Diante do espetáculo confrangedor que nos é oferecido, sobretudo pelos representantes dos poderes Legislativo e Executivo, deixar de lembrar um relato de Heródoto, acerca de episódio ocorrido à época do fastígio da civilização grega onde, segundo deslavada inverdade histórica, teria nascido a democracia. O espetáculo confrangedor a que acabamos de referir-nos é o da disputa do poder, na Câmara e no Senado, em pleno período da convocação extraordinária do Congresso, feita pelo poder Executivo, sob a alegação da indispensável urgência da votação de algumas matérias, sobretudo de medidas provisórias, votação que, agora, as próprias lideranças do governo impedem sejam feitas por ser impróprio o clima político do momento. Mas a convocação extraordinária do Congresso, custa muitos e muitos milhões de reais, num momento em que o governo insiste na escassez, que diz dramática de recursos o que, a julgar pela penúria em que se encontram muitos aspectos da situação social, em áreas de responsabilidade constitucional do poder público, deve ser verdade. E a disputa pelos cargos das mesas da Câmara e do Senado, o leitor certamente não ignora, vem sendo feita, sobretudo no Senado, em clima em que o atual presidente daquela Casa acusa de desonesto e corrupto, o presidente de um dos maiores partidos que compõem a, por hipótese, Casa do Povo, que por sua vez devolve no mesmo tom as acusações, fazendo, segundo consta, publicar volume em que se contêm pesadas denúncias sobre o seu acusador, que também enfeixara em livro as acusações feitas contra ele.
E onde é que em tudo isso entra Heródoto? Perguntará, e com toda a razão, o leitor. A resposta é a seguinte: relata Heródoto que embaixadores de Esparta, cidade grega, como bem sabe o leitor, procuraram em certa ocasião Ciro, o Grande, rei da Pérsia, para alertá-lo para o que eles avaliavam como um perigo, representado por Atenas, perigo contra o qual desejavam se aliasse Ciro. Este os ouviu e, depois, lhes teria respondido que a ele, Ciro, não preocupavam Estados que destinavam espaços públicos para que enganadores do povo se reunissem para o fim de tentarem enganar-se uns aos outros. Referia-se o chefe persa à famosa Ágora ateniense, praça do mercado daquela cidade, onde se reunia a Assembléia para a discussão de problemas, espaço transferido mais adiante para o teatro de Dionísio, no sopé da Acrópole.
De fato, na referida Assembléia, segundo relatam outros historiadores da época, só eram objeto de discussão os assuntos liberados para esse fim, pelo Senado, composto, depois da reforma liberalizante de Clístenes e de Efialtes por 500 cidadãos - em uma população da ordem de 400.000 habitantes; e, ainda assim, embora todos tivessem, teoricamente, o direito de fazê-lo, só usavam da palavra os chefes de partidos, os oradores profissionais. Em tempo: Esparta, cidade grega, era e continuou a ser sempre monárquica, observação que não é uma apologia à monarquia, mas uma pista da mentira de dizer-se que a democracia nasceu na Grécia. Voltaremos ao assunto, se Deus quiser.
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