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Paz, paz, onde te escondes?

N. Serra
| Tempo de leitura: 3 min

Está se repetindo no Oeste Europeu o gesto heróico daqueles três jovens indianos que, no final dos anos 80, instalaram-se em suas bicicletas e saíram pelo mundo em influente pregação cívica contra a guerra. Percorreram, inicialmente, mais de 30 mil quilômetros de rodovias, avenidas e ruas, aparecendo em muitos países, apresentando-se a vários povos de línguas diferentes e externando disposição decisiva de prosseguirem incansavelmente a caminhada, visitando as demais nações porque achavam, na época, que sufocar o conflito entre iranianos e iraquianos e eliminar a luta de facções existente no Líbano, nas Filipinas, na Nicarágua e noutras glebas de vários continentes dependia tanto de quantos estavam se estraçalhando nas suas próprias áreas, sob o volumoso troar dos petardos dos canhões e da fuzilaria dos possantes aviões, como dos que privilegiadamente se encontravam à distância da obsecada fúria das contendas. Em todas as cidades por onde transitavam falavam de paz e concórdia, desfraldando freneticamente a bandeira do amor fraterno.

Até que ponto poderia ser compensatório o nobre sacrifício dos três jovens das Índias distantes seria, sem dúvida, uma ressonante interrogação, porque, a bem de ver, defender a paz junto aos ouvidos de quem desejava e ainda deseja a guerra seria como que repetir Cristo falando de amor a homens desamorados, ensimesmados, egocêntricos e envaidecidos pela força e pelo poder que as circunstâncias enfeixavam em suas mãos. Cercados por uma maioria universal constituída de indiferentes, medrosos, acomodados e coniventes, o que poderiam fazer os amantes das hecatombes e das dissensões político-sociais para ao menos tentar refrear seus instintos bélicos e suas perigosas tendências? Nada, absolutamente nada, porque a passividade dos que os cercavam lhes parecia incentivo incontrolável para o desenvolvimento de suas bestialidades congênitas. Que será que as pessoas de então pensavam das pessoas de então. O que será que as de hoje pensam das de hoje? A partir de tal raciocínio poder-se-ia perguntar o que os mandantes e executantes das guerras e conflitos de ontem e de hoje, como os atuais do Oriente Médio e de outras áreas, pensam dos que sofrem com o amargo fel de suas loucuras, inspiradas por seus espíritos belicosos e pelas vantagens inerentes da pujante indústria de armamentos existente por aí, que produz dia e noite unicamente coisas mortíferas? O que pensariam, inclusive, das pequenas e depauperadas legiões humanas que, de vez em quando, estoicamente se lavantam aqui e ali contra a proliferação de armas nucleares, como estão repetindo, em regiões da Europa e da África, esses novos grupos de jovens idealistas que se desinstalaram de suas gostosas comodidades domésticas para saírem mundo além pregando a paz e a mansidão nos corações dos homens de todos os tamanhos? Saiba-se lá o que pensem? Provavelmente, desconsiderem as responsabilidades que a todos incumbe quanto à preservação do futuro da humanidade, porquanto instalados no âmago das competitividades sociais a qualquer custo, mesmo que ao preço da própria vida, como se caracterizam os novos tempos. Tomara se questionassem, perguntando: paz, paz, onde te escondes?

É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é jornalista responsável do JC e delegado da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)

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