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FILHA DA DONA VICTÓRIA

Laura Márcia dos S. Brandão
| Tempo de leitura: 3 min

Sou fruto direto da geração de 60, quando os padrões tradicionais ruíram e os ânimos se exacerbaram e o que era certo deixou de ser, e a juventude começou a gritar e as mulheres a se emancipar. Sou fruto ainda daquele casamento tradicional onde o homem era o provedor, detinha as decisões e a mulher era do lar. Para completar o quadro, meu pai casou-se aos 35 anos com uma jovem de 18 e se transformou no famoso e saudoso Broncolino. Cresci, portanto, prestando mais atenção a meu pai, me espelhando nele, nos seus gostos e conquistas. Sempre fui apresentada como a filha do Broncolino. Minha mãe? Bem, não queria ser como ela! Nem ela queria que eu fosse! Me fazia morrer de estudar, me fazia questionar, e dizia Já tem uma Amélia aqui! Trate de estudar muito pra não ser outra! E foi assim. Só mais tarde minhas irmãs e eu fomos ver a força da mulher que tínhamos em casa, e nestes últimos meses, após o falecimento de meu pai ela simplesmente nos surpreendeu. Achávamos que ela não sobreviveria sem ele, tamanho era o amor e o carinho que ela sempre lhe dedicou. Pois não somente sobreviveu, como nos deu força e começamos a notar cada dia mais o ser especial que Deus nos deu como Mãe.

Carioca da gema, batizada pelo Padre Miguel (aquele mesmo da escola de samba), aluna de Malba Than no Colégio Nossa Senhora do Carmo, ela saiu do Rio e não olhou para trás. Lá deixou toda a família e veio casada como o homem que amava. Era na nossa casa o equilíbrio do meu pai, crítico, forte, brigador. É, hoje, o nosso. Ofuscada pelo brilho do meu pai, só hoje conseguimos medir a importância da sua força e sabedoria nas nossas vidas. Só o estudo vai fazer vocês se destacarem! e não havia chuva que nos fizesse faltar às aulas. Aprendeu a dirigir para me levar à noite às aulas de inglês, à faculdade. Além disto, se herdamos do meu pai o senso crítico, a franqueza, o gosto pelas artes e pela música, dela recebemos a generosidade, a sensibilidade pelos que podem menos, o inconformismo pelas desigualdades. Sempre me lembro de minha mãe ajudando outros. Jamais alguém que pedisse, saiu sem água, comida ou conforto. Tinha 16 anos quando recebi meu primeiro dinheiro, fruto de aulas particulares de inglês que já começava a dar. Ao mostrar com orgulho o dinheiro, recebi uma intimação: Pegue metade do que ganhou e leve a uma instituição de caridade. Pense sempre nos que têm menos e nunca vai te faltar o pão. E lá fui eu levar meu primeiro dinheirinho!

É assim a dona Victória! A mesa sempre posta com café, bolo, pão, sempre pronta a compartilhar, consolar, dividir.

Durante anos a vimos angariando mantimentos, agasalhos etc. Hoje ela tem alguns eleitos. Apertam a campainha: Vó, o seu velhinho tá aí! É um senhor de idade, surrado pela vida que vai lá pegar a caixa de leite. Acostumou-se tanto que tem até marca preferida. Além dele há outros. Há os que pedem para ela orar. Tem uma intimidade tão grande com Deus que acho que Ele não resiste e a atende.

Sei que há outras, várias Victórias por aí. Muitas vezes nem notadas pelos próprios filhos. É a elas que presto minha homenagem. E aqueles que forem me apresentar não se esqueçam de dizer que eu também sou a filha da dona Victória! (Laura Márcia dos Santos Brandão - RG 8.974.029)

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