O aparecimento de focos de febre aftosa no Reino Unido pode ter despertado nos criadores da região um alerta em relação à doença. Os números da primeira etapa da campanha de vacinação deste ano podem mostrar um aumento de animais imunizados, embora a Defesa Sanitária descarte essa hipótese.
Hoje é o prazo final para os criadores de gado entregarem para o setor de Defesa Sanitária da Secretaria Estadual da Agricultura e Abastecimento o levantamento da vacinação contra a febre aftosa, feita em bezerros de zero a um ano de idade, realizada dentro da primeira etapa da campanha, no mês passado.
Para o assistente de Defesa Sanitária Animal do Escritório de Desenvolvimento Rural (EDR) de Bauru, Marco Antônio Issa, o índice de vacinação deverá ser o mesmo atingido nos últimos anos, ou seja, na casa dos 97% ou 98%. A procura por vacinas foi igual ao de outras etapas já realizadas no Estado. Portanto, não temos uma expectativa de vacinação de 100% do rebanho, disse.
Alguns comentários, no entanto, dão conta de que, em cidades de menor porte, nas quais os criadores têm pouca estrutura e um número reduzido de cabeças, o temor de contrair a doença fez com que pecuaristas aplicassem a imunização em todos os seus animais, diferentemente do que vinha ocorrendo há tempos atrás. Como só precisa apresentar a declaração de quantos animais foram vacinados, alguns criadores vacinavam apenas uma parte do rebanho, mas declarava que todos os animais haviam recebido a vacina.
Até o aparecimento do foco no Reino Unido, a febre aftosa era considerada doença típica de países subdesenvolvidos. Mas, o conceito começa a mudar, já que a doença já atinge 70 focos na Europa, em um País que havia controlado a doença e, há muitos anos, não necessitava nem da vacina. A febre aftosa, embora tenha fácil contágio, é uma doença simples de controlar e que depende muito da conscientização dos criadores. Por isso, ela é relegada a países do Terceiro Mundo, salientou Issa.
Ele lembrou que o Reino Unido tem um controle rígido da doença e que, mesmo assim, não conseguiu evitar a contaminação. Para o professor aposentado Aramis Augusto Pinto, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), de Jaboticabal, que estuda a febre aftosa há 35 anos, a preocupação com relação à doença pode ser uma realidade. O pecuarista está mais precavido atualmente. Tem-se falado muito na doença e nas suas conseqüências para o mercado da carne bovina e os criadores estão muito mais informados sobre o assunto, destacou.
Alerta
O professor acredita que o aparecimento da aftosa no rebanho inglês mostra que a globalização tem facilitado o contágio. Hoje em dia, o gado circula com mais facilidade, indo de um País para o outro muito rápido e com maior intensidade que antigamente. O vírus não respeita fronteiras e, se der espaço, ele se espalha mesmo, disse.
A disseminação da aftosa no Reino Unido, segundo explicou o professor, pode ocorrer de uma forma muito mais intensa, já que o gado de lá não recebe imunização há tempos e, portanto, está mais suscetível ao vírus.
Por enquanto, para não perder o status de Zona Livre da Aftosa sem Vacinação, o Reino Unido está tentando controlar a doença através do sacrifício de animais. No entanto, se os focos continuarem aumentando na proporção atual, o governo britânico terá que lançar mão da imunização e perderá um título conquistado depois de um forte controle dos animais.
Pinto lembra que, entre 1973 e 1974, aquela região viveu um grande surto da doença e quase partiu para a vacinação.
Ele explicou que o perigo de contaminação está sempre iminente. Isto porque o vírus que provoca a doença se multiplica numa velocidade muito rápida e o contágio é feito de diversas formas, até mesmo pelo ar.
De acordo com o professor, o Brasil, pelas suas dimensões, deve ter a constante preocupação de se prevenir contra a doença. O grande perigo está no transporte do gado entre as regiões. Qualquer contato com o vírus causa um grande estrago no rebanho, salientou.
Para o assistente veterinário da Defesa Sanitária Animal de Bauru, Marco Issa, a liberação do trânsito de animais entre os Estados de São Paulo e Mato Grosso não expõe o rebanho paulista a um novo risco de contaminação.
Isso porque existem regras para a entrada do gado do Centro-Oeste. Para o transporte de animal em pé, o caminhão deve ser lacrado na origem e aberto apenas no frigorífico.
Já no caso da carne com osso, ela é analisada pelo Sistema de Inspeção Federal (SIF) do antes de deixar o frigorífico e, com isso, vem com a garantia de estar livre da doença, explicou.
Erradicação
O professor Aramis Pinto destacou que o Brasil está conseguindo atingir um patamar desejável de controle da febre aftosa, pelo menos no Circuito Centro-Oeste e Sul. Tem veterinário, hoje em dia, que nunca teve contato com um animal contaminado com essa doença. Há alguns anos, eu chegava a atender até 12 casos por dia, comparou.