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Barraqueiros reclamam de prejuízo

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 6 min

Apesar da modificação no sistema de cobrança de ingressos para o Sambódromo, que puderam ser trocados por alimentos, muita gente reclamou da organização

O descontentamento foi a marca do Carnaval do Sambódromo na noite de segunda-feira, apesar da mudança no sistema de cobrança de ingressos, que puderam ser trocados por um quilo de alimento não-perecível. Os barraqueiros instalados dentro do Sambódromo reclamaram das vendas e o público estava insatisfeito com as normas da organização. Os vendedores que ficaram do lado de fora são exceção, já que suas vendas superaram as expectativas.

De acordo com a organização do evento, cerca de 2.700 pessoas compareceram ao Sambódromo, mais um motivo para o protesto dos barraqueiros. Eles não faziam questão de esconder o descontentamento por questões que iam do preço do aluguel do espaço à limpeza dos banheiros, passando por regras estabelecidas pela organização sobre como deveriam ser servidas as bebidas e sobre o repasse das mesmas.

O vendedor Marcos Mendes, que instalou uma barraca no Sambódromo para atender aos camarotes, afirma que o movimento em relação às vendas esteve muito abaixo das expectativas. No contrato que eu assinei com a Equipe 1 estava previsto que ninguém poderia entrar nos camarotes com comidas ou bebidas. No entanto, a maior parte das pessoas está trazendo coisas de fora. O que eu estou vendendo não vai dar para pagar nem o aluguel desse terreno, que é de R$ 3 mil.

Mendes afirma que seu prejuízo aumenta a cada dia no Sambódromo. Se eu tivesse ido embora no segundo dia, meu prejuízo seria menor. Eu ainda tive que contratar mão-de-obra para servir as bebidas em copos nos camarotes. O problema sempre estoura do lado mais fraco.

O vendedor Márcio Grizardi Antônio, que está pagando R$ 500,00 pelo espaço ocupado por sua barraca no Sambódromo, também reclama das vendas. Eu acho que não vou conseguir pagar nem o aluguel desse espaço, já que, somando os dois primeiros dias, vendi apenas R$ 180,00 brutos. Eu sempre montei barraca aqui, mas este é o pior Carnaval desde que o Sambódromo foi inaugurado.

Ele afirma que, com a terceirização da organização do evento, tudo ficou mais caro. No ano passado, eu paguei R$ 200,00 e vendi muito mais.

O comércio estava tão parado que Meire Monzão, que vende lanches em uma barraca montada no interior Sambódromo, levou uma televisão para assistir à novela.

Aos ambulantes também faltava ânimo para continuar trabalhando no Carnaval. Paulo Gimenes, que vende amendoim e paçoca, atribui as poucas vendas à cobrança de ingresso, mas tinha esperanças, no início da noite de segunda-feira, de que a situação mudasse, já que os ingressos puderam ser trocados por alimentos. Hoje está começando a vender um pouquinho mais, já que o pessoal não está pagando.

A vendedora Rose Pereira da Costa, que veio de Marília para montar a sua barraca de lanches e bebidas no Sambódromo, alegava falta de profissionalismo da organização do evento, já que não teria água para a manutenção da barraca e preparo dos alimentos. Nós pagamos R$ 1 mil para instalar a barraca aqui e não temos nem água. Como vou lavar o tomate, por exemplo? O banheiro está imundo. Quem limpa é quem usa. A parte de abastecimento de bebidas também está terrível.

Rose não concorda com o sistema de abastecimento de bebidas, já que os barraqueiros instalados dentro do Sambódromo teriam que comprar as bebidas da organização do evento. Eles repassam para nós a R$ 0,70. Como a gente vai ganhar alguma coisa pagando esse preço?, questiona.

Ela reclama, ainda, dos copos oferecidos pela empresa para a venda de refrigerantes e cerveja. Uma das normas estabelecidas para os barraqueiros refere-se a latinhas e garrafas, que não poderiam ser entregues ao público. Eles dão um copo de 300 ml para colocar todo o conteúdo de uma latinha. Não cabe! E os copos são contados: cada freguês tem direito a uma lata e um copo. O cliente está reclamando do atendimento porque ele tem que tomar uma parte no balcão para poder sair com o copo.

A vendedora afirma que não pretende voltar a trabalhar no Carnaval de Bauru. É a primeira vez e a última que venho aqui vender. Nunca passei tanta humilhação por falta de organização, de higiene e limpeza.

Os funcionários da Equipe 1 alegaram que a exigência de que as bebidas fossem distribuídas em copo foi estabelecida pela Polícia Militar, visando a segurança do próprio público e dos passistas. Quanto ao tamanho do copo, eles afirmam que foram fornecidos pela própria Schincariol.

Em relação à limpeza dos banheiros, funcionários do Departamento de Água e Esgoto (DAE), órgão responsável por mantê-los limpos, disseram que, durante todo o desfile, ao menos uma pessoa permaneceu em cada banheiro para realizar a limpeza. Eles acrescentaram que a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) cedeu oito funcionárias para trabalhar nos banheiros femininos.

Do lado de fora

Ao contrário do observado no interior do Sambódromo, os vendedores que instalaram suas barracas do lado de fora estampavam sorrisos de contentamento devido à boa quantidade de vendas, em todos os dias de desfile.

O movimento do outro lado dos portões era intenso, já que muita gente optou por permanecer nas proximidades da bilheteria e da concentração dos sambistas para apenas observar o movimento de pessoas, como opção de lazer para as noites de Carnaval.

E ao som das baterias das escolas de samba, que tomavam conta da pista, os vendedores faturavam em barracas improvisadas em garagens ou às margens de calçadas, sem a preocupação de pagar aluguel de espaço, nem problemas com a organização do desfile. José Rodrigues, proprietário de uma barraca de lanches que ele instalou nas proximidades da entrada do Sambódromo, mostrava contentamento. Para nós o faturamento está bom, graças a Deus.

Rodrigues, que paga uma taxa à Prefeitura de cerca de R$ 10,00, calculou que o seu lucro é de cerca de R$ 300,00 por dia.

Leonice de Oliveira, que trabalha em uma barraca de pastéis também instalada às margens de uma calçada, disse que a procura pelos alimentos, do lado de fora, está dentro das expectativas. Estamos vendendo o esperado.

O público

Apesar da mudança na cobrança dos ingressos para assistir ao desfile das escolas de samba, que puderam ser trocados por um quilo de alimento não-perecível, o público não mostrou a satisfação dos anos anteriores.

Jairo Ferreira da Costa, que levou seu filho de 7 anos para assistir ao desfile, indignou-se pela proibição da entrada com alimentos, regra que permaneceu na noite de segunda-feira. Isso aqui está uma porcaria. O meu moleque veio comendo pastel e tivemos que ficar lá fora sentados na calçada até ele terminar de comer. As normas, este ano, estão péssimas.

Muitas das pessoas que consumiram bebidas durante o desfile reclamaram da impossibilidade de sair com latinhas e garrafas, já que o conteúdo de cada uma não cabia no copo fornecido pela organização do evento.

Célia Marisa, que compareceu com a família, fez uma ressalva, pois acredita que os 1.800 quilos de alimentos arrecadados na noite de anteontem ajudarão pessoas carentes. A mudança foi boa para a gente também. Em casa, somos em quatro pessoas. Com R$ 12,00 reais que a gente estava pagando para entrar, daria para comer alguma coisa aqui dentro.

No início da noite, a modificação no sistema de cobrança para a entrada gerou um contratempo com pessoas que haviam comprado antecipadamente os ingressos para as quatro noites.

O problema foi resolvido com a devolução do dinheiro a essas pessoas, que também puderam trocar seus ingressos por alimentos não perecíveis.

Ao final da noite, foi constatado que a maior parte do público que compareceu ao Sambódromo trocou os ingressos por alimentos, ainda que muitos desavisados sobre a mudança tenham pago.

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