Geral

Capitalismo impõe horário e produção

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Clodoaldo Cardoso diz que a sociedade tem como um dos princípios o acúmulo de produção, descartando a criatividade

O professor de Filosofia e Ética da Unesp de Bauru, Clodoaldo Meneguello Cardoso, atribui esta postura rígida do homem nos momentos de lazer ao modelo da sociedade ocidental.

"Nossa sociedade tem como um dos princípios o acúmulo de produção. É uma sociedade quantitativa, capitalista, onde não é preciso ser criativo, mas produtivo. Nesse mundo, o tempo passa a ser um fator muito importante para a eficácia. Surge, então, o homem-relógio, o homem preso ao tempo artificial, ao tempo matemático. Hoje, o ser humano se prende tanto a esse modelo, que leva para os momentos de descanso".

Ele lembra que, nessa sociedade, o lazer é um momento de descanso que visa unicamente a volta do homem ao trabalho. Um momento de "recarregar a bateria" para retomar a produção com força total.

"Na sociedade capitalista, o ócio é uma coisa negativa, o não fazer nada é uma forma de resistência e isso incomoda. Então, ao invés de se ter lazer no sentido pleno, de se fazer o que se gosta ou de não fazer nada, o lazer tem que ter adrenalina, desafios."

Segundo Cardoso, para mudar isso, seria necessário que o ser humano fizesse um distanciamento desses padrões e revisse os conceitos de lazer e trabalho. "O trabalho, em seu sentido profundo, é o ato de transformação da natureza. É o ato mais criativo do homem, que está produzindo (e lutando pela) sua própria existência", comenta Cardoso.

Ele lembra que esses conceitos são muito diferentes nos países orientais, onde o lazer é o momento de encontro, de diálogo e descoberta consigo e com o outro. "Hoje faltam os momentos de solidão positiva, os encontros interpessoais e os encontros com seu eu."

O professor defende que não basta estar com a família no clube, assistindo à competição. "Estou falando do contato olho no olho, do diálogo, das conversas sobre o humano. Falta celebrar a vida no sentido profundo. No clube existe competição, estresse, é o pai brigando pelo filho, numa sociedade de guerra, de luta, de embates, que tem que ter vitoriosos e derrotados. Nossa vida está muito cheia de tudo - de afazeres, de sabedoria e até de conhecimento. E, na verdade, o lazer precisa ter o vazio, o espaço vazio onde o ser humano pode movimentar-se. O homem hoje está cheio de verdades e se ele não se esvaziar, não vai conseguir movimentar-se."

Adotando padrões

De acordo com a psicóloga Maria Sílvia Costa Pessoa, a transformação do lazer em compromisso acontece porque as pessoas não conseguem mudar seus padrões de vida. Elas mantêm um modelo de atuação no dia-a-dia que cria um "pacote de atividades", de segunda a segunda.

"Toda a rigidez, o compromisso, a seriedade do trabalho acabam sendo transferidos para momentos que poderiam ser vivenciados de maneira mais solta e relaxada. E o pior é que, quando se fala em divertir-se, geralmente, estamos contando com outras pessoas. Aí, se você chega com uma postura muito rígida e controladora, com horários, metódico, tudo muito certinho, você acaba entrando em conflito com essas pessoas."

Na opinião dela, a sociedade moderna está substituindo seus próprios valores por padrões externos, ditados, principalmente, pela mídia. "Você acaba nem se perguntando se aquilo é ou não importante para você, mas entra na onda para não ter a sensação de estar perdendo oportunidades, para poder estar onde todo mundo está."

A psicóloga comenta que o divertimento hoje está muito associado à profissão e ao prestígio social. Então, as pessoas vão às festas fazer contatos, marcar presença. Não vão por vontade própria. Ao contrário das crianças, o adulto não consegue só brincar, dar risada, bater papo, jogar tempo fora, ficar sem fazer nada. "E isso acaba frustrando, porque quando o dia termina, ele não fez o que queria e não descansou."

Sílvia sugere que essas pessoas façam uma avaliação do seu momento de folga, do seu final de semana, questionando-se sobre a qualidade destes momentos. "Estamos sendo consumidos pelo tempo. Não estamos administrando este tempo, mas estamos sendo administrados por ele. Com isso, estamos passando por cima de coisas simples e valiosas, como conversar com o vizinho, trocar uma prosa, observar coisas novas com os filhos, sem nenhum tipo de cobrança. Hoje, prepondera a quantidade, quando deveria ser a qualidade."

Comentários

Comentários