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Meninos de rua: 85% querem outra vida

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 8 min

Pesquisa mostra que a maioria das crianças e adolescentes que vão para as ruas está em busca de dinheiro

Cerca de 85% dos meninos que vivem ou estão nas ruas dizem que gostariam de mudar de vida. Apenas 13,5% deles afirmam gostar das ruas e outros 1,5% têm dúvidas. Os resultados fazem parte de uma pesquisa realizada como trabalho de conclusão de curso para a Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE), em Bauru. O objeto de estudo foi o projeto Garoto Cidadão, criado em 1999, que reúne 24 crianças e adolescentes, ex-guardadores de carro.

De acordo com a autora da pesquisa, a assistente social Yara Marques Falavinha, 23 anos, a miséria é a grande responsável pela ida dos meninos para as ruas. Ela afirma que 30% deles dizem precisar de trabalho e dinheiro. Outros 24% alegam estar ajudando no sustento da família. Cerca de 6% reclamam da falta de emprego.

Apenas 4,5% deles disseram que estão nas ruas para ganhar o próprio dinheiro e não ter que pedir em casa. E 3% foram para as ruas a convite dos amigos. Os demais, não responderam ou apresentaram outras razões, como fuga para as brigas familiares, por exemplo.

Projeto

O projeto Garoto Cidadão foi criado em setembro de 1999 pelo Centro Iteano de Ação Socioeducativa (Cite). De acordo com a diretora da Faculdade de Serviço Social da ITE, Egli Muniz, o objetivo do projeto era tirar das ruas crianças e adolescentes que trabalhavam como guardadores de carro nos estacionamentos e imediações do Instituto e do supermercado Confiança.

Vínhamos tendo roubos de carro e de toca-fitas. E os meninos ficavam na rua até muito tarde, o que não é bom. Então, queríamos tirá-los das ruas e garantir a freqüência deles na escola. Para isso, precisaríamos trabalhar pela autonomia das famílias, já que eles estavam na rua para levar dinheiro para casa, explica a professora.

A partir de pesquisas junto aos meninos, verificou-se que, olhando carros, eles ganhavam entre R$ 30 e R$ 150 por mês. Então, nós convidamos os meninos e suas famílias para participar do projeto, oferecendo uma bolsa-escola no valor de R$ 150 para cada menino. Para participar, ele deveria freqüentar a escola regularmente e, no outro período, ir à ITE, onde participaria de aulas de computação, inglês, espanhol, oficinas reflexivas, atividades esportivas, palestras e passeios coletivos.

Segundo a professora, o dinheiro para a bolsa-escola é mantido por uma parceria entre a ITE e o supermercado Confiança, e por doações dos universitários.

Estagiários da Faculdade ficam responsáveis por acompanhar o desenvolvimento dos meninos e fiscalizar a freqüência e o desempenho deles na escola. Outros alunos ficam incumbidos de visitar as famílias e promover trabalhos de resgate da auto-estima, melhoria das relações humanas, de saúde e apresentação visual. Estamos trabalhando para reinserir essas famílias no mercado de trabalho, de modo que eles garantam uma geração de renda.

Atualmente, o projeto atende 24 meninos, entre 11 a 16 anos. Vamos trabalhar com eles até conseguirmos a emancipação e autonomia dos meninos e de suas famílias. Nossa idéia é que o projeto sirva de base para que outras organizações e empresas também façam trabalhos semelhantes.

História de vida

Participando como estagiária do projeto Garoto Cidadão desde o início, Yara Falavinha decidiu fazer uma análise mais profunda da problemática do menino de rua. Eu percebi que não adiantava oferecer coisas novas para eles, porque eles não confiavam em nós. Então, resolvi aproveitar o que eles já sabiam e passei a investigar quais as representações que eles tinham da rua e quais as suas expectativas para o futuro. Não podíamos simplesmente ignorar a história de vida deles, que é muito rica, disse.

De acordo com Yara, as crianças e adolescentes que vivem ou passam muito tempo nas ruas acabam acumulando experiências extremamente contraditórias e incompatíveis com a sua idade. Mas se eles convivem com o medo, com a violência e todos os outros riscos da rua, eles também vivenciam experiências muito positivas, como a da união e solidariedade com seu grupo.

Na rua, os meninos se sentem livres, não têm horário a cumprir, são temidos e sentem-se poderosos. Eles sabem que as pessoas têm medo do seu grupo e que, por isso, vão respeitá-los. Mas, ao mesmo tempo, eles se sentem maltratados quando vêem esse olhar desconfiado da sociedade.

Durante seu projeto, Yara entregou uma máquina fotográfica aos meninos, pedindo que eles registrassem ali os momentos mais felizes e os momentos mais tristes de sua experiência nas ruas.

Como lembranças felizes, eles citaram a felicidade de levar dinheiro para casa e o convívio com seus fregueses. Tinha vez que os alunos (da ITE, onde eram guardadores de carros) brincavam com a gente, tratavam a gente de forma diferente. Uns ainda chamavam a gente de filho, contou um menino. Quando os alunos e professores cuidavam e tratavam a gente com respeito e carinho, comentou outro. Tinha aluno que até bagunçava com a gente.

Mas as lembranças tristes também são marcantes, principalmente pelos maus tratos, pelo abandono e pelos momentos de perigo. O que eu menos gostava era do frio, da chuva, da perua do juizado. E quando tinha ladrão, porque eles queriam roubar o carro e nós tinha que guardar e defender, disse um garoto. Tinha amigo que chorava de frio. Tinha vez que a polícia batia em nós, xingava a gente, mandava arrumar serviço...

De acordo com Yara, a criatividade dos meninos para sair das situações complicadas que a rua oferece e a união entre eles foi o que mais chamou sua atenção. No fim, acabei aprendendo muito mais do que eles, comentou.

Escola

Fica claro que o espaço da rua é duramente conquistado e constitui o mundo e a maior lição de vida da criança e/ou adolescente. É a única escola que ele freqüenta sem evadir, comenta Yara.

Ali, ele aprende a se virar sozinho, a lutar pelo que quer e precisa, aprende a vencer o medo, aprende a respeitar seu companheiro (que ele chama de irmão), a impor e respeitar regras, a dividir, a resistir. Só que o preço desta experiência é a perda do tempo de infância e de formação escolar.

Durante a pesquisa, Yara perguntou o que eles fariam pelos meninos de rua se fossem prefeitos de Bauru. Daria a eles emprego de carteira assinada, curso de informática e todos deveriam ter tempo de freqüentar a escola, disse um deles. Não deixaria os meninos olharem carros, falou outro.

Fica claramente demonstrado que a maioria não está satisfeita com a sua permanência nas ruas e tem absoluta consciência de que esse não é o melhor lugar para eles, nem um caminho que garanta sucesso para o futuro. Eles tem consciência de suas necessidades e sonhos e das melhores formas de solucioná-los e conquistá-los, conclui Yara.

Perfil

De acordo com a presidente do Conselho Tutelar de Bauru, Darlene Martins Tendulo, estima-se que haja cerca de 70 crianças e adolescentes vivendo nas ruas na cidade. São dados de um levantamento feito no ano passado, mas acreditamos que seja mais. E à medida que as dificuldades e a miséria na família vão aumentando, mais crianças saem às ruas. São crianças e adolescentes em total situação de risco, que ficam à mercê de pessoas mal intencionadas. Pessoas que as levam para as drogas, para a prostituição, para o crime.

Tendulo vê com bons olhos projetos assistenciais como o Garoto Cidadão, mas defende que são insuficientes para resolver todo o problema. O Conselho está intensificando o trabalho preventivo, com palestras em escolas e orientação às famílias. Mas já cobramos também a criação de outros programas de atendimento, como os PET (Programas de Educação pelo Trabalho), mantidos pela Prefeitura em alguns bairros.

Ela também pede a participação da sociedade: Lugar de criança é na escola. Por isso, dar dinheiro a uma criança que está na rua guardando carros é uma prática ilegal e a sociedade não deve concordar com isso. Ao encontrar um adolescente olhando carros, o cidadão deve chamar a Polícia Militar, para coibir esse delito. Porque todos sabemos que atrás da criança tem sempre um adulto recebendo o dinheiro.

Tripé social

De acordo com a professora de Sociologia, Neusa Gomes Prado Silva, a problemática do menino de rua só será resolvida com uma ação conjunta. É um tripé. Em princípio, a responsabilidade é da família, que hoje está desestruturada pela miséria. Caberia ao Governo providenciar alternativas para geração de renda, empregos, além de garantir a educação dos meninos, oferecendo vagas para todos. Paralelamente a isso, a sociedade, que deveria dar respaldo para a formação e informação dos meninos, também se omite.

Neusa defende que para resolver o problema seria preciso atacar vários pontos de uma só vez. A educação, a formação escolar é importante. Mas ela depende de uma saída econômica, que depende de emprego. Seria muito bom se outras instituições, universidades, prefeituras desenvolvessem projetos semelhantes ao Garoto Cidadão. Mas só projetos, sem política de emprego, não resolve. Temos que consertar a base.

A professora acredita que é essencial a participação da sociedade, mas atuando - não se responsabilizando. Esses projetos têm quer ser coordenados pelo Poder Público. A sociedade se responsabilizaria por fazê-los funcionar.

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