Mesmo distante dos grandes rios, Bauru é uma cidade que concentra um número expressivo de pescadores, o que é possível notar pela quantidade de grupos, lojas de artigos de pesca e pesqueiros.
Quando você vai ao supermercado, padaria, café, médico, shopping, casa lotérica, bar (chega ser um reduto!) ou mesmo à feira livre é quase impossível não encontrar um pescador. Pelo menos um viciado em pescaria vai contar suas histórias. Aliás, mesmo aqueles que não pescam, não resistem ao bom papo do pescador. É gostoso ouvir como foi preparada a isca para determinada espécie ou como eles se livraram do temporal, quando estavam no meio do rio.
Mas o curioso é Bauru concentrar tantos pescadores assim. São viciados em rios da Amazônia, Pará, Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul... rio Batalha, Tietê e qualquer lagoa que ofereça paz, tranquilidade e a possibilidade de uma fisgada. Eles vão se espalhando por aí. Carregam suas tralhas, invenções curiosas e muita energia. Ah! Cerveja também. Existem muitos pescadores que adoram uma cervejinha gelada depois, às vezes antes, da pescaria.
E os grupos são organizados. Um grupo de aposentados do Banespa, por exemplo, não resiste a uma boa pescaria. João Mendes (Mato Grosso), Roberto Morom, João Ulisses, Mário Andrade, Arnaldo Múfalo, Sidney Martinez Silveira e Fernando Lucilha Júnior são companheiros de pescaria há muitos anos. No próximo dia 23, eles estarão preparados para enfrentar mais de mil quilômetros de estrada para chegar ao rio Miranda. Lá, mais bauruenses aguardam a chegada da turma: Zulindo Costa (proprietário do rancho) e Cirineu Romani, o mestre-cuca.
O grupo do Banespa pesca desde 85, quando ainda enfrentava a correria do banco. Agora nem é preciso tirar férias, aproveitar feriados, é só marcar a data, organizar a tralha e partir. Toda semana, o grupo se encontra para conversar, decidir assuntos da viagem e contar histórias. Na estrada, eles se revesam no volante de três veículos para chegar mais rápido. Lá, eles esperam se divertir e pegar muitos peixes, porém, como explica Lucilha Júnior: O mais importante é a beleza do lugar. Os animais são maravilhosos.
Ele gosta de observar um pescador aventureiro que vive por lá, o biguá, uma espécie de pato preto que pesca melhor que muita gente. Quando pega um peixe de couro, tem o cuidado de jogá-lo para cima, assim ele abocanha o peixe com a cabeça para baixo, sem se machucar com o ferrão, conta Lucilha.
Além do rio Miranda, o grupo também frequenta o rio Paraguai, o rio Grande e outros locais de pesca. A turma está animada e muito preparada para um bom resultado à beira do rio. Vamos ver o que vão pegar!
Opção pelo conforto
Outra turma que está se preparando para pescar em 18 de maio começou modesta e cresceu. A primeira pescaria em grupo, em 92, foi protagonizada por Antonio Carlos Biason Sanches, Aristeo Sanches, Sebastião Pomaro e Alfredo Fernandes. Agora, entre 12 e 14 pescadores fazem parte da equipe, que programa uma pescaria ao ano, no mínimo.
As primeiras viagens foram verdadeiras aventuras por estradas de terra, buracos e muita paciência. Normalmente a turma saía de madrugada, conduzindo carros e caminhonetes até a beira do rio. Carregando, inclusive, o barco. Ali, armavam o acampamento e passavam dias de glória. Na primeira pescaria, em Porto Murtinho, no Mato Grosso do Sul, o quarteto teve a coragem de ficar pescando em um único barco, acompanhados ainda de um piloteiro (outro corajoso!). Com o passar do tempo e o fortalecimento do grupo, veio o conforto.
Hoje, a turma cresceu e optou pela locação de ônibus, assim é possível viajar durante toda a noite e os pescadores chegam descansados e animados. Os acampamentos foram descartados também. A facilidade de ranchos e hotéis conquistou o grupo desde de 98.
Antonio Carlos Sanches, que tornou-se naturalmente o tesoureiro da turma, comenta que a pescaria é programada com bastante antecedência. O primeiro passo é escolher o lugar e a data, o que permite uma previsão de gastos. Assim, mensalmente, os pescadores começam a contribuir em uma poupança que será utilizada para a pescaria.
Para coordenar tudo, Sanches já tem em mãos as inseparáveis listas. Se optarem por acampamento, a lista de mercado é diferente. Há também a lista da farmácia geral e cada pescador recebe a sua listinha de lembretes: licença de pesca, salva-vidas, tralha, isopor, remédios pessoais, etc. E tudo é dividido. Inclusive os peixes. Na hora da divisão, há sempre um pescador que não teve muita sorte, comentando: nossa, eu não sabia que eu tinha pescado tanto peixe assim! Não importa a quantidade de peixes que levamos, mas o período gostoso que passamos juntos, comenta Sanches.
Ele começou a pescar com o pai, Aristeo Sanches, que nunca perdeu uma pescaria do grupo, juntamente com Pomaro. Desta vez, alguns pescadores não poderão viajar e outros aproveitarão as vagas para acompanhar o grupo pela primeira vez. Serão 14 pescadores.
Além de Porto Murtinho, o grupo já pescou em Albuquerque, Miranda, Baía Negra e Xingu à procura de pintados, dourados, pacus e outras espécies que cruzarem o rio. Ah! Além da tralha, a lista contém um item que não pode ser esquecido: uma peça de mortadela com aproximadamente sete quilos. É muita mortadela, não? E não sobra nem um pedacinho para isca.
Pescaria e brincadeira
A Equipe Peixe Livre, de Bauru, também procura organizar sua pescaria com meses de antecedência. O grupo é formado por 21 pescadores, que frequentam a Ponte do 21, no rio Miranda, além de outras paradas. Coordenada por Edson Manzini e Zé da Barca, a turma do 21, aporta na pousada de outro bauruense, o Tavares. Antes da viagem, há poupança e a distribuição do regulamento da pescaria, que contém 27 itens, informando todos os direitos e deveres dos participantes. É bem organizado e traz desde horários de saída e paradas, até como serão divididos os peixes fisgados na viagem.
Dois itens importantes falam da preocupação com a fiscalização e com o meio ambiente:
22 - É dever de todos respeitar o meio ambiente, não jogando lixo no rio e nos barrancos;
23 - Se qualquer pessoa for flagrada por fiscais com peixe fora da medida, sem colete salva-vida e sem licença de pesca, a responsabilidade é do infrator.
Mesmo seguindo regras, é claro que a turma também tem seus momentos de descontração. No final da pescaria, são eleitos o Maior contador de histórias, o Mais alegre, o Melhor companheiro e outros títulos curiosos. O Zé da Barca, é responsável pelo programa A hora do pescador, na 710 FM, e não resiste a um bom papo. Ele já conquistou, com muito talento, o título de Maior contador de histórias. Por que será?
Piaparas
Um grupo formado, principalmente, por pescadores de Bauru e Agudos optou por uma pescaria em Castilho (SP), no rio Paraná, no mês passado. Habituados a pescar em Três Lagoas, a turma, composta por mais de dez pescadores, entre eles Alexandre Luiz Artioli Sandri, Rodrigo Artioli Sandri, José Gomes, Renato Tadashi e o Sílvio, de Ibitinga, estava à procura de piaparas.
Iscas, tralha superleve para aumentar a esportividade, barco na água e começa a pescaria. Apesar da afinidade do grupo em pesca com moscas, para as piaparas as sugestões foram caramujos, minhocas, lesma e outros quitutes. Até gafanhoto entrou na roda. O Tadashi pegou duas piaparas com um único gafanhoto, que normalmente são usados para a pesca de piracanjuba. Devido ao bom desempenho do inseto como isca, à noite, o grupo percorria a área do hotel à procura de gafanhotos, mas eles não apareceram.
A pescaria agradou a todos, inclusive outros barcos de pesca que optaram pela mesma data. Porém, a turma não estava muito prevenida com produtos alimentícios e passou fome (esqueceram de incluir a mortadela na tralha!). É que eles não contavam com o despreparo do hotel, que está sendo desapropriado. Isso reduziu muito o número de hóspedes, prejudicando o atendimento. Não tínhamos opções para comer. Aproveitamos e consumimos muito peixe, comentam. Agora, a turma se prepara para a próxima pescaria, que deverá ser em Ilha Soteira, à procura de tucunarés. Desta vez, a pesca será de fly e, com certeza, estarão mais prevenidos.