É verdade que as rádios e TVs educativas nacionais - nem todas têm essas derivantes - mantêm apresentações voltadas para a música e os cancioneiros que embalaram os sonhos de nossa gente no passado. Mas dizer-se que isso é o bastante para manter viva e retumbante a memória de tão importante área de cultura seria uma triste condenação da verdade, pois a Nação precisa de muito mais para atingir o ideal no setor. Se as últimas gerações, salvo exceções, embasbacam quanto inquiridas sobre vultos como Getúlio Vargas, Washington Luiz, Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e outros de participação intensa na vida política nacional, será que conseguiriam dizer alguma coisa sobre Chiquinha Gonzaga, Ari Barroso, Lamartine Babo, Almirante, Francisco Alves, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Carmem Miranda, Vicente Celestino e as melodias, pelo menos as principais, que eles compuseram ou interpretaram em passado distante?
Tudo indica que não, porque jamais se desenvolveu no País um trabalho realmente sério, realmente profundo, tendo como por escopo sustentar através dos tempos a obra e a imagem dos compositores e intérpretes que mais influência exerceram sobre o encantamento do nosso povo nas primeiras manifestações da nossa música popular. Diga-se que há muito o que fazer nesse sentido, de ponta a ponta do território nacional, não fôssemos uma nação que ainda engatinha nos corredores da civilização. Daí, considerando-se que o País está correndo na era dos programas e projetos oficiais, muitos de iniciativa dos governos federal e estaduais e outros tantos creditados ao empreendimento privado, oportuno seria despertar-se esta ou aquela órbita para a idéia da estruturação de um trabalho permanente, sistemático, não acidental ou esporádico, visando trazer e manter sempre presente nas cogitações nacionais tudo quanto foi legado pelos valores do cancioneiro patrício de ontem. Em Buenos Aires, onde estivemos há algum tempo, percebemos que até crianças sabem quem foi Carlos Gardel, cujos tangos e milongas são cantados, tocados e dançados intensamente nos calçadões da Florida e da Lavalle, nos passeios de Santa Fé, nos amplos e verdes gramados da 9 de Julho, a mais larga avenida do Mundo, e nas modestas calles da Boca. Nas casas noturnas, então, jantares e shows que não inserirem no programa melodias de Gardel e Canaro não atrairão o público, porque o primeiro, falecido há 50 anos, continua sendo ídolo inspirador das belíssimas noites portenhas, lembrando sempre La cumparsita, El dia en qui mi quieras e outras. No Brasil, no entanto bem pouco se faz da lembrança do grande Francisco Alves, que em seu tempo rivalizou com Gardel em popularidade e dons artísticos.
Estamos vivendo o ciclo dos projetos, repetimos. Há muitos que estão em andamento por aí. E seria o momento dos poderes competentes lançarem também um que ponha definitiva e permanentemente nas ruas e praças, nos teatros e salões recreativos, nos palácios e casebres, desde os igarapés da Amazônia aos arroios dos Pampas, as nossas esquecidas canções e as vozes emotivas dos nossos olvidados seresteiros de ontem. É exatamente assim que meu Brasil brasileiro, meu mulato insoneiro, vou cantar-te nos meus versos, não é mesmo inesquecível Ari, mineiro das Alterosas, como eu...
(*) O autor, N. Serra, é jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado