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O 'anjo' Arafat não convence Israel

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 6 min

Para cônsul do Estado de Israel, Yasser Arafat não é nenhum anjo, se levado em conta seu passado de terrorista

O cônsul de Israel em São Paulo, Ran Yaakoby, garante que seu país está disposto a firmar, mais uma vez, um acordo de paz com a Autoridade Palestina, Yasser Arafat, desde que ele troque os fuzis pelas canetas. Na última quinta-feira, Yaakoby visitou Bauru para divulgar um intercâmbio cultural oferecido por Israel a universitários e profissionais liberais brasileiros. Ele aproveitou a oportunidade para fazer uma avaliação da relação entre palestinos, israelenses e judeus. A seguir, a entrevista concedida ao Jornal da Cidade.

Jornal da Cidade - Toda vez que se anuncia um acordo de paz entre palestinos e o Estado de Israel, a comunidade internacional fica com um pé atrás sobre a veracidade do fim dos conflitos. O senhor acredita que existe uma chance mínima de algum dia israelenses e palestinos conviverem em paz?Ran Yaakoby - Em primeiro lugar, tenho que dizer que ainda não existe a Palestina. Hoje temos a Autoridade Palestina. E a disputa é exatamente sobre isso, sobre o que é a Palestina, sobre o que é o Estado Palestino.

JC - O Estado de Israel é mesmo a favor da criação do Estado da Palestina? Os israelenses estão dispostos a ceder territórios, a participar com boa vontade de uma mesa de negociações?Yaakoby - Sim. Israel é a favor. Faz tempo que Israel é a favor da criação do Estado Palestino, mas como Estado pacífico, vizinho do Estado de Israel, e não como significado de mais um perigo. Israel já lutou bastante para sua sobrevivência. E tem toda vontade que esse novo Estado Palestino seja um Estado amigo de Israel. E para criar uma amizade tem que se sentar a mesa de negociação.

JC - A impressão que se tem, pelo menos aqui no Brasil, é de que a Autoridade Palestina, representada por Yasser Arafat, está disposta a conversar. O que falta para que essa negociação avance?Yaakoby - A situação atual é a seguinte: a Autoridade Palestina decidiu, por motivos próprios, paralisar as negociações e sair para as ruas e começar uma revolta popular armada. Nessa situação, é muito difícil negociar. Para se negociar a paz, tem que haver tranqüilidade.

JC - Em toda negociação existem exigências. Qual é a lista de exigências que Israel impõe para que o Estado da Palestina seja finalmente reconhecido?Yaakoby - Primeiro temos que ter paz. A verdade é que, hoje, a Autoridade Palestina já controla 97% da população palestina. Faltam só 3%. Toda essa intifada começou quando Barak (ex-premiê Ehud Barak) e Arafat retornavam de Camp David (Estados Unidos). Até o ex-presidente Bill Clinton falou a Arafat que nunca se havia feito uma oferta tão generosa aos palestinos. Não há como negociar com fuzis na mesa. Para se assinar um acordo de paz, temos que pegar só as canetas e esconder as nossas armas. Em segundo lugar, a atitude palestina tem que mudar. Hoje se ensina nas escolas palestinas propaganda contra Israel, contra judeus. É preciso que os jovens, o povo palestino se acostumem com a idéia de paz.

JC - Vamos falar de algo mais concreto. Qual é a exigência que Israel não aceita de Arafat para liberar a declaração do Estado da Palestina?Yaakoby - Existem exigências palestinas que não são aceitáveis por parte de Israel. Em princípio, a volta de refugiados, que são filhos, netos e bisnetos de refugiados. Isso significa a volta de quatro milhões de palestinos ao Estado de Israel e não para o Estado Palestino. Se fosse para o Estado Palestino não haveria problema. Isso significa que os judeus, no Estado de Israel, seriam uma minoria. Então, Israel deixaria de ser o Estado judeu, único no mundo, enquanto que os árabes têm mais de vinte países. Isso significaria um decreto de morte para todo o povo judeu, que foi perseguido durante dois mil anos. Isso não poderá acontecer, não podemos permitir isso. Enquanto os palestinos insistirem na volta desses milhões de palestinos ao Estado de Israel, a negociação ficará difícil.

JC - Israel tem, agora, como primeiro-ministro um ex-general de seu Exército, Ariel Sharon, conhecido por jogar duro na questão com os palestinos. O senhor não acha que a presença de Sharon no comando do governo israelense vai dificultar ainda mais as negociações com Arafat?Yaakoby - Bom, é preciso lembrar que do outro lado, do lado palestino, existe um homem, Yasser Arafat, que não tem a imagem de um anjo. Ele, por quase 60 anos, liderou movimentos terroristas. Se de um lado, o lado palestino, é aceitável um ex-líder terrorista liderar o próprio povo, acho que também deve ser aceitável um ex-general do Exército no comando de Israel. Não se trata de um ex-terrorista. É um ex-general. Ele (Sharon) não tem culpa se lutou bem e não perdeu as guerras. Ele deve ser aceito pela comunidade internacional. Claro que os palestinos não podem recusar esse líder político legítimo, líder de um dos maiores partidos israelenses. Olha, israelenses têm medo do terrorismo palestino. A própria intifada criada por Arafat fortaleceu Sharon. Se não houvesse a intifada, provavelmente Sharon não estaria no poder. Arafat foi o principal fator para o surgimento de Ariel Sharon como primeiro-ministro.

JC - As relações de Israel com a Síria também não são boas. A posse de Hafez al Assad no comando do país pode significar uma melhora nas relações?Yaakoby - Na verdade, no começo nós esperávamos que isso acontecesse. Mas, parece que isso não vai ocorrer. Hafez al Assad parece ser inseguro, influenciado pelo Hezbolah e movimentos radicalistas muçulmanos. Ele tem medo de oferecer a paz. Hafez herdou o poder sem preparação. Ele é um médico oculista que foi chamado de Londres para ser empossado após a morte do pai. Ele é influenciado pelos extremistas. Na Síria já há demonstrações contra Hafez. Não sei se um líder que não tem apoio do próprio país poderá liderar o seu povo para uma revolução de paz. Espero que ele seja capaz, como médico que é, como alguém que foi formado no Ocidente, na Inglaterra, seja capaz de levantar o ódio cego contra judeus, contra Israel, e oferecer, ou pelo menos aceitar, as ofertas para se chegar a uma mesa de negociações. Israel já mostrou para o Egito, para a Jordânia, para os palestinos, a sua vontade para se chegar a paz e sua preparação para fazer concessões.

JC - Já que o senhor comentou sobre a Jordânia, que recentemente perdeu o rei Hussein, qual é a avaliação de Israel sobre o novo comando do governo, agora nas mãos do rei Abdallah?Yaakoby - Não é exatamente um novo governo porque, com todo respeito, quando existe um rei não é ele quem decide tudo. O novo rei é jovem, também educado na Inglaterra. Já mostrou ser liberal. Bom, a Jordânia tem uma história bem triste com o movimento palestino. Foi o rei Hussein que expulsou os palestinos no Setembro Negro da Jordânia. Arafat tentou uma revolta contra o rei da Jordânia, chegando a ameaçar o regime jordaniano. Aí o rei expulsou ele para Beirute, no Líbano. De lá, Israel o expulsou para Tunis e depois veio o acordo de paz. No acordo de paz, o Egito exigiu muitos territórios de volta e ganhou tudo que exigiu. Não exigiu de volta a Faixa de Gaza porque não quis mexer com o problema palestino. A Jordânia também, para assinar o acordo, exigiu territórios e ganhou tudo que exigiu. Não exigiu Jerusalém Oriental e nem a Cisjordânia porque não quis mexer com o problema palestino. Hoje, o Estado de Israel tem que resolver o problema palestino. Por quê o mundo árabe não o fez?

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