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Covas: novo mito político é construído

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 8 min

Exposição da doença favoreceu comoção popular; nos bastidores, a morte do governador permitiu novo realinhamento político

Com a morte de Mário Covas (PSDB), no último dia 6, o Brasil assistiu à construção de seu mais novo mito político. A cobertura jornalística intensa promovida pela mídia, a exposição que o próprio tucano fez da sua doença - um caso grave de câncer -, o seu temperamento intempestivo e sincero, a sua trajetória política e o próprio fato de estar à frente de um governo de Estado contribuíram para a mitificação de Covas.

A comoção coletiva alternou momentos de franca tristeza por parte do povo e encenações dramáticas, garantidas por um novo realinhamento político organizado nos bastidores e envolvendo todas as correntes políticas - do próprio PSDB, passando pelo PPB e PFL e chegando ao PT, Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e até, ironicamente, ao Primeiro Comando da Capital (PCC), responsável pelos últimos momentos de estresse vivenciados pelo governador.

Essa suavização das diferenças, na opinião da historiadora Lidia Maria Vianna Possas, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília, foi motivada pelo processo de mitificação. Isso exige a construção de uma nova memória. E se a memória vai ser construída e se Covas vai virar mito, é preciso que todos se rearticulem. Nesse sentido, nada vai ficar anônimo. Se alguém ficar de fora é por que não está aproveitando o momento, que é político. Nesse caso, a morte, ali, é o de menos, o que é necessário é sustentar a saída de cena desse político, de sua herança política, aponta.

A neutralização das diferenças políticas pode ser explicada, ainda, pela importância que a morte ocupa no imaginário popular do brasileiro, herança da cultura ibérica. Não se tripudia sobre os derrotados e, na nossa cultura, a morte é, conceitualmente, tida e mitificada como uma derrota. Nada mais eloqüente do que as metáforas como a morte do guerreiro, usada e abusada em todas as coberturas realizadas no caso Covas, explica o psicólogo José Luiz Guimarães, professor do curso de Psicologia da Unesp de Assis.

Guimarães salienta, ainda, que seria muito difícil alguém se encorajar a vociferar, publicamente, sobre o seu inimigo preferido em vida quando o velório e o enterro foram convertidos em espetáculos midiáticos, como o que aconteceu com o funeral do governador tucano.

Tal como Maluf fez em relação a Covas, este faria em relação a Maluf. Nesta lógica, hipoteticamente, Lula encontrará virtudes em Maluf - como já encontrou em ACM, e vice-versa. Imagine que alguém destemido resolvesse desfiar todos os defeitos de Covas. As TVs, principalmente, e os jornais, não mostrariam ou minimizariam, completa o psicólogo.

A cientista política Maria Teresa Miceli Kerbauy, da Unesp de Araraquara, lembra que outro fator contribuiu para a comoção: o modo como o tucano expôs a sua doença na mídia. Mário Covas não era um político dos mais bem avaliados pela população, mas a maneira como transpareceu a doença comoveu o povo. Mas se não tivesse essa mídia, essa manifestação seria diferente, talvez menor, acredita.

Os mitos nacionais

Juscelino Kubitschek

Morte: 22 de agosto de 1976

Como é lembrado: Presidente que iniciou a abertura do Brasil ao capital estrangeiro, permitindo a modernização do País. Idealizador de Brasília (DF) e perseguido pela ditadura militar.

Comoção: 5 mil automóveis e 80 mil pessoas seguiram o cortejo do presidente, entre o Rio de Janeiro e Brasília.

Tancredo Neves

Morte: 21 de abril de 1985.

Como é lembrado: o primeiro civil eleito (indiretamente) para a Presidência da República, desde o golpe militar de 1964. Era chamado de homem do Brasil por ter participado de mobilizações em torno do Movimento das Diretas Já, em 1984.

Comoção: 1 milhão de pessoas assistiram ao cortejo do presidente ao longo do percurso entre o Instituto do Coração e o Aeroporto de Cumbica. Em Brasília, mais 40 mil acompanharam o cortejo. E em Belo Horizonte, 80 mil prestaram suas homenagens, que se estenderam a São João Del Rey, onde foi enterrado.

Mário Covas

Morte: 6 de março de 2001.

Como está sendo lembrado: Político defensor da democracia e participante ativo do Movimento das Diretas Já. Foi lembrado por amigos e inimigos como turrão, briguento e honesto. Sua administração é tida como aquela que colocou as finanças do Estado de São Paulo em dia.

Comoção: Cerca de 20 mil pessoas acompanharam o velório, realizado no Palácio dos Bandeirantes, onde depositaram 283 coroas de flores. No enterro, realizado no Cemitério do Paquetá, em Santos, 15 mil estiveram presentes.

Outros mitos

Elis Regina

Morte: 19 de janeiro de 1982.

Comoção: Cerca de 50 mil pessoas aplaudiram o cortejo que levou o corpo da cantora até o cemitério do Morumbi, em São Paulo.

Ayrton Senna

Morte: 1 de maio de 1994.

Comoção: Cerca de 50 mil estiveram no velório do piloto, que aconteceu na Assembléia Legislativa e outras 250 mil acompanharam o cortejo até o cemitério do Morumbi.

Leandro

Morte: 23 de junho de 1998.

Comoção: 25 mil pessoas foram ao velório do cantor sertanejo, que sofria de um tipo raro e agressivo de câncer. Ele foi enterrado em Goiânia (GO), onde 300 mil pessoas eram esperadas.

Fonte: Agência Folha

Mitificação faz parte do processo político

A mitificação das figuras públicas faz parte do processo político. O mito realimenta lembranças, fases históricas, momentos econômicos e sociais presentes na memória popular. Isso acontece, por exemplo, com o mito de Tancredo Neves.

O presidente morto antes de tomar posse é relembrado toda vez que seu grupo político ensaia nova participação em eleição ou quando precisa se contrapor a grupos tidos como de direita. Foi assim durante a eleição da presidência da Câmara Federal, que tinha como candidato seu neto, Aécio Neto, definido como o herdeiro do passado democrático do avô.

Tancredo Neves foi um político razoável, que apoiou a ditadura Vargas e conciliou com a ditadura militar. Sua morte, no entanto, quebrou o pacto político que vinha sendo celebrado e colocou a abertura política em xeque-mate, o que explica o jogo de relações que foi armado em torno de sua morte para garantir a sustentação de membros do seu grupo político no poder, comenta a historiadora Lidia Possas.

O mesmo ocorre com o PTB, partido de Getúlio Vargas. Na época em que estavam sendo discutidas reformas na Consolidação das Leis Trabalhistas, o partido ressuscitou a imagem populista de GV, o pai dos pobres, nas vinhetas políticas televisivas, para se posicionar contra o governo e suprimir sua imagem situacionista.

Nas vinhetas do PTB, no entanto, não havia espaço - e muito menos interesse - em mostrar que o governo de GV era conhecido como mar de lama. O histórico de corrupção foi apagado com o suicídio dramático do ditador.

Com a morte de Vargas, a situação se inverteu de uma tal maneira que a UDN, antes aplaudida, perdeu a eleição. Não sei se o Getúlio calculou bem isso, mas seu suicídio reverteu positivamente para os partidos de situação. JK e Tancredo, que fizeram discursos inflamados em seu enterro, ganharam as eleições, conta Lidia.

Como a historiadora mostra, a morte de um político de vulto não é simples, mas estrategicamente arquitetada. O mesmo vale para a mídia, que tem papel central no processo todo de mitificação.

De Getúlio Vargas, passando por Tancredo Neves, Ulysses Guimarães e chegando a Mário Covas, a Imprensa sempre esteve presente. Curiosamente, a comoção foi ganhando contornos mais delineados ao longo do tempo. A mídia aprendeu a lidar bem com o fenômeno da morte. No funeral de Mário Covas isso foi evidenciado. Houve um aperfeiçoamento da forma como a mídia trabalhou o fato, salienta a cientista política Maria Teresa Kerbauy.

Mídia reorganiza o perfil e a trajetória

Na mitificação, a mídia tem papel importante. É ela quem reorganiza, por meio do jornalismo, o perfil do mito e sua trajetória, salientando os pontos que são necessários para manter a figura pública como um mito. Os veículos de comunicação contribuem, ainda, para alimentar a comoção.

A Imprensa ajuda a trabalhar, ampliar e sustentar a comoção, que faz parte do jogo político, afirma a historiadora Lidia Maria Vianna Possas, da Unesp de Marília.

Na morte de Covas, a alimentação do mito foi feita por uma cobertura jornalística ostensiva, com direito a programações televisivas canceladas, flashes ao vivo, páginas e mais páginas de jornal e veiculações de depoimentos de políticos e populares comovidos. O efeito disso foi sentido na audiência na TV, que registrou aumento de quatro a cinco pontos no Ibope.

Além dos depoimentos, a mobilização popular é garantida, sobretudo, pelas imagens das pessoas nas ruas. Nesse sentido, o cerimonial desempenha papel importante no processo de mitificação e, conseqüentemente, de reorganização política. É por meio do ordenamento cênico que se favorece o surgimento de uma ou outra figura pública e, acima de tudo, do mito.

As imagens formalizam o pacto, evidenciando a rearticulação política. As pessoas estão lá para falar que foram amigas íntimas do morto. É lógico que o sentimento de perda e tristeza existem, mas é preciso lembrar que São Paulo, desde a República Velha, não tem projeção política muito forte. E aí é que entra o mito Mário Covas, sustenta Lidia Possas.

Para a cientista política Maria Teresa Miceli Kerbauy, da Unesp de Araraquara, a morte de Covas promove um realinhamento do PSDB, embora não perceptível pela população, para a qual o evento permanece como a morte de um governador do Estado, não de um político tucano. A pesquisadora, no entanto, não aposta na perduração do mito. Acho que é algo passageiro e que acabará caindo no esquecimento, arrisca.

A historiadora Lidia Possas vai além. A sustentação do mito de Covas vai depender da geração que fica. Se o mito dele for importante para o pacto político que vai ser construído, penso que será mantido, conclui.

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