Lideranças industriais, sindicatos e economistas acreditam que o racionamento pode afetar o crescimento do País
O comprometimento do crescimento da economia no País é o grande temor de empresários, engenheiros e economistas, frente à possível situação de racionamento de energia elétrica que vem sendo anunciada, com destaque para as regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Representantes de diversos setores consultados para falar sobre o assunto culpam a falta de investimentos por essa situação, e não as chuvas. Afinal, a questão consumo de energia x racionamento é assunto no País há vários anos.
O diretor estadual do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Ricardo Marques Coube, diz qua lamenta a situação ter chegado a tal ponto pelo fato dessa questão ser discutida há anos. Há anos se sabe que, para manter uma base de crescimento sustentável, um dos fatores que o Brasil precisaria cuidar era a energia, tanto a geração, quanto a distribuição. Eu me lembro de discussões sobre isso desde o início do Plano Real, ressalta Coube.
Para ele, a atual situação que se apresenta indica que o racionamento será inevitável e que isso comprometerá muito o crescimento do País. Um dos grandes problemas, na opinião dele, é que a busca de uma solução rápida para resolver o problema gere grandes perdas de dinheiro. Isso obrigará o País a centralizar esforços nessa área para garantir, futuramente, um crescimento sustentável. Eu lamento porque o setor industrial pode ser muito prejudicado, principalmente porque se trata de um assunto que poderia ter sido tratado há muitos anos. Isso era um problema nosso e previsível, porém, não recebeu a devida atenção, diz.
O empresário destaca que, diante dessa situação, fica a incógnita de como será o segundo semestre deste ano, que tinha inúmeros pontos a favor para ser um período forte na economia, mas, que depende de energia elétrica. A indústria não funciona sem energia elétrica e não se muda uma matriz energética em poucos meses. Então, corremos o risco de ter o nosso crescimento muito comprometido, acrescenta Coube.
A situação dos reservatórios da região Sudeste, responsável por 68% do abastecimento energético do País, é a pior num período de quase 40 anos, segundo dados do Operador Nacional do Sistema (ONS). A situação poderá ser revertida somente se houver uma profunda mudança no quadro hídrico da região. Caso contrário, o racionamento poderá começar a partir de 1 de maio.
O diretor da Regional do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp), Carlos Augusto Ramos Kirchner, relembra o fato de que a possibilidade de racionamento de energia é discutida há vários anos e que os devidos e necessários investimentos não foram feitos para evitar a situação. Segundo ele, o crescimento no consumo de energia vem ocorrendo numa média de 5,2% ao ano, lembrando que esse percentual é cumulativo. Kirchner diz que o modelo do setor elétrico brasileiro, criado em 1995, tinha o objetivo de atrair a iniciativa privada para novos investimentos, mas, que viria fracassando até hoje. Para ele, a alegação de que o racionamento é devido a escassez de chuvas não é verdade.
Não é bem isso que ocorre. Uma usina hidrelétrica tem associada a ela um reservatório, possui uma potência instalada e uma potência firme. Se uma usina começa a produzir energia acima da potência firme, o que é possível, passa a utilizar a água dos reservatórios por conta de gerar mais energia. Isso faz com que o nível dos reservatórios vá abaixando, sem contar com as chuvas. É isso que vem acontecendo nos últimos dois anos. Como estamos passando por um período de estiagem, não temos essa reserva de água para suprir as necessidades porque ela já foi usada, indevidamente, para gerar um excedente de energia. Na medida em que não foram feitas novas usinas hidrelétricas, a saída foi utilizar os reservatórios. O resultado é esse que vemos agora, diz Kirchner.
O presidente do Seesp afirma que não se pode remeter o possível racionamento à falta de chuvas. Segundo ele, o grande problema foi a falta de investimentos no setor durante anos, já que uma obra de engenharia, como uma usina hidrelétrica, é feita para enfrentar tanto os períodos úmidos quanto os secos. Esse problema vem se arrastando há anos e pelo fato de não terem sido construídas novas unidades geradoras de energia, a situação foi se agravando, observa Kirchner.
Empresas sem obrigações
Ele critica a política de privatizações do Governo Federal no que diz respeito às empresas geradoras de energia elétrica que passaram por esse processo. Segundo o presidente do Seesp, o governo não coloca responsabilidades de investimentos aos grupos que compram essas empresas e isso geraria problemas sérios de produção de energia. As empresas são transformadas em produtores independentes de energia, o que significa não ter obrigações perante a sociedade, segundo Kirchner.
Veja o caso da Cesp. Ela foi dividida em três geradoras e uma transmissora e tanto para a Cesp Paranapanema quanto para a Tietê, que já foram privatizadas, e também para a Cesp Paraná, que tentaram privatizar e não conseguiram, a única obrigação que constou nos editais de privatização dessas empresas é de que os compradores deveriam aumentar a capacidade instalada em 15% num período de oito anos. Só que isso é insignificante, porque em oito anos se aumenta 50%. E depois desse período? As empresas ficarão mais 22 anos no prazo de concessão sem precisar fazer nada? Essa falta de exigências em relação aos investimentos nessas empresas de geração e distribuição de energia acabam gerando quadros absurdos e graves. E nós ficamos assistindo de camarote a situação de falta de energia no País, diz o engenheiro. Segundo ele, o último racionamento de energia na região Sudeste do Brasil ocorreu em 1950.
O economista Mauro Fernando Galo também teme pelo País, diante da possibilidade racionamento, dizendo que o fornecimento de energia é fator primordial para a produção. Principalmente para o Brasil, que está em fase de desenvolvimento, essa situação será uma grande limitadora do crescimento. Isso vem se agravando há muitos anos e a possível falta de energia no País já era prevista. Agora, querem que as privatizações sejam a solução para o problema a partir de novos investimentos. Mas, isso não gera resultados a curto prazo. Ou seja, sem dúvida o crescimento do País será comprometido diante de um racionamento de energia elétrica, diz o economista.
De acordo com informações já divulgadas pelo ONS, se a situação no Sudeste do País permanecer inalterada até o final de abril, será necessária a redução de 15% da carga energética na região durante o período seco - até o final do ano - em caráter preventivo. A meteorologia diz que é possível chover, mas não se pode prever quanto.