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Desemprego estrutural tende a crescer

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 7 min

O desemprego estrutural é uma realidade cada vez mais forte e presente entre os brasileiros. A substituição do homem pelas máquinas ou por mão-de-obra qualificada não é mais um perigo que assombra somente trabalhadores de grandes indústrias e empresas. É, também, uma possibilidade que se aproxima rapidamente de qualquer pessoa que está sujeita às transformações do mercado de trabalho. Segundo o economista Carlos Roberto Sette, o desemprego estrutural só tende a aumentar no Brasil.

A busca frenética das empresas pela competitividade detona uma espécie de seleção natural no mercado, que resulta na exclusão de quem não consegue acompanhar o desenvolvimento tecnológico e não busca aprimorar o conhecimento. Um estudo feito durante o projeto de conclusão de curso de uma aluna da Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE), Simone Melon de Souza, mostrou uma realidade que, apesar de ter sido verificada e analisada em Lençóis Paulista, está ocorrendo em nível regional e nacional, segundo afirmam economistas e consultores empresariais.

No período de um ano (de março de 99 a março de 2000), foram abertos 100 novos registros no plantão social da Prefeitura Municipal de Lençóis. Desse universo de pessoas, 15 foram entrevistadas pela estagiária da prefeitura, Simone de Souza. O motivo da presença de todos no plantão era o mesmo: desemprego estrutural. Eram todos homens, chefes de família, com idade entre 25 e 35 anos, que trabalhavam em indústrias da região de Lençóis. Tinham sido demitidos porque a empresa havia investido na compra de máquinas que tornaram dispensável o trabalho dessas pessoas ou tinham sido preteridos em função da terceirização de mão-de-obra qualificada.

De acordo com Simone e sua orientadora, a professora Egli Muniz, todos esses 100 novos casos registrados no plantão social eram diferentes daqueles usualmente atendidos na prefeitura. Nenhuma dessas pessoas era analfabeta ou semi-analfabeta, muitas estavam pagando financiamento da casa própria, tinham carro, telefone e 1.º grau completo. Porém, a condição de um ano - em média - de desemprego, as estava levando a pedir algum tipo de auxílio emergencial, como cesta básica ou remédios.

Dos 15 entrevistados, 26,67% tinham completado o 1º grau, contra 53,33% com 1º grau incompleto, e aproximadamente 20% com 2.º grau completo. Como essa amostragem foi feita de uma forma científica, os 15 entrevistados realmente representam o universo total das 100 pessoas que procuraram o plantão, afirma Egli. Entre os que participaram da entrevista, 20% ocupavam cargo de motorista; 20% serviços gerais; 13,34% eram operadores de caldeira, entre outras funções.

Para se ter uma idéia de como a falta de qualificação prejudicou esses trabalhadores no processo de seleção natural do mercado, 86,66% dos entrevistados nunca tinham feito um curso profissionalizante. Após a demissão, 66% deles não contavam com renda mensal fixa e estavam sobrevivendo com trabalhos temporários. Em alguns casos, a esposa, que antes não trabalhava, começou a fazer algum tipo de serviço informal para ajudar a aumentar a renda da família.

Nem mesmo o tempo de casa, que durante décadas serviu como fator de colaboração para a permanência de determinados funcionários em uma companhia, não pode mais ser motivo de acomodação diante da evolução do mercado de trabalho. Dos 15 entrevistados pela estagiária Simone, aproximadamente 66% trabalharam na empresa de um a cinco anos, e 33,34%, de cinco a dez anos. A maioria dos entrevistados ganhava, em média, R$ 400,00. O salário de alguns chegava a R$ 800,00, segundo Simone de Souza.

Competitividade

Para o economista Carlos Roberto Sette, no Brasil existem duas causas principais para o desemprego, atualmente. A primeira é, em suma, resultado da evolução tecnológica, que gera o desemprego estrutural. A segunda, que é característica dos países emergentes, é a causa conjuntural, resultante dos problemas e ajustes ao modelo econômico vigente.

O diagnóstico obtido através desse estudo realizado em Lençóis Paulista tende a aumentar cada vez mais, tanto na nossa região, quanto em nível nacional. O desemprego estrutural será cada vez mais presente e divulgado pela imprensa. A razão de tudo isso começa pela necessidade que as empresas têm de serem competitivas. Para ter competitividade, elas precisam investir em tecnologia, o que acaba resultando na substituição da mão-de-obra humana pelas máquinas, diz o economista.

Para ilustrar sua afirmação, Sette cita o exemplo de uma realidade cada vez mais cotidiana nas empresas. Um empresário sabe que, se ele substituir determinadas funções humanas por uma máquina, conseguirá uma produtividade 30% maior, poderá colocar o seu produto mais barato no mercado e irá vender mais. Ao mesmo tempo, se for uma pessoa dotada de consciência social, pensará que, se fizer essa opção, irá demitir 20 pessoas, por exemplo. Se não demitir, irá perder competitividade. Diante do dilema, mesmo os mais conscientes acabam sendo obrigados a fazer a substituição, porque se isso não for feito, estarão deixando de desempregar 20 pessoas hoje e, amanhã, terão que demitir 50. Isso porque os concorrentes irão tomar o mercado e a demissão será inevitável, pelo fato da empresa não conseguir mais competir com igualdade no mercado, analisa.

Outro aspecto importante desse cenário de desenvolvimento tecnológico destacado pelo economista é que, à medida em que as companhias vão evoluindo, passam a perseguir a chamada excelência empresarial. Nesse momento, as empresas priorizam funcionários com um pouco mais de cultura e conhecimento.

O objetivo, nesse momento, é que os empregados entendam o processo de mudança pelo qual a empresa está passando, que acompanhem a evolução dos conceitos de qualidade total, de eficiência, entre outros itens. Alguns funcionários não conseguem acompanhar tudo isso e tornam-se objeto de avaliação do Departamento de Recursos Humanos da empresa. Ou seja, essas pessoas acabam sendo alvo da seleção natural do mercado de trabalho. A mão-de-obra mais qualificada acaba sendo preferida por esses motivos e, até mesmo, para poder operar as máquinas adquiridas, observa o economista e consultor empresarial.

Outra causa do desemprego, na análise de Carlos Sette, é que o mercado estaria propício a isso. Isto é, se existem 50 candidatos disputando uma vaga, a possibilidade de encontrar e selecionar pessoas qualificadas para aquela função é muito maior.

Empregabilidade

A consultora de Recursos Humanos (RH) Regina M. Pereira Torres, diz que é cada vez maior o número de pessoas que vão até o seu escritório buscando a recolocação no mercado de trabalho porque foram substituídas por máquinas ou por pessoas mais qualificadas para a função. Outra constatação interessante é que, temendo não conseguir acompanhar as mudanças do mercado, também tem aumentado a quantidade de pessoas com nível superior - e que ocupam cargos de destaque numa empresa - que buscam ajuda preocupadas com o seu nível de empregabilidade.

As pessoas mais esclarecidas já tomaram consciência dessa realidade de competitividade e que precisam investir nelas mesmas para manter o seu nível de empregabilidade. Muitas pessoas têm me procurado por esse motivo, buscando orientação, diz.

Em relação a pessoas com nível de instrução menor, como as que fizeram parte da pesquisa da estudante Simone de Souza, a consultora faz a mesma afirmação de Carlos Sette: isso é cada vez mais comum e tende a aumentar. A abertura de mercado no Brasil aconteceu somente depois de 40 anos que isso já havia ocorrido nos Estados Unidos. Então, os brasileiros correm atrás de dois grandes prejuízos e desafios: por essa defasagem na abertura de mercado e pelo acompanhamento da evolução tecnológica. Para uma empresa se tornar competitiva, tem que ser automatizada. Quando isso acontece, o trabalhador que tem baixo nível de escolaridade não consegue acompanhar essas mudanças e a sofisticação da tecnologia. Isso resulta no desemprego estrutural, analisa Regina.

Pelo fato dessas pessoas terem um baixo nível de cultura e escolaridade, não conseguem, na maioria dos casos, assumir uma outra função e nem sabem onde buscar orientação para se recolocar no mercado de trabalho, segundo aponta Regina Torres. Além disso, as pessoas menos esclarecidas têm mais dificuldade de lidar e aceitar a situação de desemprego, o que desencadeia problemas emocionais e, até mesmo, a ruptura das relações familiares.

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