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Da terra nasce o homem

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 3 min

A antiga história da criação do homem por Deus através de um molde de barro pode não ser apenas uma alegoria para a explicar a origem da vida no planeta. A argiloterapia, de um modo simplificado, uma técnica pela qual o manusear do barro e seu resultado é capaz de revelar os segredos do comportamento humano, pode ser um sinal disso. Quem explica é a arte-educadora e artista plástica Nadja Maria Goes Rodrigues, que esta semana ministrou um workshop para profissionais das áreas de psicologia e educação sobre o assunto, que ela garante ser uma das mais eficientes maneiras de perceber o que está se passando com uma pessoa.

O objetivo da argiloterapia é criar um canal de comunicação com o paciente, obtendo suporte para diferentes modos de aproximação, diz Nadja. A arte-educadora entrou entrou em contato com a argiloterapia pela primeira vez durante a Eco 92, no Rio de Janeiro, tendo aulas com um especialista alemão. Desde então, têm se dedicado ao estudo do uso da argila como forma de terapia e prepara um livro sobre o tema.

O uso da arte para fins terapêuticos não é recente. No final do século XIX, os psiquiatras como Mohr, Simon e Prinzhorn, já se interessavam em estudar as produções plásticas dos alienados, facilitando suas produções, colecionando-as e estudando-as. Os tratamentos psicanalíticos e psicoterápicos das neuroses tiveram um grande desenvolvimento na segunda metade do século e depois surgiram psicoterapias de grupo e familiares, o psicodrama e as diversas técnicas de mediação artística, como a musicoterapia, dançaterapia e as terapias através da expressão plástica, onde se encaixa a argiloterapia.

O homem usa o barro como matéria-prima desde a época das cavernas mas o seu uso em terapia só ocorreu com a criação dos ateliês de terapia. Normalmente usada em hospitais psiquiátricos com pacientes com problemas mentais, a argiloterapia também apresenta ótimos resultados com pessoas sem nenhum distúrbio. É muito mais fácil ficar conhecendo uma pessoa através do seu trabalho, do seu diálogo com o barro, do que conversando com ela, afirma Nadja Goes Rodrigues, que exemplifica: Se uma criança trabalhando com o barro livremente fizer um monstrinho, isso pode significar que ela tem algum tipo de problema, seja ele um trauma ou uma dificuldade de lidar com algo. Esse tipo de constatação não surgiria tão claramente numa sessão de terapia comum. A argiloterapia envolve o não-verbal, o que não fica explícito, por isso é eficiente.

Relaxamento

A sessão de argiloterapia não é igual para todas as pessoas, mas geralmente começa com um relaxamento induzido ao som de temas musicais suaves. Deitado, o paciente deve fechar os olhos e imaginar o local de onde a massa com a qual ele está prestes a trabalhar vem. Em seguida ele entra em contato com o barro, na realidade só um pedacinho, a barbotina, que vai se dissolver e, como um suco, ficar líquido. Suas sensações sobre o barro são anotadas. Depois começa a modelagem, é nesse momento que ele fica livre para se expressar e perceber que tem um poder ilimitado para transformar aquele material no que quiser. A maioria das pessoas começam fazendo cinzeiros, vasinhos, dados, logo descobrem que podem criar, conta a arte-educadora.

Com autistas, o processo do relaxamento é mais longo, porque ele precisa primeiro se interessar pela massa de argila para querer trabalhar com ela. As pessoas com histórico de neurose obsessiva geralmente sentem-se atraídas pela argila e passam para o material seus sentimentos de euforia, ansiedade, medo... Pessoas afetadas por estresse no dia-a-dia acabam tendo na argiloterapia também uma forma de lazer para aliviar as tensões. Em todos os casos, a técnica tira as imagens para fora e todo sua significância passa para a massa, diz Nadja sobre o que pode ser o começo da solução do mal que aflige a pessoa.

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