Com o fechamento da Porta Santa, em 6 de janeiro, o papa João Paulo II encerra o Grande Jubileu do ano 2000, ingressando, assim a Igreja no terceiro milênio da era cristã. Com 22 anos de pontificado, Karol Wojtila é um homem de muitas surpresas. Muitos acharam que ele não conseguiria atravessar o ano 2000, devido à sua débil saúde. Mas, o papa continua demonstrando que a sua força espiritual supera as limitações e contingências das adversidades físicas. É também de se lamentar a crescente pressão pela sua renúncia (chegaram a jurar que ele iria anunciar seu afastamento no discurso de Natal). Mas, nada disso. Sua agenda para 2001 está bastante intensa. Mesmo assim, há muitas apreensões sobre se o papa conseguirá cumprir até o fim a sua missão como pontífice, justamente em função de suas enfermidades, e até de um certo cansaço visível em suas aparições públicas.
A celebração do Grande Jubileu foi, sem dúvida, o ponto alto do seu pontificado. Sua visita à Terra Santa, e o pedido de perdão pelos erros dos filhos da Igreja ao longo dos séculos foram dois momentos marcantes. O reinado do João Paulo II bateu recordes: o mais longo do século XX, o papa que mais viajou pelo mundo inteiro, que mais beatificou e canonizou cristãos, e tantas outras realizações que dão a dimensão de grandeza deste líder ímpar da nossa atualidade. Aliás, não há outra liderança do porte de Karol Wojtila, capaz de reunir milhares de pessoas para afirmar os valores que dignificam a vida.
O papa sabe que se torna uma voz solitária na defesa da vida contra a prática do aborto, da eutanásia e de todas aquelas formas de atentado à vida que ele definiu tão bem como cultura da morte, e que a Igreja precisa combater. Com coragem, lucidez e consciência do dever de anunciar os valores do Evangelho, João Paulo II não tem se curvado às pressões da opinião pública, e não teme defender a vida em meio a tantos fatores que a ameaçam. No ano jubilar, por exemplo, não se calou diante da crescente aceitação dos governos em legalizar a eutanásia, como ocorreu, recentemente, com a Holanda.
Como homem de surpresas, João Paulo II pode ainda realizar muitas coisas. Há a sua tão sonhada viagem à Rússia, coroando, digamos assim sua vitória definitiva sobre o comunismo. Há também uma viagem prevista para o Brasil, que ele garantiu ao presidente Fernando Henrique (em sua última visita ao Vaticano) de que ele a estaria realizando, pela quarta vez. Aos céticos, ele declarou, na ocasião: Quem viver, verá.
Unidade e conversão marcam a ação de João Paulo II. Nenhum outro papa empenhou-se tanto pelo ecumenismo, e quis expressar em suas encíclicas a sua preocupação com a grave crise moral do nosso tempo, crise do sentido da vida.
Ele está convencido diz Carl Berstein e Marco Politi de que a religião cristã e os sentimentos religiosos em geral ainda têm um grande papel a desempenhar no futuro da raça humana. A mente do velho Papa capta intuitivamente as fraquezas do nosso tempo: uma falta de sentido ético, um crescente relativismo sistêmico, que corrói até os valores seculares, uma sensação de fragmentação, uma incapacidade de assentar os alicerces de uma vida que tenha sentido. A Igreja inicia o terceiro milênio com um papa, já reconhecido em vida como um homem verdadeiramente santo.
(*) Valmor Bolan é doutor em Sociologia e diretor-secretário da Sociedade Educacional Sulsancaetanense.E-mail: valmorbolan@uol.com.br