Geral

O fim da privacidade

(*) Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Lembre-se que você está sendo observado. Na fila do banco, no posto de gasolina, no supermercado ou shopping e até nos banheiros públicos. Se você usa a Internet, codifique seu e-mail, rejeite todos os cookies e nunca dê o seu nome verdadeiro quando se registrar em websites. Melhor ainda, use o computador de outra pessoa. O patrão costuma monitorar os computadores em rede.

Estes são os conselhos dos mais fervorosos defensores da privacidade. Em um mundo cada vez mais interligado, as pessoas estão constantemente criando informações sobre si mesmas, que são gravadas e muitas vendidas ou reunidas a informações de outras fontes. Recebo em casa cartas personalizadas, com o meu nome corretamente grafado, onde me são oferecidas somente coisas que eu gosto. Como é que esses caras sabem que eu sou chegado num vibrafonista chamado Milt Jackson, ou em queijo Gouda?

A tecnologia dos computadores está desenvolvendo-se tão rapidamente que é difícil prever como será aplicada. Mas algumas tendências são inconfundíveis. O volume de dados arquivados sobre as pessoas continuará aumentando drasticamente. As controvérsias sobre o que é privado tornar-se-ão mais amargas. As tentativas de restringir a sociedade vigiada através de novas leis vão multiplicar-se.

Aqui mesmo na terrinha - como dizia o Nilson Costa jornalista -, querem instalar câmeras de televisão na Getúlio Vargas, como forma de coibir transgressões praticadas pela garotada freqüentadora do point. Alguns dirão com indiferença: Que me importa? Não tenho nada a esconder. Muitos outros, contudo, ficarão perturbados com a idéia de que a maior parte de seus atos deixa um registro de fácil rastreamento. O preocupante é que a imagem reproduzida já é uma simulação do real. Quem vê no vídeo o agressor dando um tabefe no cara ao lado, não sabe as circunstâncias que o levaram a perder a paciência. As tecnologias servem para o Estado vigiar o cidadão, mas também serve para o cidadão vigiar o Estado. É comum na Getúlio o motorista reclamar da falta de policial justamente na hora em que o trânsito emperra. Ninguém aparece para pôr ordem na casa.

As tecnologias são neutras, boas ou más. Depende das intenções de quem as usa. O Supremo Tribunal Federal aceitou a gravação contra o então ministro Rogério Magri, acusado de ter cobrado propina para facilitar a liberação de uma verba. Gravar sons e imagens constitui um direito daquele que participa do fato. Não há nesse ato, óbvio, invasão de privacidade, pela simples razão de que a pessoa que grava participa da conversa. O juiz deve conhecer a verdade para depois julgar. A busca da verdade é a principal finalidade no direito, no jornalismo, nas ciências, na filosofia e em todos os ramos do conhecimento.

Os defensores dos direitos humanos se alegram quando cinegrafistas amadores aparecem com câmeras de vídeo registrando arbitrariedades. Foi o que aconteceu na lamentável agressão de PMs a transeuntes em Diadema. Só há um limite: fatos íntimos da personalidade - vida familiar, afetiva, etc. - devem ser relativamente protegidos. Esse é o limite entre o terreno ético e o legal. No caso Clinton, há a justificativa de tratar-se de um chefe do Executivo eleito pelo voto. O povo tem direito de conhecer o caráter de quem se propõe a liderá-lo. Ter um caso com a estagiária, para alguns pode ser até divertido, para outros, uma tremenda falta de vergonha.

Para as gerações passadas, escapar da claustrofobia das pequenas cidades para o relativo anonimato da cidade grande foi um dos aspectos mais libertadores da vida moderna. Mas a era do anonimato urbano já se parece com um mero interlúdio histórico. No entanto, há uma diferença entre o passado e o futuro. Na cidadezinha todos sabiam a história de todos. No futuro ninguém saberá ao certo quem sabe o que a seu respeito. Isso será desconfortável. Mas talvez o melhor conselho seja: acostume-se.

(*) Zarcillo Barbosa é colaborador do JC

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