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Terapia do riso favorece recuperação

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 4 min

Deitada num quarto do Hospital da Criança, em São Paulo, com soro no braço, Giulianna Kim, de 7 anos, ouve o diagnóstico às gargalhadas: você está com miolo mole, vamos ter de extrair, diz, séria, a especialista em besteirologia, dra. Juca Pinduca. Cenas assim repetem-se sempre que os Doutores da Alegria, grupo fundado em 1991 para animar crianças hospitalizadas, visitam seus pacientes.

Com transplantes de nariz vermelho, transfusões de milk shake e injeções de ânimo, os Doutores da Alegria conseguem levar risadas ao ambiente tenso dos hospitais.

Eles nasceram da obstinação do ator e palhaço Wellington Nogueiraque tem a experiência acumulada em nove anos na Broadway, em Nova York, e de três no Clown Care Unit, a primeira entidade criada no mundo para alegrar a rotina hospitalar.

Aos poucos, conseguiu divulgação e apoio. Hoje, são 25 doutores atuando em dez hospitais em São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas. Para manter suas atividades não lucrativas, têm patrocínio da Itaú Seguros, e 247 sócios contribuintes. O que nos abriu as portas foi nosso profissionalismo no trabalho, contou Nogueira.

Apesar do caráter social e humanitário da atuação dos autodenominados besteirólogos, nenhum deles é voluntário. Desde o início, a grande batalha de Nogueira foi para que a entidade pudesse se autosustentar e contar, assim, com uma equipe profissional, remunerada e comprometida com dias e horários.

Todos os Doutores da Alegria são atores profissionais altamente especializados nas áreas do teatro clown (traduzido para o português como palhaço) e técnicas circenses, que, para chegar ao grupo, passam por seleção e, depois, treinamentos específicos para lidar com crianças, principalmente, as fragilizadas pela doença e internação.

Aperto no coração

Vestidos com jalecos brancos, como médicos de verdade, mas repletos de penduricalhos coloridos, os Doutores da Alegria chegam pedindo licença. Autorização concedida, fazem tanta palhaçada que é impossível não cair na risada. Com mímica, música, dança, piadas e inventando situações cômicas, vão adequando suas encenações à idade e ao estado da criança.

Se o diagnóstico é de que ela passa bem, os médicos lhe dão um ferro de passar roupa de plástico para que entre na brincadeira. Como você passa bem, brincam, enquanto o pequeno se diverte passando o jaleco do doutor.

Crianças estacionadas nas camas, por muito tempo, recebem uma alegre multa e são estimuladas a caminhar e a desenhar. Nosso objetivo é brincar e provocar a criança, explica a dra. Serena, nome artístico da atriz Soraya Saide. Ela é nossa parceira e só trabalhamos com o que nos dá.

Nem sempre é fácil. Alegrar crianças com doenças crônicas e sofrendo muitas dores exige enormes doses de criatividade e sensibilidade. Como a que teve a própria Dra. Serena numa de suas visitas ao Hospital do Câncer.

Ao ouvir o choro triste de um menino de 7 anos, que não enxergava os palhaços, depois de ficar cego devido a um tumor, a doutora disse-lhe como as outras partes do corpo podiam enxergar. Apesar do aperto no coração, falei que o nariz enxergava o chulé e o cheiro do sovaco, e as mãos, os objetos. Foi quando o pai do garoto chegou. Com suas mãozinhas, o menino o reconheceu e começou a sorrir. Foi uma das minhas maiores alegrias, contou.

Efeito terapêutico

O resultado do profissionalismo da entidade se percebe na aprovação unânime de crianças, pais e médicos. Sentimos uma grande diferença desde que os Doutores passaram a atuar, explica a pediatra Maria Inês Pinto Nantes, do Hospital da Criança da Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, o pioneiro a abrir as portas ao projeto. Eles deixam as crianças e as famílias mais tranqüilas e receptivas ao nosso trabalho.

Segundo a psicóloga Morgana Masetti, que acompanha o grupo há sete anos e que lançou um livro com os efeitos de sua atuação (Soluções de Palhaço - Transformações da Realidade Hospitalar), meninos e meninas perdem o medo, alimentam-se melhor, ficam mais animados, falantes e com uma postura mais positiva em relação ao tratamento e à recuperação. É um recurso artístico com efeito terapêutico. Os pais concordam.

Com a filha Fernanda, hospitalizada com desidratação e arrastando pelos corredores o soro num suporte de rodinhas, a agente de viagens Andréa Sénéchal garante que a empolgação dela e das outras crianças com os doutores é tanta que o assunto na sala de desenhos é só esse. Elas trocam as experiências que tiveram nas visitas, contou. Fernanda se divertiu tanto com a performance dos médicos de mentirinha que resolveu desenhá-los.

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