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Stédile diz que governo faz truque

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

Líder do MST classificou como truque a propaganda sobre reforma agrária que o governo está veiculando na TV

O líder do Movimento Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, esteve em Bauru na última sexta-feira. Ele aceitou convite da Comissão de Direitos Humanos da OAB-subseção Bauru, para dar uma palestra sobre a reforma agrária no País e as condições de vida no campo. Gaúcho, Stédile classifica como truque a barbaridade feita pelo Governo Federal na televisão, ao mencionar que faz reforma agrária através de publicidade. Crítico feroz do modelo de gestão do governo FHC, Stédile falou ao JC sobre a estrutura agrária no País, condenou a exploração feita pelas multinacionais sobre o pequeno agricultor e, sobretudo, o governo. Leia os principais pontos da entrevista.

Jornal da Cidade - Como o senhor vê a propaganda do Governo Federal na televisão sobre reforma agrária?João Pedro Stédile - O Governo FHC é mentiroso. Ele não quer fazer reforma agrária, ao contrário, tem uma política econômica que é contrária à reforma, porque é um processo que aumenta cada vez mais a concentração da propriedade da terra. Mas ao mesmo tempo, ele sabe que a sociedade brasileira é contra ao latifúndio e é a favor da reforma agrária. Então, ele se obriga a fazer uma propaganda falsa, dizendo que vai fazer a reforma. Mas sua política favorece apenas a agricultura de exportação.

JC - Como o senhor vê o discurso do governo sobre o prejuízo das invasões para os sem-terra?Stédile - Primeiro há uma semântica que precisa ser esclarecida para a opinião pública. O MST não faz invasão. Isso é classificado pelo Código Penal quando uma pessoa se apropria de um bem de outro para enriquecimento ilícito. Nós fazemos é ocupação passiva das terras como forma de pressão social para que o governo aplique a lei, que obriga o governo a desapropriar todas as grandes propriedades improdutivas e distribuí-las aos sem-terra. Como o governo não faz isso, nós usamos o legítimo direito de pressioná-lo para que cumpra a lei. Por isso é que existem acórdãos no STF e STJ dizendo que as ocupações feitas pelo MST não só são legítimas como legais. O governo pressionado por uma ocupação se obriga a utilizar dos mecanismos jurídicos de propaganda para induzir a população a não pressionar. Na propaganda da TV, ele insinua que não precisa ocupar terra que ele vai desapropriar. Isso é escandaloso. Isso é um truque muito bem pago aos publicitários de plantão que trabalham para o governo.

JC - Somo o senhor viu a proteção da fazenda do presidente pelo Exército em Minas Gerais?Stédile - O governador Itamar Franco fez uma petição formal ao STF que ainda não foi julgada, para saber se uma propriedade que pertence aos filhos do presidente, em sociedade com um grileiro de terras aqui do Pontal, se cabe usar o Exército para proteger a fazenda quando o presidente não está lá. Nós nunca fizemos pressão na fazenda quando o FHC está lá. Há outra medida popular pedindo esclarecimento. Mas, de qualquer maneira, é uma petulância do presidente usar Exército para proteger uma fazendinha. O que a opinião pública deveria se perguntar é a natureza do comportamento das nossas elites.

JC - Em que sentido?Stédile - O Fernando Henrique, um sociólogo renomado, aposentado da USP, aposentado do Senado e agora presidente da República, um homem que não sabe diferenciar um pé de abóbora de um pé de melancia, tem necessidade de ter fazenda? Mas eles usam o poder econômico de acumular terras por uma única vaidade pessoal, para poder nas rodas das elites dizer que tem uma fazenda tal, uma propriedade tal. Essa é a herança escravocrata das nossas elites. Se preocupam mais com sua vaidade pessoal do que resolver os problemas concretos da sociedade brasileira. O embaixador em Roma do Brasil, Flecha Lima, tem uma fazenda registrada com 3 mil hectares e a população da região diz que tem 9 mil hectares. Tem campo de aviação para Boeing em Buritis, na fazenda dele. Para que ele precisa desta pista, da fazenda? É para fazer festa com os amigos dele. É por isto que se cria as mazelas sociais neste País. Enquanto as terras forem apropriadas dessa maneira, os milhões de trabalhadores que precisam sobreviver, produzir para a sociedade brasileira, vão estar excluídos.

JC - Qual é o critério político para o MST ocupar fazendas?Stédile - Não há uma estratégia política nacional do Movimento Sem Terra. Aliás, este é um dos segredos do nosso sucesso em pressão social. Nós temos como metodologia política que os companheiros, os agrupamentos de sem-terra em cada região, eles têm total autonomia para decidir como se organizar, que fazenda ocupar e como pressionar as autoridades. Evidentemente que o País tem um povo pobre, mas que sabe quais são as fazendas dos políticos, sabe quais são as áreas improdutivas. É claro que quando um caso como o do Jáder Barbalho vem a público, os moradores da região onde ele tem propriedade sabem que ele tem 34 mil hectares, que nunca utilizou em benefício da cidade. A própria população da região ajuda os sem-terra para ocupar aquela fazenda. Não é uma decisão nacional, é uma estratégia local. Mas nós batemos palma para esses companheiros do Pará, que perceberam a oportunidade. Eles estão certos em dizer para a sociedade que um senador, em poucos anos, acumula 34 mil hectares de terra. Que segredo é esse de enriquecer tão rápido com o suor do trabalho que só os políticos conhecem neste País? Não tem milagre.

JC - O governo divulga que assentou 480 mil famílias ...Stédile - É outra mentira, outro truque na TV. É evidente que este governo assentou mais famílias que os anteriores, até porque está há mais tempo no poder. Mas os números não são verdadeiros. E tem mais. O que foi desapropriado até agora no País foi fruto da pressão social. Não se encontra nenhuma fazenda que tenha sido desapropriada pela vontade espontânea do governo, que ele tomou iniciativa. É mobilização, pressão. O governo escamoteia os números. Nas contas do MST, nos seis anos do governo FHC, devem ter sido assentadadas cerca de 200 mil famílias. O governo divulga 480 mil na televisão. Ele inclui posseiros da Amazônia, faz dupla contagem, escamoteia. É estatística oficial.

JC - Embora assentar seja o primeiro passo, o agricultor precisa de financiamento para produzir, precisa adquirir estrutura?Stédile - Precisa, mas o governo não só não dá ajuda, como atrapalha. Ele vive fazendo propaganda mentirosa. Eu cito o Delfim Neto, que não me parece ser nenhum esquerdista. Ele escreveu na imprensa que na época do regime militar o Banco do Brasil costumava liberar por ano, para os pequenos agricultores, 18 bilhões de dólares em crédito rural. Em 2000, com toda a propaganda do governo, ele liberou R$ 600 milhões. Essa é a evolução do crédito do governo para toda a pequena agricultura brasileira, não só para os sem-terra. O agricultor tá lascado com esse governo. Há um modelo econômico em curso no Brasil que subordinou a agricultura à lógica das multinacionais e do capital internacional.

JC - Onde as multinacionais mais prejudicam na área agrícola?Stédile - Vou dar um exemplo que me parece muito didático para as pessoas da cidade entenderem. Um produtor que entrega leite para a Parmalat está lascado. Eu tenho muita raiva da Parmalat, porque além de explorar nosso agricultor, ainda patrocina o Palmeiras. Ela paga R$ 0,20 o litro de leite no Brasil. Na Itália, ela paga R$ 0,48 de dólar aos pequenos agricultores. São R$ 0,96 lá. Porque ela faz isso, porque ela tem o monopólio aqui, junto com a Nestlé. Veja o grau de exploração a que está submetido o agricultor brasileiro com essa multinacional. O agricultor brasileiro precisa produzir cinco litros de leite para poder comprar uma latinha de Coca-Cola. Esse sujeito nunca vai sair da pobreza. O sistema de exploração o impede de melhorar de vida com seu próprio trabalho, mesmo produzindo alimentos.

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