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"Tapinha" dói sim

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

Dois dos maiores sucessos nas rádios de todo País atualmente, Só um Tapinha, da funkeira Mc Beth, e Tapa na Cara, do grupo de pagode Pagodart, falam sobre violência contra mulher. O detalhe crucial é que as letras não repudiam o ato, pelo contrário, até incentivam e por isso estão gerando muita polêmica e indignação por parte dos órgãos que defendem os direitos da mulher, como o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), lançou uma nota oficial de repúdio às músicas.

Segundo o documento do CNDM, assinado pela presidente da entidade, Solange Bentes Jurema, a música deve ser um instrumento de libertação da humanidade e não um veículo por meio do qual se constróem e repõem violências morais. O Conselho, considera as músicas um duplo insulto moral que atinge milhares de mulheres brasileiras que, além de serem vitimadas por agressões físicas e simbólicas, ao escutarem tais canções são obrigadas a conviver com discurso moral que legitima socialmente as agressões que elas sofrem.

A indignação dos órgãos que defendem a mulher é justificada pela presidente do Instituto Terra Viva-Mulher, Família e Sociedade, Rosa Maria Morselli. Segundo ela, o empenho das instituições que trabalham contra a violência sofrida pela mulher acaba perdendo o sentido quando a mídia divulga esse tipo de música. É um tapa na nossa cara ouvir coisas desse tipo no rádio e um tapa que dói, declara.

Na opinião de Morselli, que também faz parte do Conselho Estadual da Condição Feminina, é lamentável que obras com esse conteúdo sejam divulgadas e celebradas da maneira que são pelos programas de rádio e televisão, sem que ninguém faça nada. A questão não é o ritmo ou a melodia, que até são agradáveis, mas o texto em si, diz. Sei que isso é impossível, mas gostaria que as pessoas não fossem obrigadas a consumir esse tipo de produto, completa. Influência da música

Entre a população, as músicas também provocam indignação. Eu acho um absurdo ligar o rádio e ouvir que só um tapinha não dói, diz a professora Helena M. Queiroz. Essa música deveria ser proibida, dispara. Não acho que seja certo cantar isso. Uma criança que dança essas músicas desde pequenininha vai crescer pensando o que? Que pode apanhar do marido quando crescer, argumenta a dona de casa Maria do Socorro Sanches.

Mas nem todas as mulheres se sentem incomodadas pela mensagem das canções, Acho que é só uma brincadeira, que não faz mal a ninguém, acredita a estudante universitária Camilla Pedrosa, que afirma gostar das músicas. Tenho até um CD, completa. A vendedora Célia Regina de Oliveira concorda: A letra da música não importa muito, o melhor é a diversão, decreta.

A verdade é que nem todas as mulheres acreditam que levar um tapa seja um absurdo (leia no boxe). De acordo com a psicóloga e terapeuta sexual Maria Lúcia Biem, embora a maioria das pessoas não perceba, as músicas influenciam o comportamento. Ela até cita um caso recente que vivenciou: Vi um rapaz no trânsito que ouvia uma música cujo refrão falava a palavra popozuda, num volume muito alto. De repente, ele viu uma moça na rua e começou a cantar o refrão bem alto para que ela ouvisse. É claro que ela ficou constrangida.

A atitude do rapaz é um exemplo típico, segundo a psicóloga, do que pode acontecer com as pessoas quando ouvem uma música. A melodia tem o poder de exacerbar o comportamento da pessoa em relação ao que ela está ouvindo. É como acontecia quando tocava a música da cordinha ou da garrafa, alguém sempre começava a fazer a coreografia, lembra.

Mas Maria Lúcia Biem é taxativa quando afirma que, mesmo influenciadas, as pessoas não mudam a sua maneira de ser por causa de uma música. Essas canções que falam de tapinha não vão levar ninguém a ficar mais agressivo ou mesmo fazer com que alguém se torne sadomasoquista, afirma. Mesmo assim, ela acredita que as letras das duas canções não são positivas. As músicas devem trazer conotações de alegria e não de agressividade, diz. A psicóloga ainda destaca o cuidado que os pais devem ter com filhos pequenos que cantam as canções sem saber direito o que elas querem dizer. É preciso que eles expliquem o mostrem o que é realidade e o que é fantasia, recomenda.

O que elas acham

Algumas dizem que dói, outras afirmam que até levariam um no momento certo. Veja o que as bauruenses responderam quando foram perguntadas se só um tapinha não dói, como diz a música.

Dói. Qualquer tipo de agressão dói e o tapa é uma agressãoGiedre Rosa Ponce, fisioterapeuta, 28 anos

Acho que depende da pessoa. Eu acho que dói, em qualquer situaçãoBruna Pontes Rissato, escriturária, 23 anos

Depende do tapinhaValdeci Basílio, funcionária pública, 43 anos

Lógico que um tapinha dói. Em situação nenhuma isso é aceitável, estimula a violênciaDaniela Cristina Pereira, estudante universitária, 21 anos

Não dói. Dependendo da situação até dá para levar um tapinhaRosemeire Domiciano, dona de casa, 33 anos

Não dói. Depende do tapinha não dói. Tem algumas situações em que ele não dóiMárcia de Oliveira, vendedora, 33 anos

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