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Faltam materiais, dizem Bombeiros

Andréia Alevato
| Tempo de leitura: 7 min

O Corpo de Bombeiros se diz bem atendido no âmbito estadual, porém, a Prefeitura não estaria cumprindo com sua parte

Eles são mais lembrados pela população em geral do que qualquer outro órgão de assistência. Assim como a Defesa Civil, os bombeiros acompanham os principais flagelos humanos. Para atender as diversas ocorrências diárias, o Corpo de Bombeiros precisa estar bem equipado. E quem deve custear esse equipamento é o Estado e o município.

Mas, a Prefeitura não tem cumprido totalmente com sua parte. Segundo o capitão Cláudio Vanderlei Pereira de Nardi, comandante do 1.º Sub-Grupamento de Bombeiros de Bauru, pertencente ao 12.º Grupamento de Bombeiros, a Prefeitura tem repassado uma verba pequena, que não supri as necessidades da estrutura do Corpo de Bombeiros. Os bombeiros são sustentados pela Prefeitura e Estado. A verba destinada aos bombeiros esse ano é de R$ 120 mil, sendo que o ideal seria, segundo o capitão Nardi, R$ 400 mil. A atual verba destinada é suficiente apenas para a alimentação dos bombeiros, e por isso, a manutenção e compra de equipamentos vai sendo deixada de lado.

Na entrevista de hoje, capitão Nardi fala sobre a atuação do Corpo de Bombeiros em Bauru, da proximidade com a população e das dificuldades enfrentadas.

Jornal da Cidade - O Corpo de Bombeiros, em parceria com a Defesa Civil e Policiamento de Trânsito, poderia ter evitado a morte das pessoas que foram levadas pela chuva no dia 8?

Capitão Nardi - O que aconteceu no dia 8, foi incomum. A chuva foi muito forte e, dificilmente, a gente consegue prever esse tipo de fenômento. Se pudéssemos prever, poderíamos isolar os locais de risco. Só que é difícil prever a quantidade de chuva.

JC - Então, o Corpo de Bombeiros não tem contato com institutos como o IPMet (Instituto de Pesquistas Meteorológicas)?

Capitão Nardi - Nós sabemos quando vai chover forte, poucas horas antes, porque somos avisados pela Defesa Civil, mas a quantidade de chuva não é possível prever. Através da Operação Enchente, nós nos preparamos para os dias de muita chuva e catástrofes.

JC - A Prefeitura e o governo estadual têm cumprido com seus papéis e dado assistência ao Corpo de Bombeiros?

Capitão Nardi - O Corpo de Bombeiros é sustentado pelo Estado e pelo Município, através de um convênio firmado entre as duas partes. O Estado fornece o homem treinado, a farda, equipamentos de proteção individual, assistência previdênciária e o salário, que é o mais caro. A Prefeitura fornece a alimentação, a manutenção e conservação de quartéis, equipamentos para as viaturas, materiais de resgate e salvamento, manutenção das viaturas. Mas, hoje, estamos sendo sustentados, basicamente, pelo Estado, que tem cumprido com sua parte. Todas as viaturas que temos em Bauru, somente três pequenas foram fornecidas pela Prefeitura. O restante foi fornecido pelo Estado.

JC - Como está a estrutura do Corpo de Bombeiros? Faltam materiais?

Capitão Nardi - Em relação a viaturas, estamos bem equipados. O Estado tem suprido. Na última sexta-feira, recebemos mais dois barcos. Agora temos três. Amanhã, receberemos uma viatura estilo jipe, para auto-comando de área que irá levar o oficial para gerenciar a ocorrência. Também receberemos uma viatura off road (fora de estrada), e uma auto-bomba salvamento rápido, que pode ser usada tanto na parte de salvamento como em incêndios de pequenas proporções. Mas temos várias deficiências de material. Faltam equipamentos, como cabos, coletes salva-vida e capacetes, que deveriam ser custeados pela Prefeitura. Nosso sistema de comunicação está ultrapassado, os rádios das viaturas são muito antigos. Precisamos de uma repetidora para melhorar a comunicação com as viaturas e de, pelo menos, 15 HTs (rádios portáteis), para que o bombeiro informe as condições da ocorrência. E isso precisa ser dado pela Prefeitura

JC - O que é preciso fazer para mudar isso?

Capitão Nardi - Poderia ser melhorado quando o Fundo de Bombeiros, que destinaria uma certa porcentagem do IPTU para os bombeiros anualmente, for colocado em prática. Seria uma quantia certa, todos os anos. Esse dinheiro seria empregado na manutenção e compra de equipamentos. A lei para a criação desse fundo já existe, desde setembro de 2000, mas ainda não foi colocada em prática. Esse ano, a Prefeitura vai destinar uma verba de R$ 120 mil para os Bombeiros, suficiente apenas para alimentação. Mas o necessário seria R$ 400 mil, no mínimo.

JC - Quais são as prioridades de investimento?

Capitão Nardi - Precisamos de investimentos no sistema de comunicação, material para Operação Enchente, equipamentos de salvamento em altura, manutenção dos quartéis. Precisamos de uma área de treinamento, com pista para treinar combate a incêndio e torre para treinos de salvamento em altura, que também seria usada por brigadas de incêndio.

JC - O efetivo passa por requalificações constantes?

Capitão Nardi - Nosso efetivo é o mesmo desde a criação da unidade, em 1996. O ideal, segundo uma norma americana, é que haja um bombeiro para cada mil habitantes. Atualmente, a média no Estado de São Paulo é de um bombeiro para cada quatro mil habitantes.

JC - Então, faltam homens. Existe previsão de concursos para a contratação de mais homens?

Capitão Nardi - A Polícia Militar tem uma escola de recrutas. Em abril, 27 homens dessa escola de recrutas serão destinados para nossa unidade. De abril até dezembro, eles serão preparados para se tornarem bombeiros.

JC - Existem projetos municipais ou estaduais para a reformulação do trabalho do Corpo de Bombeiros?

Capitão Nardi - Nós vamos participar do 7.º Seminário de Procedimento Operacional Padrão (POP), que visa padronizar todos os serviços de bombeiros do Estado de São Paulo. E todos os dias, os bombeiros recebem instruções teóricas e práticas. Eles estão em aperfeiçoamento contínuo.

JC - Qual é o envolvimento dos bombeiros com a população?

Capitão Nardi - Nós desenvolvemos algumas atividades junto à comunidade. Realizamos palestras sobre as atividades e atendimentos realizados pelo Corpo de Bombeiros, noções básicas de prevenção de acidentes e incêndios e de primeiros-socorros. Essas palestras são realizadas nos bairros, empresas, entidades filantrópicas e escolas. Temos o projeto Bombeiro Mirim, para crianças e adolescentes. Realizamos operações anuais, como a Operação Enchente (de dezembro a março) e Operação Mata Fogo (de maio a setembro), além de simulações de ocorrências.

JC - Quantos telefonemas o Corpo de Bombeiros recebe por dia e qual a região da cidade que mais solicita o trabalho de vocês?

Capitão Nardi - Recebemos 500 telefonemas por dia, mas somente 15 são ocorrências. Cerca de 70% desses telefonemas são brincadeiras. Outros 20% são pessoas pedindo informações. Mas, a maioria das ocorrências acontece no Centro da cidade, sendo que 51% são de resgate. A maior parte dos acidentes de trânsito envolvem motociclistas. Ocorrências de incêndio aumentam na época da estiagem.

JC - Que tipo de comunidade mais precisa e solicita o serviço do Corpo de Bombeiros?

Capitão Nardi - O atendimento é geral, mas são as pessoas mais carentes que solicitam nosso serviço. Além de incêndios, acidentes de trânsito, ocorrências que causam traumas, problemas de pressão arterial, cardíacos, entre outros. A população mais carente, que não tem convênio médico, aciona o Corpo de Bombeiros quando tem algum problema. O que acontece muitas vezes, é que as pessoas acionam o serviço do Resgate para qualquer tipo de doença, como fazer um transporte de uma pessoa. Existem atendimentos que não são da competência dos bombeiros.

JC - É comum a viatura do Corpo de Bombeiros não conseguir chegar ao local da ocorrência?

Capitão Nardi - Quando o acesso é difícil, principalmente na época das chuvas, que causam muitos estragos, temos que aumentar o nosso percurso. Mas, sempre chegamos. O que acontece é que demora um pouco mais. O trânsito também pode atrapalhar um pouco. As pessoas ficam com medo quando escutam a sirene da viatura. Nossa orientação é para que as pessoas tenham calma e, se possível, encostar o carro à direita, procurando liberar a passagem para a viatura.

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