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Empresários ignoram rótulos de março

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 5 min

Dizer que o ano empresarial só começa após o Carnaval é um equívoco e, segundo economistas, até prejudica

A idéia de que o ano empresarial brasileiro só começa em março, após o período de Carnaval, vem sendo combatida e rechaçada pelas lideranças empresariais, que dizem que esse paradigma é antiprodutivo para a economia nacional.

Ricardo Marques Coube, diretor estadual do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e conselheiro na diretoria regional de Bauru da entidade, disse que detesta este ponto de vista e vem trabalhando, não somente em sua empresa, a Tiliform, mas em nível de entidade, para tentar sepultar esses hábitos, rótulos, nomenclaturas e paradigmas.

Coube destaca que, no início do ano, algumas empresas passam por um período sazonal. Porém, por outro lado, há as que sofrem aceleração em suas atividades. Para ele, a grande coincidência de fevereiro é o fato de existir o Carnaval no final do mês. Com isso, econômica e financeiramente, as empresas devem ter um mês ruim nos demonstrativos contábeis, pois foram somente 18 dias úteis. Em março, por exemplo, são 22 dias úteis, o que acaba proporcionando um resultado melhor do que em fevereiro.

No entanto, o líder empresarial admite que ainda existe um resquício da mentalidade de que o ano só começa em março. No Sul, por exemplo, as férias escolares vão até o final do mês de fevereiro. Assim, pela extensão territorial do País, há um descompasso de hábitos regionais.

Mas, há outros fatores que influenciam esse paradigma. Quando se tem um final de ano (novembro e dezembro) de consumo mais acentuado, como foi o caso de 2000, os estoques dos varejistas ficam reduzidos e, com isso, há uma natural recomposição em janeiro, movimentando a indústria. Dessa forma, em fevereiro, as compras junto à indústria acabam reduzidas, colaborando para uma entressafra sazonal. Por essa ótica, em março, se tem um nível de atividade que se normaliza, se regulariza, e vai até o final do ano, esperamos, afirmou, destacando que não gosta de associar essa questão às férias escolares e Carnaval, pois não acaba sendo uma verdade, na maioria dos casos.

O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Bauru (SinComércio), Walace Garroux Sampaio, diz que essa visão de que o País só começa a andar em março vale para o setor político.

Para ele, para o setor comercial a questão do Carnaval é apenas um ponto de referência. Sampaio atribui parte da sazonalidade enfrentada pelo setor produtivo no primeiro bimestre do ano ao vencimento de diversos tributos, como Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) e o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), além das matrículas nas escolas e conseqüente compra de materiais escolares. É uma série de gastos que as famílias têm, que fazem com que esse período seja mais fraco para o comércio, afirmou.

Outro fator de influência, no caso de Bauru, é a exportação de turistas em férias, que acaba influenciando negativamente nas vendas do setor comercial. Para Sampaio, se a cidade assumisse a condição de receptora de turistas, isso poderia ser revertido.

Ele lembra, ainda, que boa parte das empresas vem trabalhando com exportação, que não pode se deixar influenciar por esse paradigma.

Economistas dizem que costume é prejudicial

O delegado de Bauru do Conselho Regional de Economia (Corecon), Reinaldo César Cafeo, destaca que há uma coincidência de datas. De acordo com ele, os grandes negócios são fechados após o Carnaval porque se segue ao período de férias escolares, no qual muitos executivos aproveitam para viajar com a família.

Cafeo também vê a ressaca de final de ano, depois de um bom período de vendas do comércio, que acaba gerando um esfriamento da atividade no varejo. Então, isso leva muitos empresários, principalmente do comércio, a dizerem que o ano só começa em março.

Porém, o delegado disse que esse paradigma tem que ser alterado, porque a economia do País, que movimenta mais de R$ 1 trilhão por ano, não pode ficar refém de certos comportamentos isolados dos agentes econômicos. É necessário que haja a movimentação, porque as contas têm que ser pagas nesse período todo, as coisas têm que fluir mais, afirmou.

Cafeo diz que, em janeiro e fevereiro, muitas pessoas ficam avaliando o que ocorreu no ano anterior e começam a adotar as decisões para o ano atual em março. Coincidentemente, diz, tem o Carnaval nesse meio tempo, que se soma às férias e à ressaca de dezembro. Mas, ele defende o rompimento desse ciclo, que é prejudicial para a economia do País. O comércio não fecha mais, a Internet é 24 horas, o supermercado está aberto 24 horas. Então, não se pode mais parar. Como está, perde-se um tempo precioso, de forma desnecessária, afirmou.

Para o delegado, a maior vítima desse paradigma é o setor de prestação de serviços, que acaba tendo que aguardar até março para definição de contratos, principalmente na área de consultoria.

O economista e consultor de empresas Carlos Roberto Sette diz não ter dúvidas de que o ano empresarial começa em 2 de janeiro. Para ele, a questão é mais comportamental dos consumidores, já que comércio, indústria e prestadores de serviço continuam em atividade e ofertando mercadorias e serviços.

Sette diz que, nos dois primeiros meses, há um desvio dos gastos para a área de turismo, por exemplo, que recebe uma quantidade de recursos enormes durante o primeiro bimestre do ano. Ele também lembra que, neste período, o orçamento familiar é direcionado para outras coisas, como matrícula de escola, compra de material escolar e pagamento de tributos sazonais.

Sette lembra que o primeiro bimestre é marcado pelo chamado Alto Verão, no qual o consumo de produtos mais baratos e de vida útil pequena são os mais consumidos, para atender a essa estação característica do País, que é de clima tropical. Principalmente a indústria da moda faz coisas muito rápidas, coloridinhas e baratinhas, para serem vendidas até o Carnaval. Depois, começa outra história, pois já entra a moda Outono-Inverno, mudando a tendência. Além disso, as pessoas mudam alimentação. Com isso, ativa a parte industrial de alguns setores que não tem tanta atividade no primeiro bimestre, lembra.

Sette disse que esse paradigma de que o ano começa em março tem que ser deixado de lado. Ele lembra que, desde 2 de janeiro, muita gente já ganhou dinheiro e muita gente já perdeu dinheiro em seus negócios. A economia girou, afirma.

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