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Destino sela reencontro após 30 anos

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

A empregada doméstica Maria Imaculada achou seu ex-marido mendigando nas ruas e agora tenta ajudá-lo

A história de vida da empregada doméstica Maria Imaculada Ferreira Pereira, de 53 anos, é uma daquelas que deixaria babando qualquer roteirista de novela. Cheia de desventuras e drama, é um retrato real cujo desfecho começa a ser marcado por um reencontro inesperado. Depois de um casamento mal-sucedido, ela reencontrou o marido nas ruas, mendigando, e agora vem superando todas as dificuldades para ajudá-lo.

Imaculada ainda era bem mocinha quando casou-se com Angelino Ferreira Pereira. Criada por um pai linha-dura, ela conta que pouco espaço teve para conhecer os hábitos - e vícios - do homem que desposaria. Nem sabia, por exemplo, que o passatempo predileto dele era jogar cartas a dinheiro.

A renda do casal no início vinha das roupas que Imaculada lavava para fora e do serviço de reinpreiteiro de Angelino, que acabou se dando bem na profissão e logo teve dinheiro para erguer uma casa e melhorar a situação da família, já ampliada com o primeiro filho do casal. Mas as brigas não demoraram a aparecer por conta do vício de Angelino. Às vezes, ele chegava estúpido em casa e, na primeira vez que me bateu, eu procurei os meus pais. Mas eu gostava dele e acabei voltando, recordou.

Apesar da jogatina, Angelino se deu bem na profissão e logo construiu uma casa. Vivíamos bem, conta Imaculada, que usa a forma com que os filhos nasceram para ilustrar a situação financeira do casal. Meu primeiro filho eu tive particular, na Beneficência Portuguesa; o segundo também nasceu na Benê, que era o melhor hospital da época; já o terceiro eu tive na enfermaria da Maternidade, situou.

A derrocada do casal veio em 1969, quando Angelino começou a perder os bens nas apostas de carteado. Foram duas casas e um despejo de um imóvel que eles ocupavam de aluguel. Quase morri de vergonha quando fui expulsa daquela casa. Aí não teve jeito de agüentar, me separei de vez e fui para casa dos meus pais.

Ao contrário do que esperava, Imaculada não encontrou na família a paz que desejava. Conservador, seu pai não aceitava o fato dela estar em casa separada e com três crianças para criar. Ele vivia me jogando coisas na cara. Eu me sentia muito mal, confessou. A fase negra só clareou quando Imaculada conheceu um homem, também separado, e resolveu morar com ele. Com o novo companheiro, ele teve um filho e as coisas iam muito bem, mas o destino não quis que as coisas assim continuassem. Ele morreu e um abismo parece que se abriu na minha frente de novo, emociona-se.

Passado a fase de luto, Imaculada teve que arrumar um emprego para sustentar os filhos e logo foi bem aceita numa casa de família, onde fazia de tudo. Ainda moça - ela não se lembra da idade, mas julga que estava com 22 anos -, ela passou a aproveitar a vida. Saía com amigas e se divertia com um novo hábito: tomar cerveja e vinho licoroso.

Foi na vida noturna que ela conheceu seu terceiro companheiro, pivô de mais uma desilusão amorosa. Ele falava que era solteiro e passava as noites na casa que eu morava com meus filhos. Logo eu me vi novamente grávida, mas descobri que ele era casado. Sumi da vida dele, que até hoje não sabe que tem um filho comigo, contou. Por conta da decepção, Imaculada teve uma crise psicológica e foi internada. Quando recuperou-se, porém, entregou-se, mesmo grávida, à bebida.

O alcoolismo acompanha a doméstica até hoje, mas o problema é controlado com muito esforço graças às sessões de terapia coletiva no AA. Hoje, só guaraná, suco e água têm vez na geladeira de Imaculada, que vive sozinha numa casa simples, mas própria, no Núcleo José Regino.

A casa, no entanto, pode receber mais um morador, que o destino quis fosse Angelino, o homem que tanto maltratou Imaculada e que agora depende da solidariedade dela para enfrentar as dificuldades. Eu encontrei o Angelino caído numa rua há algum tempo, completamente bêbado e esfarrapado. Descobri que ele estava vivendo da mendicância, bebendo muita pinga e dormindo ao relento, sem tomar banho. No início, eu procurava só saber notícias, mas comecei a ficar incomodada com a situação. Apesar de tudo o que ele me fez, senti um dó danado e resolvi ajudar.

Segundo Imaculada, Angelino já apresenta problemas mentais decorrentes da vida pouco saudável física e moralmente. Há menos de um mês, tentou arranjar-lhe um tratamento no Ambulatório de Saúde Mental, mas não conseguiu vaga. Com muito esforço, o internou na Sociedade Beneficente Cristã, mas já foi avisada que ele não poderá ficar lá por muito tempo. Talvez eu tenha que trazer ele (sic) aqui para minha casa, mas já vou avisando que é só para ajudar (ela faz questão de deixar claro que não o quer mais como marido). Às vezes, Deus quer que o meu destino seja cuidar dele até o fim, resigna-se.

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