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Tratamento deve ter início ao nascer

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 7 min

O sentido da audição se manifesta ainda no feto e, nesse caso, o tratamento deve ter início assim que o bebê nasce para garantir 100% de eficácia

A audição começa a partir do 5º mês de gestação e se desenvolve intensamente nos primeiros meses de vida. Qualquer problema auditivo deve ser detectado ao nascer, pois os bebês que têm perda auditiva diagnosticada cedo e iniciam o tratamento até os 6 meses de idade apresentam desenvolvimento muito próximo ao de uma criança ouvinte.

O diagnóstico após os 6 meses traz prejuízos inaceitáveis para o desenvolvimento da criança e sua relação com a família. Infelizmente, no Brasil, a idade média de diagnóstico da perda auditiva neurosensorial severa a profunda é muito tardia, em torno de 4 anos de idade.

Ouvir é fundamental para o desenvolvimento da fala e da linguagem. Se o exame não foi realizado no nascimento, deve-se fazer depois.

O Grupo de Apoio à Triagem Auditiva Neonatal Universal (Ganatu) visa aumentar a consciência coletiva para o problema da surdez na infância e a necessidade da detecção precoce.

Qualquer bebê recém-nascido pode apresentar um problema auditivo no nascimento ou adquiri-lo nos primeiros anos de vida. Isto pode acontecer mesmo que não haja casos de surdez na família ou nenhum fator de risco aparente.

Por isso, é importante pedir ao pediatra para fazer o teste da orelhinha quando o bebê nasce.

Estímulo nervoso sonoro

O ouvido é separado em três segmentos que são: ouvido externo, ouvido médio e ouvido interno (órgão processador da audição). De acordo com o médico otorrinolaringologista Helder Fernandes de Aguiar pode ocorrer uma alteração em qualquer um desses três segmentos que pode ir de uma má formação de orelha externa a uma má formação de conduto auditivo, além de outras.

Ele explicou que o som é um estímulo nervoso sonoro e, portanto, sensível a qualquer tipo de alteração.

Aguiar afirmou que há alguns quadros que é praticamente uma obrigação se analisar quando nasce uma criança, como a rubéola gestacional, a sífilis, entre outras. A proporção maior é para a rubéola, então, toda vez que ocorre uma suspeita da doença em uma gestante, é necessário se fazer uma triagem auditiva na criança, afirmou.

Aguiar explicou que há condições de detectar se a criança ouve ou não com apenas dois ou três dias. A audiometria de tronco cerebral permite a avaliação precoce de alterações, disse.

Os casos de parto gemelar, prematuridade, má condição de nascimento, crianças cujas mães tiveram que tomar algum grupo de antibiótico durante a gravidez e histórico familiar, são considerados fatores de risco e logo que a criança nasce já é aconselhável pesquisar e examinar para checar a audição. Se a criança não fizer parte do grupo de risco, pode-se identificar uma perda de audição quando percebe-se que a criança é desatenta, explicou.

O médico afirmou que toda criança que é distraída, os pais devem ficar atentos porque pode ser um sinal de que ela não está ouvindo. Na idade escolar, pode-se avaliar aquelas criança que não estão tendo um bom aproveitameno. Há também os casos de crianças que têm hipertrofia de amídala e de adenóide que têm uma possibilidade grande de ter alguma lesão na audição.

De acordo com Aguiar, a maior causa de surdez em crianças depois que nasceram, é a meningite. Existem vários métodos para fazer uma identificação, desde criança que colabora até àquela que não colabora, explicou.

Limpando a cera

O médio Helder Aguiar lembrou que as hastes flexíveis (cotonete) existem para ser usadas externamente, apenas para limpar o ouvido. A maioria das pessoas as usam de forma errônea e empurram a cera para dentro do ouvido. Para bebês, o lenço de papel é mais indicado para limpar as orelhas. Isso porque o diâmetro do dedo da mãe não vai conseguir empurrar a cera para dentro do ouvido, disse.

Há pessoas que têm propensão para formar cera. Aguiar explicou que isso varia de pessoa para pessoa e as que produzem essa proteção em maior quantidade devem limpar os ouvidos com mais freqüência. Quando a proteção começa a atrapalhar, o ideal é procurar um médico, afirmou.

Os aparelhos auditivos ainda causam um certo preconceito na sociedade. De acordo com Aguiar, quando uma criança inicia o uso de um aparelho, os pais devem levá-la a um psicólogo para acompanhar o período de adaptação. É preciso, em primeiro lugar, aprender a usar o aparelho, porque não é como um óculos que você coloca e imediatamente enxerga tudo, é preciso saber como usar, explicou.

Aguiar disse que há quatro níveis de perda auditiva, a leve, moderada, severa e profunda, além de várias freqüências como perda de sons agudos, ou graves. O aparelho é direcionado para o tipo ideal de lesão, afirmou.

O exame

O exame é feito no berçário em sono natural, de preferência no 2º ou 3º dia de vida Demora de 5 a 10 minutos, não tem qualquer contra-indicação, não acorda nem incomoda o bebê Não exige nenhum tipo de intervenção invasiva (uso de agulhas ou qualquer objeto perfurante) e é absolutamente inócuo. A triagem auditiva é feita inicialmente através do exame de Emissões Acústicas Evocadas.

Emissões Otoacústicas

Emissões Otoacústicas são sons provenientes da cóctea após a apresentação de um estímulo sonoro.

O exame de Emissões Otoacústicas é o mais recente método para identificação de perdas auditivas em recém-nascidos (neonatos).

Seu objetivo é detectar a ocorrência de deficiência auditiva, já que as emissões otoacústicas estão presentes em todas as orelhas funcionalmente normais. Quando existe qualquer alteração auditiva, ou seja, quando os limiares auditivos se encontram acima de 30 DBNA, elas deixam de ser observadas.

Fatores de risco para a surdez do bebê - 0 a 28 dias

histórico familiar - ter outros casos de surdez na família

infecção intra-uterina - provocada por citomegalovírus, rubéola, sífilis, herpes genital ou toxoplasmose

anomalias crânio-faciais - deformações que afetam a orelha e/ou o canal auditivo

Abaixo de 1,5 Kg ao nascer

hiperbilirubinemia - doença que ocorre 24 horas depois do parto. O bebê fica todo amarelo por causa do aumento de uma substância chamada bilirubina. Ele precisa tomar banho de luz e fazer exosangüíneo transfusão

medicação ototóxica - uso de antibióticos do tipo aminoclicosídeos que podem afetar o ouvido interno

-meningite bacteriana - a surdez é umas das conseqüências possíveis quando o bebê tem este tipo de meningite

Fatores de risco para a surdez da criança - 29 dias a 2 anos

Os pais devem observar se há atraso de fala ou de linguagem:

aos 7 meses ele já deve imitar alguns sons; com 1 ano já deve falar cerca de dez palavras e com 2 anos o vocabulário deve estar em torno de 100 palavras.

meningite bacteriana ou virótica - esta é a maior causa de surdez no Brasil.

trauma de cabeça associada à perda de consciência ou fratura craniana

medicação ototóxica-só de antibióticos do tipo aminoglicosídeos que podem afetar o ouvido interno.

outros sinais físicos as-sociados à síndromes neu-rológicas.

infecção de ouvido persistente ou recorrente por mais de três meses.

Células do aparelho auditivo praticam autodefesa

A equipe do Setor de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) descobriu nas células do ouvido interno um sistema de autoproteção ainda não descrito pela literatura. As cédulas foram capazes de desenvolver resistência contra uma droga, a amicacina, um potente antibiótico, porém com alta capacidade de lesar o aparelho auditivo.

A utilização terapêutica da amicacina é limitada pois pode provocar, como efeito colateral, lesões permanentes nas células receptoras ciliadas auditivas, causando perdas irreversíveis, diz o coordenador das pesquisas, o professor José Antônio de Oliveira.

O coordenador explica que os testes foram realizados em cobaias (guinea pig) que receberam durante um mês, pequenas doses, não tóxicas, de amicacina. Após esse período, a substância foi administrada em quantidade tóxica por 12 dias. Os resultados revelam que as doses menores promovem a autoproteção das células contra as lesões das doses tóxicas do mesmo antibiótico. A proteção ficou em torno de 56,67% e 51,85% nas duas espirais mais basais do ouvido interno. Descobrimos que uma droga tóxica é capaz de promover proteção contra ela mesma, comenta o professor.

Segundo ele, é a primeira vez que o fenômeno de otoproteção, usando a amicacina, é descrito pela literatura médica. Quanto aos mecanismos do fenômeno, apesar de serem ainda desconhecidos pela ciência, pode-se concluir que houve um aumento de resistência contra a lesão do aparelho auditivo. (Agência Usp)

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