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Cana: safra quebra e alavanca mercado

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Depois de dois anos de crise, o setor sucroalcooleiro começa a respirar aliviado. A queda na produção 2000/2001, aliada à diminuição do estoque de álcool e ao aumento do consumo interno de açúcar, fez com que o mercado voltasse a se equilibrar. O futuro já não parece negro, como num passado remoto. Os produtores que insistiram em permanecer no setor já esperam estabilidade para os próximos quatro anos.

A produção da última safra de cana-de-açúcar, que teve seu término em novembro passado, sofreu uma quebra de cerca de 22%. Essa diminuição não foi interpretada como mais um problema a ser resolvido pelo setor. Pelo contrário. Com menos produto no mercado, os preços voltaram a se equilibrar, chegando a R$ 28,00 a tonelada, contra R$ 14,00 em 1999 (de acordo com informações da Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo - Canaoeste), e já há um certo otimismo no ar. Os próximos quatro anos deverão ser de estabilidade para os produtores, salientou a produtora Maria Helena Cardia, uma das poucas que resistiram à crise e apostaram no setor na região.

O presidente da Associação dos Fornecedores de Cana da Zona de Lençóis Paulista e diretor da Organização dos Plantadores de Cana do Estado de São Paulo (Orplana), Hermínio Jacon, explicou que a queda na produção ocorreu por causa de diversos fatores. O primeiro deles foi a diminuição do número de produtores. Muitos acabaram mudando de ramo por causa dos problemas enfrentados pelo setor, que estava tendo que sobreviver vendendo o sub-produtos da cana por preços muito baixos devido ao grande estoque no mercado, salientou.

O litro do álcool anidro chegou a ser comercializado a R$ 0,18 na época e o agricultor não conseguia sair do prejuízo. Quem permaneceu no ramo, não teve como investir no trato da cana, pois ficou sem dinheiro para aplicar em produtos e nos cuidados básicos. Além disso, o clima seco inibiu a produção, disse.

O resultado desse cenário acabou sendo positivo para os produtores. A lei da oferta e da procura foi acionada automaticamente e o preço do álcool disparou. Atualmente, de acordo com Jacon, está na casa dos R$ 0,60, mais de 330% acima do que era há três anos.

Destilarias

O superintendente da Associação das Destilarias Autônomas e Anexas (ADA), José Norival Galli, confirmou o equilíbrio do mercado e disse que, embora muitas pessoas tenham criticado a elevação dos valores do produto no posto de combustível, isso foi necessário para ressarcir todas as perdas ocasionadas nos anos de crise. Eu acho que o álcool aumentou mais do que deveria. Mas, houve essa necessidade, para recuperar o setor como um todo. Não foi só na cana, foi no transporte e em tudo que dá suporte ao ramo, destacou Galli.

Ele salientou que ainda existe um saldo negativo dos dois últimos anos e que há necessidade do reajuste de preços para sanar os problemas do setor sucroalcooleiro. Mesmo assim, como combustível o álcool sai ganhando, já que a gasolina está custando quase o dobro nas bombas, explicou.

Futuro promissor

Com três séculos de produção no Brasil, a cana-de-açúcar já vivenciou diversas fases. Já foi o principal produto tipo exportação, passou por altos e baixos e agora vive um momento de recuperação. O futuro pode ser de grandes conquistas para o setor - o que pode até ajudar a equilibrar a balança comercial brasileira. Mas, é preciso investimento em pesquisa e divulgação dos sub-produtos no Brasil e no exterior.

A produtora Maria Helena Cardia, que tem 220 alqueires cultivados com a planta em Agudos, destacou que, para os próximos quatro anos, ela espera uma estabilidade do mercado. Vou plantar 50 alqueires nesta safra e quero renovar mais 30, disse.

O início da plantação está previsto para o mês de abril. No entanto, devido à falta de chuva, alguns produtores já estão pensando começar a safra somente depois da primeira quinzena de maio.

A expectativa não se prende apenas ao bom desempenho do mercado depois da baixa oferta de 2000/2001. Maria Helena vislumbra ainda um aquecimento do mercado externo, principalmente no que diz respeito ao carro a álcool. Tanto nos Estados Unidos, quanto na União Européia, a tendência é a utilização de álcool como solvente na gasolina, como uma forma de preservação ambiental. Isso já vem ocorrendo em alguns países, disse.

Todo o cenário aponta para um crescimento no consumo do produto futuramente, segundo a agricultora.

Também já há estudos que apontam o uso do bagaço da cana na produção de energia, o que abriria mais um mercado para os produtores.

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