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FHC deve olhar para o desenvolvimento

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 8 min

Se o presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) quiser sair com uma boa nota e influir em seu sucessor, vai ter que, efetivamente, tratar, agora, da questão do desenvolvimento do País e do crescimento com justiça social. A afirmação é do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Horácio Lafer Piva, para quem se FHC continuar persistindo no caminho monetarista de seu governo, manterá índices ruins de popularidade.

Em entrevista ao Jornal da Cidade, por telefone, de São Paulo, Horácio Piva afirmou que a reforma tributária é fundamental, neste ano, e que o empresariado deve trabalhar coordenado com a sociedade para que, efetivamente, possa ser concretizada, ao contrário dos dois últimos anos, quando o divisionismo da classe provocou perdas de batalhas.

Piva mostra-se radicalmente contra a antecipação de implantação da Área de Livre Comércio das América (Alca) e diz que o Brasil não pode ceder e só deve entrar na Alca quando souber exatamente o que está ganhando e o que está pagando. Veja os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Como está a situação da indústria, depois de um segundo semestre favorável, com crescimento do índice de empregos e outros indicativos positivos?Horácio Lafer Piva Está bem melhor. Melhoramos muito do ponto de vista conjuntural. Porém, falta muita coisa para fazer, do ponto de vista estrutural. Com isso, tivemos crescimento em 2000, teremos crescimento em 2001, mas não poderemos garantir que o crescimento será sustentado pelos anos seguintes.Estamos esperando, para este ano, um aumento razoável do poder de compra da população brasileira, o que é uma boa notícia para a demanda doméstica, que andava muito reprimida. Alguns setores, como o de alimentos, bebidas, construção civil, perfumaria e vestuário serão beneficiados diretamente. Enquanto isso, outros, como o de materiais plásticos e papel terão reflexos indiretos.

JC Como isso ocorrerá?Horácio Piva Temos percebido que a massa de rendimento real, que basicamente é salário real, tem dado sinais de recuperação, nos últimos meses. Não o valor nominal, mas, notadamente, pelo aumento do pessoal ocupado. Isso vai, sem dúvida nenhuma, trazer algum resultado.

JC Como será esse resultado?Horácio Piva Durante o ano de 2000, o crescimento dos setores foram um pouco assimétricos. Alguns foram muito bem e outros foram mal o de alimentos, por exemplo, teve um crescimento negativo, enquanto que o de telecomunicações teve um crescimento explosivo.Neste ano, acreditamos que o crescimento será mais simétrico em todos os setores, exatamente porque teremos um poder de compra maior.

JC Mas, vejo muitos empresários preocupados. Por quê?Horácio Piva O que nos preocupa? Na nossa opinião, as grandes incertezas vêm do cenário externo, que tem um viés negativo para o Brasil. Temos uma economia mundial que deve crescer em torno de 3,5%, contra 4,7% (não fechou ainda) em 2000; o preço do petróleo está caindo, mas temos o euro em níveis muito deprimidos; temos o mercado de capital internacional que elevou o custo dos empréstimos para os países emergentes; temos a situação da Argentina, que nos preocupa muito; a bolsa norte-americana; e, mesmo, nosso crescimento que deve ficar em torno de 4%, índice menor do que se esperava.

Nossa preocupação é que crescemos no ano passado e devemos crescer em 2001. Porém, aquém daquilo que achamos que deveríamos, porque continuamos sustentando que o crescimento do Brasil deveria ser alguma coisa por volta de 6%, pois temos que criar 1,5 milhão de empregos para os jovens que chegam ao mercado de trabalho. E, depois? Como vamos fazer para resolver nosso constrangimento externo? Nossa balança comercial? Como vamos fazer para ter competitividade dos produtos brasileiros? Que garantia que vamos ter que conseguiremos levantar dinheiro a custos internacionais para investimentos em setores demandadores de capital, como química, papel e celulose, siderurgia, entre outros? Estamos melhores. Mas, para ter o salto quantitativo e qualitativo, tem muita coisa a ser feita. É uma visão de otimismo cuidadoso.

JC Esta situação dos norte-americanos estarem forçando a antecipação da Área de Livre Comércio das América (Alca)...Horácio Piva Não podemos ceder. Só podemos entrar na Alca quando soubermos exatamente o que estamos ganhando e o que estamos pagando. Não podemos ter uma visão ingênua nesses acordos internacionais porque, até agora, temos oferecido nosso mercado com muito pouca contrapartida.

Queremos saber o seguinte: como vão ficar os protecionismos norte-americano e europeu em relação aos produtos brasileiros para negociação com a União Européia e com a Alca. A Alca vem aí e vem com muita força, não tenho dúvida. Agora, vamos ser absolutamente engolidos pelo nosso irmão do norte, se não formos muito cuidadosos nesse processo de negociação.

JC A indústria nacional pode ser prejudicada com a antecipação?Horácio Piva Em primeiro lugar, não vamos aceitar essa antecipação de prazo que eles (os Estados Unidos) estão sugerindo de 2005 para 2002 -, de jeito nenhum. Em segundo lugar, é por isso que estamos defendendo a idéia de que a negociação tem que ser mais dura. Precisamos de tempo para nos adequar e instrumentos para que tenhamos condições de estar produzindo no Brasil produtos de classe mundial.

JC O governo Fernando Henrique Cardoso (FHC) vai ter a coragem de dizer não?Horácio Piva A sociedade, principalmente o empresariado, começa, agora, a mostrar para ele (FHC) que não pode brincar com esse assunto. Já temos um exemplo anterior de abertura absolutamente irresponsável (no governo Collor de Mello) e sabemos quanto pagamos, em termos de desindustrialização e desnacionalização.

JC O senhor falou em reformas. Acredita que a reforma tributária será efetivada neste ano?Horácio Piva Aceito a tese de que perdemos, flagrantemente, a batalha em 2000. Mas, não perdemos a guerra. A reforma tributária é absolutamente fundamental para a competitividade do produto brasileiro. Não só para enfrentar os produtos externos que são vendidos aqui dentro, como para abrir novos mercados, encontrar novos nichos lá fora.

Não fazer a reforma tributária é como colocar o Brasil numa posição reativa, nunca pró-ativa nessa arena comercial. Vivemos um ambiente suficientemente agressivo para aceitarmos essa tese de que vamos conseguir avançar muito na produtividade.

JC Mas, vai sair a reforma?Horácio Piva Acho que teremos que pressionar o Congresso de todas as formas e, principalmente, o presidente, que tem que ser o grande árbitro desse processo, para que essa reforma seja feita.

JC O empresariado está com força para isso?Horácio Piva Vamos testar. Neste começo de ano, estamos pensando quais as estratégias que temos para conseguir fazer isso.

JC O fato do deputado federal Moreira Ferreira (PFL), ex-presidente da Fiesp, estar na Confederação Nacional da Indústria (CNI) vai pesar?Horácio Piva Não tenho a menor dúvida que, nesse caso específico, ajuda. Ele, a Fiesp, a ação empresarial, todos juntos. Enfim, temos que nos movimentar de uma maneira organizada. Aqui, agora, não cabe mais divisionismos, temos que trabalhar pelo objetivo comum, aprendendo com os erros dos últimos dois anos, para fazer esse negócio dar certo.

JC Mas, foi justamente a divisão do empresariado que acabou enfraquecendo o movimento pela reforma?Horácio Piva Isso ocorreu porque o empresário é muito mais concorrente do que aliado. E, aí, acaba perdendo a guerra. Agora, não vai dar mais para a gente brincar.

JC A Lei de Responsabilidade Fiscal vai melhorar alguma coisa em relação à questão da guerra fiscal?Horácio Piva Espero que sim. Mas, continuo afirmando que a questão da guerra fiscal só se resolve através de uma nova legislação tributária, que corrija as distorções do pacto federativo. A Lei de Responsabilidade Fiscal, obviamente, cria algumas limitações para aqueles Estados e Municípios que estavam atraindo investimentos de uma maneira perigosa, muitas vezes, sem contrapartida para sua própria região. Sem dúvida, a lei ajuda, mas não é definitiva.

JC Qual a expectativa da indústria em relação a FHC?Horácio Piva Esse governo tem dois méritos inegáveis. Um foi a estabilidade que, ser dúvida nenhuma, é uma conquista extraordinária. A segunda foi a Lei de Responsabilidade Fiscal. Por outro lado, acabamos pagando uma conta alta demais por uma visão excessivamente financeira, monetarista, do processo econômico como um todo.

O presidente Fernando Henrique parece que começa a ouvir um pouco mais esse lado mais desenvolvimentista, não só da equipe como da sociedade brasileira. Acho que, se o presidente quer sair com uma boa nota e quer influir em seu sucessor, vai ter que, efetivamente, tratar, agora, da questão do desenvolvimento e do crescimento com justiça social. Se continuar persistindo neste caminho, continuará mantendo esses índices ruins de popularidade.

JC O ministro do desenvolvimento, Alcides Tápias, tende a crescer, agora?Horácio Piva O Tápias é muito habilidoso, um sujeito que tem um relacionamento muito grande com o mercado. Isso ajuda enfrentar esse lado mais radical da tecnocracia brasiliense, nos momentos certos, de maneira que ele se torna um ator mais importante a partir de agora. Espero que cresça, porque o Ministério do Desenvolvimento foi com objetivos muito claros.

JC O ministro da Fazenda, Pedro Malan, está enfraquecido?Horácio Piva Enfraquecido ele nunca está. É um sujeito forte, amigo do presidente Fernando Henrique e grande funcionário público, que tem muito claro o que deve fazer. O que estamos querendo não é enfraquecê-lo, é equilibrar melhor e aumentar a força do Ministério do Desenvolvimento.

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