Vamos falar mais um pouquinho de eleições? Pois é... O exercício do voto - dizem - é inteiramente gratuito. Contudo, quem não se encontre em seu domicílio eleitoral no dia deste ou daquele pleito tem de pagar nas agências dos Correios e Telégrafos para se justificar, conforme a indefectível taxa postal vigente na data e, ainda, ocorrer aos custos do impresso, serviço caríssimo, até escorchante, pois, considerando-se o volume enorme de sua tiragem tipográfica teria de ter um custo final unitário realmente menos caro. Então, o eleitor que precisa justificar o sufrágio não exercido em seu município é penalizado com um bocado de reais, incidindo isso, também, no tempo de espera nas longas filas que se formam nas agências das cidades maiores. E isso se parece com uma revolução, não é mesmo? Revolução contra o bolso do eleitor, que, só por não se achar em sua cidade para votar acaba sendo penalizado pela Justiça Eleitoral através do órgão postal-telegráfico, tudo bem duplicado porque quando o marido viaja geralmente se faz acompanhar da esposa, via de regra também eleitora.
Onde, em suma, a autenticidade da afirmação segundo a qual o voto é inteiramente gratuito para todos? A Justiça Eleitoral, diga-se, tem um trabalhão danado na inscrição do eleitorado; emite graciosamente os títulos, gastando verba grossa nisso; tira da privacidade de seus lares milhares de pessoas, que param suas atividades profissionais para trabalhar graciosamente dias seguidos na recepção e na apuração das urnas eleitorais; não multa os que justifiquem sua ausência nas secções eleitorais, mas, talvez, sem o perceber devidamente (será que não...?), vai permitindo que outros o façam, no caso o serviço postal. E é uma multa injusta, principalmente nos casos de eleitores que, estando viajando e não conseguindo passagem para voltar a tempo, tenham de justificá-lo postalmente, conforme já citamos. Alguns casais, que entrevistamos, disseram morar em cidades próximas de Bauru e teriam gasto menos se tivessem podido regressar e votar em seus domicílios eleitorais. E, convenhamos, quanta gente pobre já não pagou o pecado do ônus nas passarelas eleitorais...? Gente a quem, percebe-se, iria fazer falta a gaita deixada nos guichês postais!
No ano que vem teremos novo pleito, então para a mudanca da chefia da Nação. E seria plausível se o Congresso Nacional ou quem competente legislasse contra a comercialização que se faz na justificativa do voto, tornando esse exercício plenamente gratuito, sem o ônus da respectiva taxa postal. Quem pagaria a despesa de tudo? O Governo, naturalmente, que tanto recebe tributos da bolsa popular. É a nossa opinião. (N. Serra, jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado).