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Comoção minimiza anonimato do povo

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 3 min

Para a psicóloga Vera Resende, funeral público convida à mobilização; novela também contribuiu para comoção

Ao lado da influência midiática, os funerais públicos permitem que o povo vivencie momento único de sair do anonimato. Esse sentimento, como explica a psicóloga Vera da Rocha Resende, da Unesp de Bauru, é ilusório, mas, por causa da desterritorialização do espaço, acaba se tornando uma válvula de escape para o sentimento de marginalidade.

A participação nesses eventos de comoção nacional dá a ilusão de que a pessoa é menos anônima, de que está próxima daquele que está famoso, o que explica o fato de muita gente faltar ao trabalho, gastar o pouco que tem para ir ao velório, opina Vera.

Antes sem espaço na mídia, que busca pessoas incomuns, o cidadão passa a participar daquele evento porque este exige a comoção popular para existir. Quando tem a oportunidade de entrar em contato com essa comoção, a pessoa vivencia com toda emoção a oportunidade que está sendo dada. É uma espécie de resgate daquilo que ela foi ou poderia ter sido, pontua Vera.

A exposição transparente da doença, por parte do próprio Mário Covas, contribuiu para aproximar o detentor do poder do ser normal, membro da multidão. Vulneráveis em seu anonimato, muito pessoas se sentiram convidadas a participar do evento, que, por envolver a morte, por si só já era mobilizador.

O Covas, quando permitiu que sua vida privada fosse exposta, estava se mostrando uma pessoa comum, que adoece e corre riscos. Isso o tirou do lugar mais mitificado e o colocou ao lado da população. O fato de ser uma pessoa que se expunha demais, contribuiu para a mobilização, diz Vera Resende.

Com esse delineamento, a psicóloga nega que a comoção nacional em torno da morte de Mário Covas tenha sido motivada pela exposição ostensiva do fato na mídia. Para a pesquisadora da Unesp, o contexto é mais amplo e inclui, inclusive, a novela Laços de Família.

Apesar da novela ter terminado, as pessoas ainda estavam mobilizadas em torno do câncer, doença de uma das personagens principais, a Camila. Então, quando Mário Covas dá sinais de agravamento da doença, as pessoas começam a se identificar com a situação. Outro fato é que o câncer é uma doença que imprime marca muito forte, que paralisa as pessoas, aponta Vera.

Outros ingredientes de mobilização, segundo a psicóloga, foram a personalidade do governador e o perfil de sua esposa, Lila, tida como conciliadora, mãe, esposa e amiga de Covas. Além disso, nós lutamos contra a morte desde que nascemos e a doença do governador só estigmatizou essa luta. Ele concretizou nossa batalha pela vida, sintetiza.

Opinião semelhante tem o psicólogo José Luiz Guimarães, da Unesp de Assis. Ele comenta que o funeral coletivo funciona como um espaço para liberar sentimentos ambíguos e latentes, propícios para reflexões e balanços a respeito da própria existência.

Não é impróprio afirmar que muita gente chorou por Covas, por si mesmo e por muitos outros motivos, por conta de uma espécie de afrouxamento dos critérios rígidos e preconceituosos que a sociedade vem construindo, secularmente, de que choro e lamentações seriam demonstrações de fraqueza da condição humana, afirma Guimarães.

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