Você já assistiu a um teatro de bonecos? Bonecos de vara, de luvas, de fios ou de manipulação direta podem tirar a gente da realidade. Eles convidam para uma viagem que assemelha-se apenas àquelas aventuras imaginadas nas páginas dos livros. Participar de um espetáculo de bonecos é realmente um momento especial. Agora imagina ser o criador desses seres encantados? Com jornais velhos e fita crepe você será capaz de criar personagens engraçados, sérios e até dramáticos. Basta ter criatividade e força de vontade.
O JC Criança foi conversar com Evaldo Barros, 35 anos, um mago do mundo dos bonecos, como funciona essa mágica de transformar jornais velhos em personagens de história. Bruxas, fadas, duendes, cavaleiros, mocinhas e heróis nascem das mãos de Evaldo, que cria a personalidade de cada boneco durante a sua confecção. Ele fez faculdade de letras, é bonequeiro, ator ou, como é muito conhecido, titereteiro (ator que manipula bonecos).
Desde menino Evaldo mostrou interesse em ser ator. Minha tia sempre dizia que eu gostava de interpretar. Na escola, queria ser o noivo da festa. Sempre era escolhido para participar das peças de teatro. Aos cinco anos, ele ganhou seus primeiros bonecos de luva, os fantoches. Outra coisa que Evaldo gostava de fazer era imitar personagens de comerciais da televisão. Em Curitiba, no Paraná, encontrou um lugar especial chamado Centro de Animações, coordenado por Manoel Kobachuk, que é um dos grandes mestres do teatro de bonecos do Brasil. Lá eu aprendi a fazer todos os tipos de bonecos, usando materiais diferentes, lembra Evaldo. Ele começou como manipulador e aprendiz e só depois começou a escrever histórias para teatro, uma das grandes paixões de Evaldo. Ah! Antes do Evaldo ir para Curitiba, ele trabalhou em um programa infantil, na TV de Araraquara, onde manipulava os bonecos e fazia trabalhos como ator.
Há dois anos, Evaldo trabalha com bonecos em Portugal. Lá, ele ensina crianças, jovens, adultos e idosos a fazer bonecos de jornal, interpretar e contar histórias. Ele foi para Portugal com seu primeiro espetáculo como solista, que teve a sua concepção e direção do Manoel Kobachuk. Naipi e Tarobá - a Lenda da Foz do Iguaçu fez muito sucesso ao ser apresentado aos portugueses. Depois, Evaldo escolheu uma lenda portuguesa para ampliar seu trabalho de bonecos. A lenda das amendoeiras em flor foi toda produzida por ele. Desde a concepção, construção dos bonecos e direção, conta Evaldo. Em abril, ele vai estrear Chapeuzinho Vermelho.
Boneco de manipulação direta
Mãos à obra!
Materiais: Jornais velhos e um rolo de fita crepe (dá, em média, para dois bonecos)
* Dica importante, tenha sempre vários pedacinhos de fita crepe cortados e coladinhos na mesa para facilitar a confecção de seu boneco. Em alguns momentos serão necessários pedaços menores e em outros pedaços maiores.
Dobre uma folha dupla do jornal em quatro partes. Depois, enrole com bastante firmeza para fazer um bastão. Cole vários pedaços de fita crepe para fazer o rolinho. Repita a operação mais uma vez, pois vamos precisar de dois bastões deste tamanho.
Agora, em uma única folha de jornal, faça uma dobra no meio e divida esta meia página em três pedaços de papel. Na verdade, vamos precisar de cinco pedaços para confeccionar cinco rolinhos finos. Enrole cada um dos papéis e coloque os pedaços de fita crepe. Sempre coloque a quantidade de fita suficiente para não desfazer o rolinho.
Pegue uma folha e amasse bem. Quanto mais amassada a folha de jornal, mais fácil fica de manipular. Assim a gente consegue a forma que quiser, explica Evaldo. Agora, com um dos bastões maiores, você vai fazer uma colher. É importante revestir completamente de fita, até não aparecer nenhum pedacinho de jornal.
Colher pronta, é o momento de fazermos os dedinhos. Isso mesmo. Cada rolinho será um dedo. Ah! faça apenas a mão esquerda, do boneco. Observe como é a sua para dar início à colagem. Comece pelo dedo central. É preciso pregar um dedo de cada vez, para não descolar depois, explica Evaldo. E por último, o dedão.
Vamos fazer a cabeça do boneco. Pegue duas folhas de jornal e amesse bem. Coloque o dedão no meio para fazer um buraco na bola de jornal e ali coloque o outro bastão. Cubra com fita crepe. Se for necessário, pode aumentar o volume da cabeça com mais uma folha de jornal.
Chegou a hora de começar a dar vida para o seu boneco. Você precisa imaginar o que ele vai ser para construir o seu rosto. Você pode fazer volumes de orelhas grandes, olhos expressivos, nariz avantajado. Pense o que será o seu boneco e como fazer para que ele tenha o formato desejado. Quando eu começo, não sei como vai ficar. Na verdade, deixo ele nascer!, diz Evaldo.
O Evaldo escolheu uma bruxa e começou a fazer o seu nariz. Faça o formato dos volumes na mesa, é mais fácil para trabalhar. Pegue um pedaço de jornal, amasse bem, faça o formato desejado e revista de fita crepe. Tudo isso sobre a mesa.
Agora é preciso colocar o nariz no boneco. Um detalhe muito importante deve ser observado. O nariz deve ficar no mesmo sentido do bastão, porém do lado oposto, pois os bastões serão usados para a manipulação do boneco.
Faça todos os volumes que quiser e coloque em seu boneco. A bruxa ganhou olhos esbugalhados e lindos cabelos encaracolados feitos de jornal torcido. Depois, Evaldo fez seu chapéu tomando o cuidado de escolher uma folha de jornal que fosse preta. Sempre guardo as páginas mais coloridas dos jornais para fazer as roupas dos bonecos. É importante observar a cor do jornal, explica o bonequeiro. Ele também fez uma vassoura para que ela pudesse voar e participar de reuniões de bruxarias em todo o mundo.
O corpo é simples. Escolha uma folha colorida de jornal, ou se preferir uma que combine com o seu personagem, amasse bem. Amasse novamente e faça dois furos, um de cada lado para encaixar a mão e a cabeça de seu boneco. O colorido para a frente. Prenda com a fita crepe e o seu boneco está pronto, ou quase.
Agora você precisa dar vida para ele. Procure melhorar seus movimentos, treine na frente do espelho. Comece a formar diálogos, uma história para o seu boneco. Converse com os bonecos de seus amigos e crie um texto de teatro. Convide a turma para assistir ao seu primeiro espetáculo de bonecos.
Para dar maior durabilidade ao seu boneco, passe uma mão de cola branca e deixe secar bem. Ah! Não pode molhar, né?
Como nasceu a técnica
Evaldo Barros foi convidado pela Secretaria de Cultura do Estado do Paraná para dar cursos de confecção de bonecos em várias cidades do interior, mas encontrou muitas dificuldades. Quando eu comecei a viajar, percebi que havia uma carência de materiais adequados para trabalhar. Aí, inventei bonecos com as sucatas que encontrei, recorda Evaldo.
O jornal foi o material perfeito para ele, que tem uma grande preocupação com o meio ambiente. O jornal é efêmero, no dia seguinte as notícias já estão velhas e ele precisa ser reaproveitado.
Dia a dia, Evaldo foi aperfeiçoando a sua técnica e agora faz quatro tipos de bonecos diferentes. Boneco de manipulação direta, boneco de luva ou fantoche, boneco de fios ou marionete e boneco de vara ou marottes (lê-se marrotes) fazem parte do curso que o Evaldo ministra em Portugal. Eu não me considero pronto. Em cada curso, continuo aprendendo, ressalta Evaldo.