Deveria ser apenas um curso de inglês, mas acabou sendo uma lição para a vida. Eu havia chegado em Londres para permanecer trinta dias. Para dizer a verdade, eu estava mais entusiasmado em conhecer a capital britânica, do que com um curso que duraria tão pouco tempo. Do aeroporto fui direto para uma pequena town, não muito longe do centro de Londres. Hamstead é a cidade satélite escolhida pelos artistas e stars do mundo do rock.
No caminho, ao perguntar a um morador indicações de como chegar ao endereço que procurava, acabei sendo informado que Bon Jovi morava no quarteirão seguinte. Os habitantes de Hamstead são orgulhosos de seus proeminentes. Como a cidade é pequena, não tive grandes dificuldades em encontrar a casa onde deveria me hospedar. Quando cheguei ao meu destino fui recebido cordialmente por um cinqüentão que lembrava muito Rod Stewart. Logo apareceram sua esposa e sua filha. This is my family!, disse, orgulhoso, meu anfitrião. Infelizmente, aquela imagem da simpática família inglesa começou a se desmoronar nos dias seguintes. Cada membro daquela família possuía uma vida totalmente independente. Durante todo o mês não consegui presenciar uma única refeição na qual todos estivessem reunidos.
O casal dormia em quartos separados e o nosso Rod Stewart se dirigia à sua esposa somente para informá-la quando sua refeição deveria estar pronta. A filha passava as noites acordada assistindo TV com o cachorro da casa, depois de preparar meu café da manhã, ela dormia quase o dia todo. Poucas vezes presenciei um diálogo entre os três que durasse mais que dois minutos. Naquele mês me senti morando com um grupo de pessoas que simplesmente viviam debaixo de um mesmo teto, o que na verdade não é ruim, afinal muitas repúblicas de estudantes possuem o mesmo tipo de vida. Mas como se tratava de uma família, devo confessar que a situação foi para mim bastante incômoda e triste.
Afinal, família é muito mais do que tolerância mútua e cumprimento de deveres estabelecidos em um contrato. Sem dúvida alguma a essência de uma família não está em sua estrutura formal. Nós podemos comparar a família com o próprio ser humano. Como a expressão ser humano, família é uma abstração difícil de ser descrita em sua forma. Um ser humano pode ser loiro, branco, negro, com porte atlético ou deficiente físico.
Do mesmo modo que é difícil determinar a aparência exata do ser humano, não é simples descrever a estrutura exata da família. Pois se a aparência do ser humano está ligada ao seu desenvolvimento biológico, a estrutura familiar é dependente da cultura e do desenvolvimento das relações humanas.
Em nosso mundo encontramos famílias monogâmicas e poligâmicas, famílias constituídas de um casal, um casal com um ou mais filhos, simplesmente de avós e netos ou de pais e filhos adotivos. Mas, como no caso do ser humano, a estrutura formal da família é algo periférico. O que faz um grupo de pessoas tornar-se família é o tipo de relação desenvolvida entre seus membros.
A família é, com certeza, uma instituição, mas não se deixa igualar a uma empresa que desenvolve-se à medida que as regras são cumpridas e os objetivos são alcançados. A família é fundamental para garantir a continuação da vida em sociedade; mas para isso, ela precisa ser mais do que simplesmente a manutenção de uma tradição. Na família deve ser desenvolvida a capacidade de amar e perdoar; nela, o ser humano deve também aprender como trabalhar e solucionar conflitos e agressões, sem que o indivíduo e o coletivo sejam destruídos. Na família, devem ser exercitados, sem medo, o dar e receber, permitir e deixar acontecer.
Na família, as pessoas aprendem a amadurecer em conjunto, onde a individualidade e a sociabilidade se desenvolvem simultaneamente. Na família, o sentido da vida vai sendo construído através dos relacionamentos humanos e nela aprendemos o que significa a perda, o luto e a despedida. É na família que aprendemos a nos esquecer para que o outro viva.
Os cristãos possuem um modelo ideal de família: Maria, José e Jesus.
Aparentemente, a sagrada família possui uma estrutura nada convencional: José casou-se com uma jovem grávida. Maria esperava um filho que não era de José e Jesus, apesar de ilegítimo, tornou-se a alegria dos dois.
Mas o que faz dos três uma verdadeira família é a existência sagrada do amor, ou seja, a aceitação do outro simplesmente como ele é. Somente com esta essência um grupo de pessoas pode tornar-se, nas palavras de John Stuart Mill, uma escola de simpatia, de ternura e de um amoroso esquecer-se de si mesmo, ou seja, uma família.
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(*) Especial para o JC Cultura