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Faculdade investe no empreendedorismo

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Alunos em dúvida, perdidos no final da faculdade sem saber como e com que armas entrar no mercado de trabalho. Essa realidade é comum no Brasil, não importa qual seja a qualidade do curso ou grau de envolvimento do aluno. Acabar com essa dúvida dos universitários, fazendo com que eles desenvolvam o seu potencial empreendedor e saibam aplicá-lo no mercado é um dos objetivos do Núcleo Acadêmico de Empreendedorismo, criado há dois meses nas Faculdades Integradas de Bauru (FIB). Com atividades vivenciais que incluem também a participação de membros do empresariado local e até da família, os alunos, que participam do programa desenvolvido pelos professores Valter Pavão e Roberto Augusto dos Santos, coordenadores de projeto na instituição, já têm mostrado uma boa resposta, com uma mudança de comportamento comemorada pelos professores.

Jornal da Cidade - Como surgiu a iniciativa para criar o Núcleo Acadêmico de Empreendedorismo e qual é o seu princípio?Valter Pavão - Como a gente é professor há um bom tempo, percebemos que os alunos quando chegavam no fim da faculdade saiam com uma falta de perspectiva muito grande, com aquele sério problema de como entrar no mercado e competir. Por melhor que fosse o corpo docente ou a instituição, a gente percebia que isso acontecia: eles saiam praticamente perdidos. Dai começamos a trabalhar um projeto que viesse complementar a grade curricular e que desse esse amparo ao aluno, essa sustentação na hora que ele saísse da faculdade. O projeto é um complemento acadêmico para que o aluno quando sair daqui se sinta realmente gente de negócio. É um projeto óbvio, até simples, o problema é que ninguém faz. Nós estamos complementando a grade curricular básica com uma série de treinamentos específicos desenvolvidos para os alunos em função das necessidades. Com isso, vamos medindo nossos alunos, avaliando periodicamente quais são as suas expectativas e quais são as expectativas do mercado. Assim, vamos conciliando os dois interesses e montando os treinamentos vivenciais. Os alunos devem estar muito próximos da realidade de mercado, por isso trouxemos empresários para participar dos nossos programas.

JC - Como tem sido a resposta dos alunos? Pavão - Nós avaliamos todo o trabalho que a gente desenvolve aqui. O nível de satisfação dos alunos pelas respostas foi de 97%. Por exemplo, o primeiro treinamento foi específico para alunos do primeiro e do segundo ano e nós sentimos uma dificuldade muito grande dos professores trabalharem com esses alunos, porque eles têm uma falta de expectativa muito grande. Nós identificamos esse perfil e decidimos criar um plano de ação para trabalhar esses alunos, mudando a expectativa deles. Fizemos 8 horas de treinamento e aplicamos. Numa das salas só havia sete pessoas participando, das 23 nos total. Um dia uma professora me chamou para falar sobre como os professores perceberam a mudança dos alunos. Ela disse que era como se fosse outra sala, porque o perfil estava mudado. Então, a gente trabalha, nesse caso, não só de maneira vivencial, mas também com o aspecto psicológico. O trabalho que foi desenvolvido resgatou todo o potencial dos alunos e da instituição e a gente canalizou isso. A resposta dos alunos é fantástica, mas, o mais impressionante é a resposta dos professores sobre a mudança de comportamento dos alunos.

JC - Nesse caso, foi também um trabalho motivacional...Pavão - Nossa idéia é trabalhar nessa linha, incialmente os primeiros e segundos anos, depois, num nível superior, trabalhar o segundo e o terceiro anos e, ainda, num nível superior, trabalhar o quarto ano. A intenção é cultivar o aluno nos anos iniciais, dando a ele ferramentas para trabalhar empreendedorismo e empresas no segundo e no terceiro ano e no último ano, quando ele for sair da faculdade, vai estar avaliando projetos de negócios. O núcleo tem essa estrutura para motivar o aluno a buscar alguma coisa, saber o que é negócio e, no último ano, ele sair daqui capaz de montar um plano de negócio e avaliá-lo. O núcleo não se preocupa apenas com o aspecto motivacional. Ele se preocupa com esse aspecto só nos primeiros anos. Depois, vêm as ferramentas do aspecto operacional e, por fim, a avaliação técnica de negócios, montagem de negócios e avaliação de resultados. O projeto trabalha todos esses perfis do empreendedor.

JC - Como é o histórico do empreendedorismo no País?Pavão - O Brasil não é pioneiro em empreendedorismo. Países como o Canadá e os Estados Unidos são os verdadeiros referenciais. Aqui o empreendedorismo está começando agora e os estados mais avançados nessa área são Minas Gerais e Santa Catarina. Nesses lugares o empreendedorismo é trabalhado nas universidades. O Núcleo da FIB foi desenvolvido com base nos trabalhos criados nesses estados com o objetivo de disseminar a cultura empreendedora.

JC - O Núcleo têm desenvolvido as suas atividades com os alunos de administração. Os novos cursos que futuramente vão existir na FIB também vão contar com as mesmas atividades?Pavão - Sim, isso é importante que as pessoas saibam. O empreendedorismo e a cultura empreendedora podem ser aplicados em qualquer lugar, em qualquer profissão. Roberto Augusto dos Santos - Existe uma idéia de que empreendedorismo é uma coisa do dono da empresa mas, não necessariamente, o empreendedor é o dono do negócio. O empreendedor é qualquer pessoa que tem a capacidade de estabelecer suas metas de vida e alcançá-las através de um processo contínuo de desenvolvimento. O Claudinei Quirino é um empreendedor nos esportes, Caetano Veloso é um empreendedor na música... Pavão - A questão do empreendedorismo é muito mais do que ter empresa, é questão de saber qual a oportunidade que não se deve perder, quando se deve fazer alguma coisa e mais do que isso, querer fazer alguma coisa. É a pessoa perceber que ela é a chave do sucesso.

Origem do empreendedorismo

De acordo com Valter Pavão, o conceito de empreendedorismo surgiu com uma preocupação sobre as micro e pequenas empresas que são as que mais empregam trabalhadores no mundo todo. O que se percebeu foi que a entrada e saída dessas empresas no mercado oscilava demais e para que isso terminasse a Organização das Nações Unidas (ONU) desenvolveu um estudo. O objetivo era que as empresas conseguissem se manter no mercado. O que o estudo da ONU identificou, segundo Pavão, é que as empresas precisavam de capital. Baseando-se nessa constatação foram criadas várias linhas de crédito nos países para suprir essa necessidade. O que aconteceu, em seguida, foi que a maioria das empresas que eram beneficiadas com os créditos acabaram aumentando seus problemas com o dinheiro, por falta de capacidade para gerenciá-lo. Foi quando começou-se a fazer um trabalho complementar das linhas de crédito, um trabalho de acompanhamento desses empreendedores das micro e pequenas empresas, explica o coordenador.

Surgiram então os treinamentos para os empreendedores, que acabaram se ampliando, mais uma vez por ação das Nações Unidas, que identificou a necessidade de desenvolvimento do empreendedorismo na base, ou seja, nas instituições de ensino. O grande problema das empresas nascerem e morrerem muito rápido é a falta da cultura empreendedora. Para trabalhar essa cultura é preciso ensiná-la nas faculdades, diz Valter Pavão.

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