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Mais de 46% da cidade não têm asfalto

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 5 min

O número chega a surpreender quem vive na região central e pouco se dá conta do asfalto na porta de casa. A situação, porém, é muito diferente nos bairros distantes da periferia

Parece mentira, mas 46,43% da área urbana de Bauru estão ainda na terra, um dado contraditório para um município que se auto-entitula pólo regional de desenvolvimento. O asfalto é premissa de progresso e, sem ele, fica difícil imaginar projetos ousados nos setores comercial e turístico. Nada contra estes investimentos, mas a questão aqui trata de prioridades básicas.

Enquanto 7,5 milhões de metros quadrados estão pavimentados, outros 6,5 milhões esperam a benfeitoria. Quem vive nas áreas centrais da cidade pode até se assustar com os números, mas basta uma volta pelos bairros mais distantes que a realidade, literalmente, se abre sob os pés. Só para citar alguns, a carência se verifica no Parque Roosevelt, Núcleo Leão XIII, Parque Real, Parque Santa Terezinha, jardins Mendonça, Carolina e Chapadão, Vânia Maria, Pousada da Esperança, Vila Nova Celina, Vila São Paulo, parques Paulista e Júlio Nóbrega.

A situação é realmente lamentável e, infelizmente, deve demorar a ser resolvida. Com orçamento estreito, a Prefeitura dá indícios de que o quadro não será muito diferente ao final dos próximos quatro anos, uma vez que a perspectiva de melhorias não chega a atingir 10% do problema. A administração precisa de um plano municipal de pavimentação, subsidiado por um fundo, para viabilizar a benfeitoria. Tenho certeza que isso será possível a partir do ano que vem. Já estamos mobilizados no sentido de obter recursos a fundo perdido junto ao Governo do Estado e, sinceramente, esperamos que questões de ordem política não impeçam essas ações. Estamos satisfeitos com a evolução do asfalto comunitário, mas temos de buscar a auto-suficiência para nossas próprias ações, comentou Edmilson Queiroz Dias, secretário municipal de Obras.

Não bastasse o déficit de pavimentação, o município também enfrenta a carência de sistemas de escoamento de águas pluviais. Ambos os problemas estão intrinsecamente relacionados. Ao contrário do que se permitiu no passado, a atual administração só deve liberar o asfalto nas localidades já providas de rede de galerias, o que torna a solução ainda mais demorada. É um crime fazer o asfalto sobre um terreno que não tem galerias. A obra se perde com a primeira chuva forte que cair e o dinheiro empregado escorre junto. É o que aconteceu no Jardim Jussara, exemplificou o secretário.

O projeto de pavimentação, portanto, passa, prioritariamente, pela instalação das redes de escoamento. Dotar todos os bairros carentes da estrutura, porém, seria impossível a médio prazo. Só o Parque Roosevelt consumiria R$ 1,050 milhão com galerias.

Para racionalizar os serviços, a Prefeitura pretende trabalhar com áreas estratégicas. Os bairros que carecem de galerias, por exemplo, terão priorizadas as ruas por onde circulam os ônibus circulares. Temos condições de executar ramais estratégicos da rede de forma a permitir a liberação do asfalto nas ruas mais movimentadas. Se não fizermos assim, fica difícil atendermos democraticamente os bairros.

Um bom exemplo de que é importante trabalhar conjuntamente obras de galerias e asfalto seria a avenida Comendador José da Silva Martha. Ponto crítico durante anos a fio em épocas de chuvas, a via recebia reparos constantes no pavimento asfáltico após as chuvas. A falta do sistema de escoamento, porém, inutilizava sucessivamente os serviços. No ano passado, o local finalmente foi provido de galerias, recebendo um novo asfalto. Ao que tudo indica, o problema foi solucionado, uma vez que a obra resistiu à tempestade que assolou Bauru no dia 8 de fevereiro último.

Com exceção do Parque Roosevelt, onde a instalação de galerias foi abertamente anunciada pela Secretaria de Obras, não se sabe qual bairro terá prioridade na lista da administração. A única pista até o momento é que todos serão igualmente atendidos, lembrando que as ruas de tráfego de ônibus coletivos serão preferenciais.

Técnica apropriada

Respeitando as exigências do característico solo arenoso de Bauru, a Prefeitura estabeleceu um padrão para o asfalto da cidade, seja para aquele que deverá ser empregado no projeto de recapeamento ou para as obras de pavimentação propriamente ditas. De acordo com o secretário municipal de Obras, Edmilson Queiroz Dias, dentre as várias técnicas que o mercado oferece, a mais apropriada para a cidade é o asfalto usinado a quente, compactado sobre base de solo-cimento (7% de cimento para cada porção de terra).

Um bom asfalto requer uma base ideal e uma boa compactação, sem esquecer da impermeabilização. Aquele asfalto antigo que recebia britas de várias espessuras na base não é mais utilizado, nem mesmo nas rodovias. As pessoas imaginam como asfalto ideal aquele existente na rua Araújo Leite, onde ele deve ter 25 centímetros de espessura, mas o conceito atual é outro. Isso não significa perda de qualidade. Eu quero salientar que tudo o que se faz em nível de administração pública depende da política. Quem está em busca de padrão de qualidade não vai permitir serviços ruins. Talvez o projeto político de outros governos fosse asfaltar o máximo de áreas sem considerar os efeitos futuros e qualidade, mas essa não é a nossa política, frisou Dias.

Apesar das garantias dadas pelo secretário, há quem questione a qualidade do serviço. José Aparecido dos Santos, da seção-Bauru da Associação dos Geógrafos do Brasil, defende o emprego do berço de britas (pedras de vários tamanhos na base asfáltica). Um asfalto bem feito exige essas camadas, mas o que vemos aqui é um serviço débil, uma casquinha de cinco centímetros que acaba não resistindo ao calor, chuva, cargas e ao esparrame de derivados de petróleo (gasolina e diesel), altamente corrosivos. A população precisa cobrar qualidade e perfeição, pois vai pagar por isso, enfatizou.

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