Geral

Retrato da pobreza

(*) N. Serra
| Tempo de leitura: 3 min

Sugerem-nos uma abordagem dos diversos tipos de pobreza econômica disseminados no País. Como a vemos? Como ela se comporta em seus múltiplos cadinhos? Quais suas implicações na vida da Nação e suas complicações na existência dos que por ela são alcançados? Como ela é sinceramente? Sorri quando tem de chorar? - perguntam-nos. E respondemos, levando nossas conjecturas para bem longe do borborinho, procurando dar asas à nossa imaginação na tentativa de encontrarmos o ninho onde ela talvez nasça e prolifere. Pobreza econômica seria aquela dos seres que precisam esconder-se do sol que queima, do frio que enregela e da chuva abundante que alaga, confinando-se nas quatro paredes - existiriam? - de seus inóspitos casebres de barro simples e sem telhado, como pintam as melodias do velho cancioneiro? Pobreza, ainda, seria a daqueles que nem mesmo barracão possuem para se ocultarem das intempéries da natureza e o fazem debaixo de viadutos e pontes que o homem moderno constrói para serventia de veículos e pedestres que precisam ir a algum lugar? Pobreza, também, seria aquela das pessoas condenadas a viverem descalças ou desnudas ou ainda maltrapilhas em suas palhoças ou fora delas? Pobreza, igualmente, seria aquela dos que a fome implacável conduz à fragilidade física e, conseqüentemente, a serem arrastados para as doenças inerentes de sua irreversível inanição? Pobreza seria aquela dos que se sujeitam a trabalhos penosos e desumanos, executados de dia e de noite, envolvendo homens e mulheres idosos, jovens e crianças na luta pela sobrevivência? Pobreza seria aquela dos ignorados dos poderes públicos, indiferentes às suas mínimas necessidades, nem os isentando dos tributos, que para resgatá-los são forçados a reduzirem as bordas de seus pratos diários? Pobreza seria isso e muito mais, que escapa de nossas definições, sem dúvida. Nem todo mundo, porém, para isso se desperta e não chora de tristeza e compaixão quando a vêem passando diante de seus próprios olhos, ali adiante, no duro asfalto da avenida, na figura daquela pobre mulher que, em todas as manhãs com que Deus a contempla, transita humildemente em frente à casa da gente, calçando alpargatas disformes, tentando cobrir o corpo com vestido remendado, ostentando a face triste e cansada, carregando num braço o filhinho que não pôde deixar abandonado no casebre e, com o outro, empurrando exaustivamente pesado carrinho de mão lotado com jornais usados e caixas de papelão velho, por ela recolhidos em calçadas e artérias distantes e que vai levar a algum depósito que os queira comprar mediante uns poucos reais ou centavos, com os quais talvez possa adquirir leitinho para a criança e algum alimento para seu frágil sustento. Isto até quando? Até quando poderá continuar fazendo-o? Até que a pobreza, que existe desde o alvorecer do mundo, venha a ser extirpada do grande cenário e todos os pobres passam, então, admirar em igualdade com os outros os encantos dos lírios dos campos germinados por Deus para todos os seus filhos, sem exclusões, conforme adverte Mateus (6-25) em seu Evangelho? Na filosofia de Minúcio, ninguém morre tão pobre como nasceu e, na de Lèquerque, a pobreza não é uma virtude, mas é virtude saber suportá-la nobremente. Será que é assim?

(*) N. Serra, jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado.

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