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Homossexualidade: ainda as discussões

Redação
| Tempo de leitura: 6 min

Enquanto uns pregam que a homossexualidade não é o caminho de Deus, outros tentam evitar discriminação

Em pleno século XXI, questões polêmicas, muitas vezes tomadas como encerradas, ainda geram controvérsia em diversas partes do mundo. É o caso da homossexualidade. Em Bauru, o assunto volta a ser discutido por conta da palestra A perspectiva cristã da homossexualidade, ministrada pela canadense Patrícia Allan Lawrence, coordenadora internacional do Exodus, grupo que se propõe a ajudar os homossexuais a encontrar o caminho de Deus.

A palestra aconteceu no dia 10 de janeiro, no salão paroquial Santo Antônio, e contou com a presença de psicólogos, terapeutas sexuais e membros do Conselho Regional de Psicologia - Subsede Bauru (CRP), preocupados com a possibilidade de haver uma conotação de discriminação da homossexualidade no discurso dos palestrantes. A resolução 1/99 do Conselho Federal de Psicologia (CFP) regulamenta que o psicólogo que classificar a homossexualidade como doença ou aquele que violar a dignidade dessas pessoas poderá ser processado eticamente.

No discurso do Exodus, que estava sendo representado pela canadense, foi colocado que a homossexualidade não seria um caminho aconselhado por Deus e que os que fazem essa opção não conhecem Jesus. A homossexualidade é um problema? Deus ama as pessoas ainda que elas não escolham o melhor caminho. Ele irá estender a mão para ajudá-las. A minha intenção é de que os homossexuais conheçam Jesus. Quando eles conhecerem Jesus, eles começarão a experimentar o que Deus planejou para a vida deles, disse a coordenadora.

A psicóloga Rozangela Alves Justino, membro do Exodus Brasil, acredita que a homossexualidade decorre de aspectos culturais e emocionais adquiridos pela pessoa durante sua vida. Toda a nossa forma de ser decorre de um aprendizado ao longo de nossa vida. Então, eu vejo que a homossexualidade é um comportamento decorrente de fatores emocionais e sócio-culturais. A pessoa pode desenvolver a homossexualidade, como ela pode desenvolver outros papéis na vida dela afirma a Rozangela.

Ela acredita, ainda, que os homossexuais seriam pessoas imaturas no que diz respeito à sexualidade. Deus criou o homem e a mulher para se desenvolver naturalmente. E os seus desenvolvimentos sexuais caminham para a heterossexualidade. Essas pessoas que vivenciam problemas internos são imaturas na vida sexual. No desenvolvimento psico-sexual, é como se elas ficassem regredidas a uma fase do desenvolvimento. A homossexualidade é uma máscara que eles utilizam para poder estabelecer vínculos e relações, em função de sentimento de menos-valia e por não acreditar na própria masculinidade ou feminilidade, enfatiza.

Um dos elementos que marcou o depoimento da canadense Lawrence, que confessou ter sido homossexual em um período de sua vida, é quanto aos conflitos de valores pelos quais a maior parte das pessoas de inclinação homossexual estaria passando. O que eu diria é que, em nosso mundo, há pessoas com tipos de valores muito diferentes. E as pessoas que vêm até nós têm conflitos de valores sobre o que elas sentem e fazem. Eu fui uma dessas pessoas. Eu fui lésbica. Cheguei a tentar me suicidar por isso, confessa Lawrence. Ela acredita, baseada em sua experiência pessoal, que, muitas vezes, apenas aceitar a homossexualidade não é suficiente, já que não tira a culpa que a pessoa carrega. Foi o que levou a coordenadora a tentar o suicídio, de acordo com seu depoimento.

Apesar de não colocar explicitamente o homossexualismo como um distúrbio ou uma doença, o discurso de Lawrence deixa claro que o homossexualismo traz problemas às vidas das pessoas. Se os homossexuais não se tornam heterossexuais, não conhecem Jesus, eles vão para o inferno, disse.

O coordenador do CRP, Sebsede Bauru, Rinaldo Correr, entende que a base da apresentação do Exodus é a de um grupo religioso que ajuda pessoas que se sintam desconfortáveis em relação à homossexualidade. A base do discurso é religiosa - existe o certo e o errado. O que é certo é o natural; a heterossexualidade seria o correto, o que ajudaria o ser humano a ser mais feliz, com menos conflitos sobre a própria existência. Segundo o grupo, a homossexualidade traria um conflito para a vida da pessoa, que seria o conflito com a vida religiosa, interpreta Correr.

Outro aspecto que estabelece diferenças nos conceitos de homossexualidade do Exodus e do CRP é quanto aos fundamentos. O CRP baseia-se em premissas científicas e sociais. No que diz respeito à prática, nós não podíamos discutir lá, já que eles partem de outra premissa, ou seja, a Bíblia, valores religiosos, Deus. Nós partimos de outras premissas, ou seja, a ciência, a regulamentação, a legislação. São premissas diferentes, acrescenta o coordenador.

O Grupo de Ação pela Cidadania Homossexual e o Movimento Lésbico de Campinas (Moleca) sugerem um outro posicionamento para a Igreja Católica. Eles seriam muito mais cristãos se utilizassem seus recursos materiais e financeiros em trabalhos voltados para a inclusão social das minorias, que já sofrem muito com a discriminação e o preconceito, afirmam.

A psicóloga e terapeuta sexual Maria Lúcia Bien aponta um aspecto positivo da palestra A perspectiva cristã da homossexualidade. Ela falou bastante sobre um testemunho dela, mas enfatizou que precisamos compreender o homossexual, disse.

Além disso, acrescenta que não há uma explicação pronta e acabada sobre a homossexualidade. A homossexualidade ainda está em estudo e ainda não existe uma explicação para esses casos. As pesquisas ainda não deram uma resposta, a questão está em aberto. A Ciência está aberta e nós temos que estar sempre abertos a questionamentos.

Além disso, a psicóloga Bien, que acredita que cada caso deve ser analisado individualmente, pensa que a sociedade deve colaborar para a eliminação de discriminações. A sociedade é muito preconceituosa. Ela marginaliza essas pessoas como se a homossexualidade fosse uma doença que pega. Nós poderíamos colaborar estudando, finaliza.

CFP pune discriminação

O Conselho Regional de Psicologia (CRP), órgão institucional que representa os psicólogos no exercício desta profissão, consolida as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), por meio da resolução 1/99 do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que regulamenta a orientação sexual.

A regulamentação, que é baseada nos princípios atuais de respeito aos direitos humanos, no que se refere ao homossexualismo, estabelece que deve ser processado eticamente o psicólogo que classificar a homossexualidade como doença ou violar a dignidade dessas pessoas. Este conselho (CRP-SP) entende que o homossexualismo existe independentemente de algumas pessoas dizerem que isto é certo ou está errado. Temos a convicção de que o compromisso da psicologia é contribuir com o fim das discriminações e preconceitos sociais em relação à escolha sexual das pessoas, afirma o coordenador do CRP, Rinaldo Correr.

Assim, a resolução CFP 1/99 estabelece, em seu Art. 2.º: Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas.

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