Todo início de ano, muitas pessoas contraem dívidas na tentativa de pagar outros vencimentos que ficaram para trás. São comuns os casos em que, um certo descontrole com os gastos de final de ano, faz com que prestações referentes às compras de Natal se juntem às despesas extras do começo do ano - como material escolar, matrícula dos filhos, uniforme, IPVA e IPTU - e o orçamento doméstico não é suficiente para quitar todos os compromissos assumidos. A negociação é o melhor caminho para a eliminação das dívidas.
Estatísticas mais recentes também comprovam a dificuldade de um grande número de pessoas em saldar as suas dívidas. Um levantamento divulgado pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) de Bauru mostra que, no mês passado, foram realizados 3.069 novos registros de pessoas inadimplentes no comércio, identificadas no cadastro do órgão. Em janeiro foram 4.850 registros.
O número de cancelamentos (nomes retirados da lista em função de dívida paga) foi menor em fevereiro deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado. Ao todo, foram 2.150 cancelamentos este ano contra 3.199 em fevereiro do ano anterior. Esses números significam uma queda de 48,79% no total de cancelamentos, em relação a esse período.
Quem se encontra na difícil situação de ter dívidas a pagar e não sabe qual a melhor solução para o seu caso, o economista, professor e delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon), Reinaldo César Cafeo, afirma que a melhor alternativa é tentar negociar a dívida com o próprio órgão credor. A primeira alternativa que a pessoa deve tentar é procurar o credor para negociar a dívida. Não é possível fazer isso com IPVA nem IPTU, mas, é possível fazer essa opção para terminar de pagar, por exemplo, um bem que você adquiriu no final do ano e não está conseguindo terminar de pagar. Até mesmo nas escolas é possível uma negociação em relação ao pagamento de matrícula, material e mensalidades, orienta Cafeo.
De acordo com ele, a melhor opção nesses casos é tornar o credor solidário. Ou seja, procurar a empresa na qual o bem foi adquirido e tentar uma negociação para não precisar recorrer a limites de créditos bancários, por exemplo. Segundo o economista, em muitos casos é possível conseguir, inclusive, uma carência para a quitação da dívida. Cafeo observa que, a partir do momento em que a empresa concedeu o bem ao consumidor, o interesse, obviamente, é receber o dinheiro. Ou seja, entre ficar inadimplente e ter que pagar um advogado para fazer a cobrança junto ao cliente, e fazer uma negociação com o objetivo de que a dívida seja paga, a segunda opção será preferida pela empresa.
No caso do credor ser um banco, procurar a instituição para expor o problema e tentar resolver a situação também seria a melhor alternativa, na opinião do economista. A melhor coisa é você demonstrar que está diposto a quitar todas as suas dívidas, mas, que precisa de uma alternativa adequada às suas condições para conseguir fazer isso. Se o credor for um banco, procure o gerente e tente uma negociação em relação à melhor forma de pagamento, orienta Cafeo.
Venda de bens
Se o volume da dívida tiver chegado a um valor significativo, que ultrapasse os limites da renda da família, a solução mais rápida será a venda de um bem do qual possa dispor. Nesses casos, a melhor saída é a venda de um carro usado, de um terreno, enfim, de um ativo qualquer que a pessoa tenha e que possibilite girar um dinheiro rápido. Com isso, é possível cessar a dívida e, se a pessoa tiver determinação, com o passar do tempo conseguirá recuperar o bem do qual dispôs só pelo fato de não estar mais pagando juros referentes àquela dívida, observa.
Se a pessoa não possui nenhum bem do qual possa dispor e tiver que buscar socorro em bancos, a orientação do economista é para que seja feita a opção por financiamentos longos, de até 24 meses, e de não contrair mais nenhuma dívida nesse período. Se a pessoa não tiver expectativa de conseguir pagar o empréstimo num curto prazo, deve optar pelos financiamentos de 18 ou 24 meses. Feito isso, deverá encaixar essas parcelas no orçamento familiar e não contrair mais nenhuma dívida, orienta Cafeo.
Outra dica é evitar, ao máximo, entrar no cheque especial. As taxas de juros são muito altas e poderão complicar ainda mais a situação de quem já está devendo. Vamos supor que a pessoa se enrolou com as dívidas e acabou entrando no cheque especial. Ela estará pagando uma taxa de juros de, no mínimo, 8% ao mês. Se tiver R$ 1 mil estourados no banco, vai pagar em torno de R$ 80,00 a R$ 100,00 por mês de juros. Se fizer um Crédito Direto ao Consumidor (CDC) de 24 meses, dependendo do banco e da negociação irá pagar pretações em torno de R$ 60,00 por mês. A taxa de juros do CDC gira em torno de 3% a 5% ao mês. Ou seja, além de conseguir pagar os juros, também amortiza a dívida principal, afirma Cafeo.
As financeiras devem ser evitadas, pois cobram taxas de juros altíssimas, em torno de 6% a 7% ao mês. Se não houver nenhuma outra opção, é melhor pagar um empréstimo no banco do que arcar com os juros abusivos das financeiras.
Quem possui dinheiro guardado em banco, não deve hesitar em usá-lo. Às vezes, a família tem uma aplicação financeira para eventual emergência e não enxerga que uma dívida é situação de emergência. Entre pegar um dinheiro no banco pagando de 5% a 8% de juros ao mês e deixar dinheiro na caderneta de poupança rendendo apenas 0,6%, obviamente é melhor utilizar o dinheiro que estava guardado para quitar a dívida. Se a pessoa estava dando conta de pagar os juros do cheque especial, se colocar no seu orçamento o valor fixo que irá pagar por mês para quitar a dívida, conseguirá recompor essa poupança. Não faz sentido deixar dinheiro guardado rendendo quase nada e ficar pagando juros pesados para saldar a dívida de outra forma, diz Cafeo.
Prudência
O advogado Luís Alan Barbosa Moreira, que foi coordenador do Procon em Bauru, também sugere a tentativa de negociar a dívida junto à empresa credora e para evitar as financeiras. As financeiras repassam valores exorbitantes para o cliente. O ideal, para quem está com dívidas a pagar, é procurar o seu credor e sugerir uma forma de negociação que possa assumir, orienta.
Para o advogado, prudência é a palavra chave na hora de procurar uma saída para saldar compromissos financeiros vencidos. A pessoa deve ser muito prudente na hora de decidir o que irá fazer para quitar as suas dívidas. Só se deve recorrer a financiamentos, principalmente os de empresas que oferecem crédito pessoal, em último caso. Mas, o melhor é procurar a negociação direta com o credor. O importante é a pessoa mostrar que está diposta a pagar, negociar a melhor forma de fazer isso dentro das suas possibilidades e, depois, cumprir com o que assumiu. Se a pessoa não paga e também não se manifesta sobre o seu problema, ficará sujeita às decisões e critérios estabelecidos pela empresa credora, observa Moreira.
Na opinião do advogado, se alguém que está endividado não sabe qual a melhor alternativa para resolver o seu problema, deve procurar uma orientação especializada para não tomar decisões que possam se tornar ainda mais prejudiciais. Se a pessoa não tem certeza do que fazer, deve procurar orientação especializada. Caso contrário, pode acabar optando por um caminho errado e adquirir mais problemas, orienta.