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Retenção do café não deve ter efeito

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 5 min

A decisão de implementar seriamente o plano de retenção de 20% das exportações de café, tomada pelos principais produtores mundiais, em reunião da Associação dos Países Produtores de Café (APPC), em Londres, na Inglaterra, não deverá ter efeito prático, segundo indica o mercado. A afirmação é de Maurício Lima Verde Guimarães, presidente do Sindicato Rural de Bauru, vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp) e membro do Conselho Deliberativo da Política Cafeeira (CDPC), para quem não há fato novo que possa fazer reagir o mercado internacional, que não se abalou com a não-venda realizada pelo Brasil, Vietnã e Colômbia. Ele lembra que a dificuldade é saber se todos os países vão cumprir a retenção

Até agora, Brasil, Vietnã e Colômbia já haviam retido 3,5 milhões de sacas de 60 Kg, das quais 2 milhões do Brasil e 900 mil do país vizinho. Porém, o mercado ignorou tal ato e o preço continuou a despencar, chegando a R$ 120,00 o café Arábica, que representa 65% da produção mundial, cotado ao valor mais baixo dos últimos dez anos, e a R$ 65,00 o café Robusta, que é 35% da produção mundial e chegou ao preço mais baixo dos últimos 30 anos.

Lima Verde acredita que a retenção poderá ter algum efeito a médio e longo prazos. Porém, afirma que o setor precisa de resultados de curtíssimo prazo, pois o preço de venda está muito menor que o custo de produção.

A retenção, afirma, é uma atitude que está sendo adotada empiricamente pelos países produtores, mas que não vem resultando em algo positivo para o produtor. Quando começamos a retenção, estávamos vendendo café por R$ 190,00. Agora, está a R$ 120,00. Sob o aspecto do produtor, foi muito ruim, não funcionou como deveria, afirmou.

Para ele, existe uma série de razões técnicas para isso, entre as quais o fato de que os países asiáticos não têm dinheiro nem política para implementar a retenção. Porém, alegam que, agora, vão começar a colheita e, por isso, terão a possibilidade de iniciar a não-venda.

A Colômbia propôs, em Londres, o estabelecimento de cotas de exportação. Lima Verde lembra que o Brasil nunca cumpriu essas cotas, já estabelecidas em outras oportunidades. Por isso, durante algum tempo, os especialistas chegaram a chamar a APPC de Clube do Pinóquio, pois todos mentiam, todos faziam de conta que acreditavam e, de fato, não funcionava.

Ignorar

Com a visão de produtor e representante da categoria, Lima Verde propõe que a retenção seja ignorada, porque acredita que é uma perda de tempo. Não vai ter influência, a curto prazo, nos preços do café, pois não existe razão técnica ou climática para que ocorra uma mudança de quadro.

O vice-presidente da Faesp, que deveria estar na reunião de Londres e só não viajou por motivos familiares, diz que é preciso dar ao produtor uma condição de resistência que, segundo ele, só pode vir do lado do governo. Para isso, seria necessário o atendimento de diversas reivindicações. A primeira é prorrogar todos os financiamentos pedido que já está no Conselho Monetário Nacional (CMN). A intenção é que todos os contratos vencidos a partir de dezembro sejam prorrogados até o preço do café atingir um nível mais aceitável. Esse dinheiro não é do Tesouro Nacional, é do Funcafé. Mas, o Fundo opera como um banco e, na medida em que os cafeicultores não pagam, não tem mais dinheiro para aplicar. Esses financiamentos representam cerca de R$ 250 milhões, que vão vencer até março, destacou.

Prevendo que o dinheiro do Funcafé pode acabar com a falta de pagamentos e a impossibilidade de se captar em outras fontes, a não ser que o governo resolva vender os estoques reguladores, o que não deve ocorrer, pois pode deprimir o mercado, as lideranças rurais estão querendo que os bancos privados, que só emprestam R$ 40 mil por produtor, elevem esse teto para R$ 150 mil, para custeio da produção.

Para Lima Verde, essas medidas podem ajudar os produtores a permanecer na atividade. Se as medidas não vierem e os cafeicultores entenderem que a retenção não dará resultado, muitos podem parar com o café.

Vale lembrar que o País vem obtendo colheitas pequenas, nos últimos seis anos, menores do que o necessário para suprir os 18 milhões de sacas, para exportação e 15 milhões para o consumo interno. O sindicalista afirma que a safra anunciada pela Embrapa, de pouco mais de 26 milhões de sacas indica mais um ano de colheita muito baixa. Se houver uma guerra de preços, vamos vender o que e para quem? Não temos munição café suficiente para uma guerra no mercado internacional. Se houvesse, seria necessário uma contrapartida do governo, que teria que subsidiar a diferença, o que não será aceito pela sociedade, afirmou.

Lima Verde acredita que, em março, o Brasil possa deixar a APPC, em razão do fato dos outros países não terem cumprido a retenção. Ele diz que em toda sua vivência na agricultura, nunca viu tão pouco horizonte pela frente como agora.

Sem queda ao consumidor

Apesar da queda no preço do café no mercado internacional, o valor da venda do produto no mercado nacional não teve redução de preços. Maurício Lima Verde Guimarães, presidente do Sindicato Rural de Bauru, vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp) e membro do Conselho Deliberativo da Política Cafeeira (CDPC), diz que apesar da redução o brasileiro continua pagando os mesmos R$ 5,00 por quilo do pó de café.

De acordo com o mercado, no Brasil, a matéria-prima só significa 20% do preço total do café. Mesmo assim, reclama o sindicalista, deveria ter ocorrido alguma redução, como ocorre em outros países, como os Estados Unidos. Ele diz, ainda, que o cafezinho vendido pronto também não teve queda de preços. Lima Verde afirma que é o torrefador que afirma está ganhando mais. É o único setor que não está perdendo dinheiro, destacou.

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