Índia e Brasil continuam liderando ranking mundial de registros da doença, vista com preconceito pela sociedade
O combate à hanseníase está sob controle no Brasil. A afirmação é do diretor técnico da Divisão de Pesquisa e Ensino do Instituto Lauro de Souza Lima, Diltor Opromola, um dos maiores especialistas da doença no País. A data de hoje foi escolhida para ser lembrada como o Dia Estadual de Combate à Hanseníase, denominação científica que passou a valer a partir de 1968 em substituição a lepra, termo que era carregado de preconceitos.
Provocada pela bactéria identificada como mycobacterium leprae, a doença tem registros milenares. Segundo Opromola, cerca de 500 anos antes de Cristo a hanseníase já se manifestava em países com grandes contingentes populacionais, como as regiões compreendidas pela China e a Índia. Até 1940, a doença era incurável e seus portadores acabavam confinados. O ano de 1980 foi considerado o ápice mundial da hanseníase. Mesmo após a descoberta das drogas, cerca de 14 milhões de pessoas estavam contaminadas em todo o mundo.
Passados 20 anos, Opromola diz, com convicção, que a situação está sob controle no mundo e no Brasil. O médico explica que existem no planeta aproximadamente cinco milhões de registros da doença, dos quais menos de 1 milhão de casos estão em tratamento. Outros 600 mil surgem anualmente. Embora seja um número que causa impacto num primeiro momento, a evolução das drogas faz com que a situação fique sob controle.
No Brasil, há registros de que 75 mil pacientes estão em tratamento atualmente. Por ano, surgem 45 mil novos casos. As regiões Norte e Centro-Oeste são as mais atingidas pela doença. O Estado do Maranhão é o mais infectado. Em Bauru e região cerca de 600 pacientes recebem tratamento. Trinta novos casos surgem anualmente. A propagação da hanseníase está intimamente ligada às condições sócio-econômicas da população. A falta de higiene, a promiscuidade e a deficiência alimentar são fatores de risco para o seu desenvolvimento.
Trata-se de uma doença infecciosa. Os primeiros sintomas são o aparecimento de manchas na pele, geralmente acompanhadas de distúrbios de sensibilidade. Nesse estágio, a doença não apresenta perigo de contágio. Opromola explica que se todos os infectados descobrissem a hanseníase nessa fase inicial, a cura seria mais fácil e não haveria mutilações.
A doença se desenvolve de acordo com o perfil imunológico da pessoa. Em muitos casos, o próprio organismo cura a hanseníase, sem a necessidade da intervenção de um tratamento. São suas formas benignas e não contagiosas. No caso inverso, sua progressão compromete os nervos. Trata-se de uma das doenças que mais gerou incapacitados, números que superam até mesmo a poliomielite.
Asilo Aimorés
Inaugurado no dia 13 de abril de 1933, o então Asilo Colônia Aimorés de Bauru foi um dos cinco locais de confinamento construídos pelo Estado para abrigar os hansenianos. Os doentes eram internados compulsoriamente e as chances de voltarem a ter uma vida normal eram mínimas, já que a doença não tinha cura.
A colônia funcionou como uma verdadeira cidade, chegando a abrigar mais de mil pessoas. No seu interior havia equipamentos urbanos de uma cidade normal. Cadeia - aplicada para aqueles que desobedeciam as regras internas ou então fugiam -, cinema, emissora de rádio, biblioteca e até mesmo um cassino, hoje em fase de restauração.
Com a descoberta da cura da hanseníase e com a evolução dos medicamentos, a partir de 1968 os doentes abandonam as colônias e passam a ser tratados em ambulatórios. O que era colônia e hospital, transformou-se no Instituto Lauro de Souza Lima, reconhecido internacionalmente pelo caráter de pesquisa que desenvolve.
No Estado de São Paulo a configuração territorial da doença assemelha-se a uma colcha de retalhos. São cerca de dois mil novos casos por ano. Segundo Opromola, o combate à hanseníase é uma das prioridades do governo, através do Ministério da Saúde. Existe um trabalho maravilhoso sendo realizado. Há vontade política, define.