comunidade Andina?

(*) Miguel Ignatios é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM) e-mail: presidencia@advbfbm.org.br

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