Van Doesburg proclama em 1917: Nossa pintura é uma pintura concreta e não abstrata porque superamos a fase das pesquisas especulativas. Pintura concreta e não abstrata, porque nada há de mais real do que uma linha, uma cor, uma superfície. É a investigação do espírito criador.
Obviamente, Théo van Doesburg (1883-1931) formulava os conceitos de uma nova estética, mas foi sem dúvida outro holandês, Piet Mondrian (1872-1944), o seu inovador. Sua obra é o resultado de uma procura permanente, profunda, que culminou com a conquista de uma nova ordem que regulariza o mundo da percepção e da experiência, mundo este que lhe abriu, primeiramente, as portas de uma nova linguagem e que ele, posteriormente, voltou a fechar tal a impossibilidade de qualquer avanço na mesma direção. Pai do neoplasticismo ou concretismo, pensador e poeta, homem de sólida cultura, Mondrian lançou-se tenazmente à procura de um dogma tão válido e consistente como os mandamentos de Moisés, e foi buscá-lo na austeridade religiosa remanescente do próprio ambiente familiar. Por isto, é que afirmava ser a naturalização um dos pontos essenciais do progresso humano, aduzindo que, naturalizar significa subtrair, em outra palavra, abstrair.
Ele propunha o abandono da sensibilidade individual em favor da sensibilidade universal, pois somente esta é capaz de se expressar através da plasticidade pura e abstrata. O artista deve ser, segundo suas teorias tão exato como a matemática, porquanto apenas essa exatidão lhe fornecerá os meios imprescindíveis para interpretar os fatos primordiais da natureza. Consciente de que estava indicando novos caminhos no mundo da arte, mas ao mesmo tempo não ignorando que conduzia esta mesma arte para um beco sem saída, Mondrian era o princípio e o fim, afirmou judiciosamente Frank Elgar, sendo portanto, impossível avançar mais do que ele no sentido da abstração pura.
Seduzido pelo clamor convidativo do novo mundo, viajou para a América, mesmo porque a Europa vivia os pavores da guerra contra Hitler, dificultando a vivência do mundo artístico, jovem e inovador. Mondrian viajou aos EUA, fixando-se em Nova York. Conheceu a vida social, profissional e artística do povo americano e, a ele, se integrou. O resultado dessa transformação de vida, foi a mudança de estilo.
Baniu o negro, reforçou as linhas amarelas, vermelhas e azuis. Um apelo geométrico surgiu em pequenos retângulos, enriquecendo o cromatismo das cores básicas. Bom exemplo é a tela Broadway Boogie-Woogie (estava na moda musical americana novo ritmo, uma variação do blues negro, porém com estrutura de ritmo sincopado com forte sentido dinâmico. A harmonia, confiada à mão esquerda, se mantém sem alteração, enquanto a direita desenha figurações melódicas igualmente ritmadas). Em Nova York, em 1942, quando foi exposta, Broadway Boogie-Woogie provocou comentários críticos. Um deles, de Herbert Read, dizia: É uma senda revolucionária na expressão da beleza universal; o reflexo da realidade no absoluto das formas geométricas. São impressionantes, detalhadas e infinitas as derivações lineares, causando extravagante ressonância. Algumas vezes, vemos sobre a superfície quase nua, o despontar de linhas negras que brilham com seus elementos coloridos.
Os neoplasticistas ou concretistas não consideram a plástica uma conseqüência da visão exterior, mas exclusivamente o resultado da visão íntima, interior, do artista. Fogem da imitação e adotam a representação consciente, premeditada, afirmando que a espontaneidade deturpa, é irracional e, conseqüentemente, inibidora do frio raciocínio intelectual. Suas composições artísticas suprimem as diagonais submetendo-se rigidamente ao retilhismo da ordenação horizontal-vertical. Do programa concretista constava uma estética baseada nas relações mais puras de linhas e tons, elementos construtivos também puros por sua vez, que podem levar à conquista da beleza.
A partir de então, a beleza casta não é somente exigível, mas o único meio de conduzir à manifestação da força universal pura encontrável no mundo. Portanto, os meios que caracterizam o neo-plasticismo criado por Mondrian, são o anti-individualismo e a objetividade. Austeridade, lucidez, impassividade, eis o cartaz que o pintor deve colocar à porta do seu estúdio, complementa ainda Elgar. Para o artista concretista, a obra de arte deve definir-se no próprio ato da criação, uma vez que ela adentra o campo misterioso da concepção, onde a emoção estética é absoluta e, por isto mesmo, gera o nascimento do absoluto puro, simples e autêntico.
O pintor moderno, reitera Mondrian, deve abandonar os meios naturalistas e buscar no mais profundo do próprio ser a inspiração artística. A realidade ou o mundo exterior não existem. Tal como Platão, Mondrian intentava encontrar uma realidade essencial, absoluta, cósmica. Encontrou-a na sua estética que, reconhecida, permaneceu. A Holanda produziu três grandes artistas, geniais: Rembrandt, Van Gogh e Mondrian.
(*) Mestre em história da arte, crítico musical e presidente do Clube Amigos da Boa Música (CABM).