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Ferrovia: particular boa, estatal ruim, privatizada pior

(*) Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Já tivemos uma das melhores, quiçá a melhor, ferrovia do mundo. Era a Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Sua composição azul, de passageiros, introduzida na década de 1950, fazendo o trecho Marília-São Paulo, era excepcional. Os carros de segunda classe tinham os bancos estofados e numerados, ninguém podia viajar de pé, tinham água gelada e um faxineiro que os mantinham limpos o tempo todo. As poltronas da primeira classe eram recobertas de veludo. Havia um carro especial, o pulman, com poltronas individualizadas, recobertas de couro, com giro de 360º, com ar condicionado e gabinete para fumantes. Entre o pulman e os carros de primeira classe ficava o restaurante, de classe internacional. Na composição noturna foi introduzida a cabine individual, apelidada Gilda. Era um mini-apartamento, com cama, instalação sanitária e uma poltrona, que aparecia com a desmontagem da cama, para o final da viagem. Saia-se dela pronto, como se estivesse passado a noite num apartamento de hotel. A via permanente, de bitola larga, tinha uma manutenção rigorosa. A movimentação dos comboios, de Bauru a Jundiaí, era feita pelo CTC (Controle Automático de Tráfego), que combinada com a manutenção do material rodante e da via permanente davam uma segurança total. Viajava-se com segurança e conforto. Não se ouvia falar em acidentes.

Duas outras ferrovias serviam Bauru, a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, federal, que partia daqui em direção a Mato Grosso, e a Estrada de Ferro Sorocabana, estadual, através de um ramal ligado ao tronco em Rubião Júnior, no município de Botucatu. Embora o padrão dessas duas ferrovias fosse inferior ao da Cia. Paulista, mesmo assim eram bem organizadas e bem conservadas. A vista aérea da esplanada da estação, incluindo as oficinas da Noroeste, era o cartão postal de Bauru. A cidade orgulhava-se de ser um entroncamento ferroviário. Nas décadas de 1950/60, salvo engano, a cidade possuía algo em torno de quatro mil ferroviários, formando o seu mais forte segmento econômico. A Praça Machado de Mello era o coração da cidade. A estação primava pela limpeza, quem não ia viajar somente tinha acesso à plataforma pagando ingresso.

Pois bem, em 1957 o Governo Federal criou a Rede Ferroviária Federal, absorvendo a Noroeste. Três ou quatro anos depois, o Governo de São Paulo, pressionado pelos sindicatos, encampou a Cia. Paulista, que depois foi juntada às outras ferrovias estaduais formando a Fepasa. A partir daí, todas as ferrovias se tornaram propriedade do governo, Federal ou Estadual, e iniciaram um período de decadência irreversível. Por serem grandes organizações e das primeiras a serem constituídas sobre rigorosos princípios de racionalização e, mais ainda, por possuírem um quadro de funcionários de elevado padrão técnico e moral, a decadência foi ocorrendo aos poucos. Mas aconteceu e a salvação parecia estar na privatização. Partindo do pressuposto de que a administração privada é mais eficiente que a pública e que a privatização das ferrovias poderia tirá-las de uma situação deficitária e revitalizá-las, sob protestos e apupos elas foram parar em mãos particulares. E o que aconteceu? O desastre total. Os novos proprietários vêm exercendo uma função sugadora e predatória. Diminuíram os custos, dispensando a maior parte do quadro de pessoal, e não fizeram nenhum investimento. As vias permanentes estão desaparecendo por falta de conservação, com trechos onde nem dormentes mais existem. Em pouco tempo, talvez os trens, que ainda não tenham desaparecido pela ferrugem, precisem rodar com pneus, porque os trilhos terão desaparecido na terra. Mesmo assim, para extrair o máximo, formam composições de cinqüenta ou mais vagões, quando na época em que eram bem conservadas as composições rodavam com uma média de vinte vagões. O resultado são os acidentes com enormes descarrilamentos, como vimos recentemente.

Quer ficar triste? Faça um passeio turístico pelo que foi o nosso imponente entroncamento ferroviário. Se nas mãos do governo estava ruim, com o particular ficou pior.

(*) O autor, Pedro Grava Zanotelli, é professor e diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru, da ITE e-mail: pegrazan@techno.com.br

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