Um pesadelo psicológico para os consumidores e um problema para os produtores. É assim que Maurício Lima Verde Guimarães, presidente do Sindicato Rural de Bauru e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), resume e define a situação que pode ser causada, no Brasil, com a repercussão que a doença da vaca louca está tendo no País. Segundo ele, o problema comercial não é sério. A gravidade da situação está em causar pânico entre os consumidores, o que geraria uma reação em cadeia totalmente negativa para os produtores rurais.
De acordo com Lima Verde, o volume de carne que o Brasil exporta ainda é muito pequeno, em termos comerciais. Segundo ele, atualmente, o País exporta cerca de US$ 800 milhões, entre carne industrializada e in natura. A maior parte vai para os países europeus. O total de exportações registrado no Brasil gira em torno de US$ 60 bilhões.
O Canadá começou com essa bagunça toda, mas, só importa cerca de US$ 5 milhões de carne do Brasil. Para os Estados Unidos, o volume de exportação atinge aproximadamente US$ 85 milhões. Então, o que é preciso esclarecer é que o prejuízo que essa retaliação do Canadá pode causar, e que já está começando a ser verificado porque existe uma retração do mercado, é para produtores e consumidores, não é em termos comerciais. O mercado é o mais fiel indicador da realidade e hoje (ontem) já foi registrada uma queda em torno de 3% no valor da arroba do boi, num momento em que essa diminuição não deveria ocorrer, sinaliza.
Lima Verde, que esteve reunido com produtores de gado de Minas Gerais e com representantes sindicais dos produtores rurais da Inglaterra, diz que a preocupação básica, nessa situação, deve ser direcionada a produtores e consumidores. Se for instalado um clima de pânico, a população irá se retrair e diminuirá o consumo de carnes. Aí o mercado também vai se retrair. Mas não há motivo para esse pânico, como o que acontece na Europa. É praticamente impossível que a vaca louca chegue ao Brasil, diz.
Ao falar sobre o perigo das conseqüências do pânico em torno do assunto, Lima Verde lembra o que aconteceu na Europa. Atualmente, os europeus consomem cerca de 30% menos carne bovina do que há um ano, quando aproximadamente 80 pessoas morreram infectadas pela BSE (sigla em inglês para encefalopatia espongiforme bovina, a doença que ficou conhecida como vaca louca).
Eu estive na Europa, há dois meses, e as pessoas não consomem mais nenhum tipo de carne com osso. Só que morreram apenas 83 pessoas contaminadas pela doença da vaca louca, num universo de milhões de consumidores. Hoje eu conversei com uma pessoa e ela me disse que se souber de um caso de morte por essa doença, no Brasil, nunca mais vai comer carne. Então, veja como a divulgação de um assunto, feita de forma inadequada, pode afetar o consumo do produto. Só que o perigo da vaca louca é muito distante para nós, brasileiros. Tecnicamente, no Brasil, por enquanto isso é um pesadelo, destaca Lima Verde.
Para ele, a questão da vaca louca gerou dois tipos de pesadelo no Brasil: o psicológico (para o consumidor) e o comercial (que seria muito mais especulativo do que real). É preciso controlar o pânico da população em torno do assunto, porque isso não se justifica. O início de todo esse problema foi puramente burocrático. O Canadá alegou que o Brasil não apresentou os documentos sobre a origem da compra do gado e que terá que apresentar agora. Então, repito que esse não é um problema nacional comercial, diz Lima Verde.
Para ele, ainda é muito cedo para se divulgar muitos dados locais sobre a questão da vaca louca. Exatamente por isso, a preocupação com relação ao pânico deve ser ainda maior. Contra o pânico, Lima Verde se defende citando que, no Brasil, o gado se alimenta exclusivamente de pasto. A ração animal, feita a partir de carne, osso e gordura de mamíferos (bovinos, eqüinos, caprinos, suínos) - que teve a sua fabricação proibida pelo Ministério da Agricultura para evitar uma possível contaminação do gado pela vaca louca - não seria utilizada no País.
Para reforçar a tese de que, tecnicamente, é praticamente impossível a vaca louca nos atingir, basta saber que, no Brasil, o gado não come ração, só come pasto. Até o momento, todos os indicadores são de que a doença é resultado de ração que utiliza carne e osso de bovinos, eqüinos e caprinos. Na Europa, essas rações são utilizadas porque durante os seis meses de inverno o gado tem que ser alimentado com comida artificial, salienta.
Medidas preventivas
Como forma de combater uma possível contaminação do gado brasileiro pela doença da vaca louca, o governo brasileiro anunciou uma série de medidas: rastrear a origem de 4.391 bovinos importados da Europa entre 1990 e 1994; aumentar a fiscalização sobre a elaboração de rações com origem animal; proibir o uso dessas rações para animais ruminantes (bovinos, ovinos e caprinos); ampliar, de cinco para oito, o número de laboratórios credenciados para fiscalizar as rações de origem animal; fazer coleta por amostragem de material retirado de animais abatidos em frigoríficos; dobrar o número de laboratórios credenciados para identificar a BSE.
Para Maurício Lima Verde Guimarães, as medidas técnicas não são mais importantes do que o cuidado que se deve ter com a repercussão nacional de informações sobre o assunto. O governo tem medidas técnicas e não públicas. Do ponto de vista técnico, as medidas adotadas podem ser importantes. Mas, a principal preocupação deve ser contra a instalação do pânico entre a população, para não gerar uma reação em cadeia que venha a despencar o consumo de carne bovina, sem motivo, reafirma.
O que é
A doença que ficou conhecida como vaca louca afeta o cérebro do animal infectado, provocando descontrole motor. As células morrem e o cérebro fica com uma aparência de esponja. A vaca passa a agir como se estivesse enlouquecida. O gado contrai a doença alimentando-se de ração feita com carcaças contaminadas de ovelhas.
Informações divulgadas pelo Ministério da Agricultura dão conta de que o Brasil não possui nenhum registro de BSE (vaca louca). Além disso, o relatório apresentado pelo governo brasileiro à União Européia comprovaria que os animais importados da Europa pelo Brasil não vieram das áreas consideradas de risco.