Cerca de 40 caciques das nações Guarani e Terena quebram a monotonia da 5.ª sessão legislativa ordinária
O único fato relevante que justificou a realização da sessão legislativa de ontem à noite foi a presença de cerca de 40 caciques das nações indígenas Guarani e Terena na galeria da Câmara Municipal. O grupo quebrou a monotonia de um plenário que, dos cinco projetos de lei pautados, adiou a discussão e votação de três, prática que vem sendo adotada com bastante freqüência pelos parlamentares, desde o início da atual legislatura.
A sessão, que durou quatro horas, votou, ainda, quatro moções, das quais duas de aplausos e outras duas de apelo. No mais, a reunião perdeu o sentido após o uso da tribuna pelo cacique guarani Anildo Lulu. Com a desocupação da galeria pelos índios, a reunião legislativa voltou a seu estágio inicial, ou seja, a monotonia retomou seu espaço no plenário.
Além de representantes da reserva indígena de Araribá, também marcaram presença na Câmara caciques de outras regiões do Estado, entre as quais de Registro (Vale do Ribeira) e Pariquera-Açu, localizada no litoral norte de São Paulo. Eles protestaram contra o descaso da Delegacia Regional de Bauru da Fundação Nacional do Índio (Funai).
Uma boa parte da comunidade indígena quer a exoneração do delegado regional da fundação, Rômulo Siqueira de Sá. A Delegacia Regional de Bauru atende a 23 reservas indígenas. Ao usar a tribuna para relatar a situação da comunidade, o cacique guarani Anildo chamou a atenção dos parlamentares e dos demais presentes pela sua articulação política e coerência de raciocínio, mostrando que não é só vereador que sabe discursar.
A reivindicação dos índios não é fato novo. Há mais de duas semanas eles estão pressionando a Funai para exonerar o delegado. Segundo o cacique Guarani, os recursos que chegam à delegacia da Funai estão sendo desviados. Eu volto a acusar: onde estão os R$ 500 mil que deveriam ser aplicados nas reservas?, cobra. Anildo afirmou que a administração da Funai em Bauru não é séria.
Ela coloca índio contra índio, acusa. O cacique explicou que as reservas indígenas do litoral estão na mesma situação da de Araribá: abandonadas. Se não há recursos na Funai, vamos fazer parcerias com prefeituras. Mas os administradores ficam sentados em suas cadeiras vendo a comunidade perecer. A administração não toma providências; seus funcionários não trabalham. A Funai está aí para ajudar o índio e não o índio para a ajudar a Funai.
O cacique relatou, ainda, que muitas famílias de índios estão morando debaixo de lonas. Índio não tem estudo, não quer briga, mas sofre há 500 anos. Não queremos ser desprezados e tratados como animais. Anildo conta que a Funai ainda não se manifestou sobre a reivindicação da comunidade. Nós ainda não recebemos a resposta que queremos. Nós queremos a retirada do administrador.
Ele lembra que no passado, os índios brigavam apoiados com arco e flecha. Hoje, nós procuramos o caminho legal, o caminho da Justiça. Brigamos em cima do papel.