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Associações comerciais lançam vigília

Rita de C. Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

Movimento deve mobilizar toda a sociedade brasileira e tem por objetivo fiscalizar e cobrar ações dos governos

Não existe governo ruim para uma sociedade organizada. A sociedade organizada sabe o que quer. É ela quem diz aos governos o que eles devem fazer e não ao contrário, como está acontecendo hoje. Sentimos que há um total desligamento entre Estado e Nação, sociedade e Estado. O Estado, teoricamente, representa a sociedade, mas nós estamos vendo que há um divórcio da estrutura política, das instituições. Está na hora da sociedade começar a tomar forma e se organizar, este é o nosso lema. Com este discurso, o presidente da Confederação das Associações Comerciais, Guilherme Afif Domingos apresentou a vigília cívica aos comerciantes de Bauru e região, na Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), ontem.

O movimento,que deve abranger toda a sociedade, tem por objetivo separar o joio do trigo e mostrar quem é quem, segundo Domingos. A vigília, de acordo com ele, não é só um processo de mobilização para o momento conjuntural. É um movimento permanente, é a organização da sociedade civil.

O plano é começar pelo Estado de São Paulo para, posteriormente, se tornar um movimento nacional. Estamos lançando um modelo de base. Estamos semeando uma idéia. Vamos pesquisar e, numa segunda fase, estaremos discutindo as estratégias de ação.

Para expressar sua idéia, o ex-deputado federal explica que a vida nacional pode ser dividida em quatro grandes setores. O primeiro é o poder, representado pela União, estados e municípios, nos níveis do Judiciário, Executivo e Legislativo. O segundo setor é o dos empreendedores e seus trabalhadores. Eles formam a sociedade que busca o lucro, o resultado. É do lucro e resultado que se reinveste, e a sociedade prossegue. Ela é a geradora de riquezas.

O terceiro setor, que hoje começa a ser revelado, é o setor da assistência social, que é o setor que no Brasil é fabuloso. São 230 mil entidades,12 milhões de voluntários e 8 milhões de assistidos.

Por fim, o quarto setor, que é o que mais cresceu e se organizou, o crime. O crime organizado está assustando porque ele está se penetrando em todos os outros setores. Ele está no primeiro setor, está no poder. Não existe bandido que não esteja protegido por polícia, juiz etc. Hoje, nós estamos vendo a metástese do crime organizado, até no Judiciário, afirma Afif.

Na opinião dele, o crime deve estar presente no setor dos empreendedores. Eu não sei se ali na esquina o atacadista está distribuindo mercadorias compradas ou roubadas. O roubo de cargas é uma realidade. Para dar sustentação a esse processo existe uma forte organização, eu não tenho a menor dúvida.

O crime, segundo ele, também está presente no terceiro setor. Porque tem muita entidade de fachada que na verdade está permeando e ajudando a organizar o crime. O crime organizado se aproveita muito do menor, até porque no segundo setor, os menores hoje, de 16 anos, não podem participar em nada. Mas no quarto setor eles podem tudo e estão protegidos contra qualquer ação criminal.

Estas distorções são os sintomas da doença do organismo. O antídoto é a reação do segundo e do terceiro setores, para separar o joio do trigo. Precisamos separar, quem são os empreendedores e quem são os bandidos. Nas entidades, quem são as filantrópicas e quem são as pilantrópicas. No poder, quem é bandido e representa esta classe e quem representa o interesse do quarto setor.A corrupção é parte do crime organizado.

Partindo desse princípio, o presidente da confederação diz que o tempo é de semeadura. Estamos semeando, dando o primeiro passo, organizando este movimento social. São 8 mil dirigentes de associações comerciais que devem ampliar para todos os outros setores da sociedade, criando células ativas. É essa a nossa proposta de ação, estamos aqui em Bauru para lançar esta semente do movimento.

Pesquisa vai nortear as ações

O presidente das Entidades Assistenciais Filantrópicas (Rebraf), Rogério Amato, esteve presente no encontro e explicou que o movimento pretende, nessa primeira etapa, saber, através de pesquisa, o que a sociedade organizada quer. Numa segunda fase do movimento, serão decididas as estratégias de ação.

No primeiro contato, a intenção é revelar para nós mesmo que somos uma grande rede. A atividade do empreendedor tem sido solitária. O sujeito sai de casa,vai para o seu negócio, onde passa o dia. Volta para casa, quando muito, faz outra atividade assistencial ou até associativa, como é o caso da associação comercial. O que ele não sabe é que só no Estado de São Paulo são 8 mil dirigentes fazendo a mesma coisa, diz Amato.

A idéia do encontro, segundo ele é mostrar que há uma rede. O encontro será repetido em todas as outras áreas do Estado. Queremos mostrar que somos uma rede. A sociedade civil organizada tem o poder. Nós não estamos formando um partido político. Cada um tem o seu partido, cada um tem a sua atividade, cada um atende o seu trabalho social, cada um tem a sua religião. Isso não interessa. O que interessa é que existem valores comuns que nós estamos descobrindo que este grupamento todo tem e que pode se constituir numa rede.

O que a rede vai fazer depois, ele não sabe. Ninguém determina para a sociedade o que ela tem que fazer. Estamos tão treinados a ter uma canja de governo, de uma maneira geral, todo mundo diz como eu tenho que fazer, o que eu tenho que fazer,o que eu tenho que ler. A sociedade é o contrário. Organizada, é ela que tem que delegar ao governo o que ele tem que fazer. É o exemplo do síndico do prédio.

Para ilustrar a sua opinião, Amato compara a sociedade a um edifício. Somos um grande prédio, todos nós estamos dentro dele. Cada um tem a sua religião, seu trabalho. Imagina se o síndico começar a mandar. É o que temos hoje. O síndico tem que fazer aquilo que é o bem comum, aquilo que é para todos. O que é bom para todos.

Ele ressalta que o que é bom para um prédio, pode não ser bom para outro. Temos que respeitar as características de cada um. Cada grupamento vai decidir o que vai fazer. O primeiro passo é saber o que existe. Temos que saber que nós somos uma rede.

A pesquisa, segundo ele, vai avaliar quais são as preocupações, quais os pontos de união e desunião e, a partir daí, vamos voltar a todos os lugares visitados, para mostrar o resultado desse pensamento e então, decidir o que será feito.

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