Pegos de surpresa por uma cilada do destino, vítimas da violência urbana enganam a morte e se agarram à vida
No próximo dezembro, a família Da Cruz vai se reunir para comemorar o primeiro ano do pequeno João Carlos e o renascimento do soldado Da Cruz. Vítima de acidente provocado pela violência urbana, o soldado Carlos Alberto Da Cruz ficou oito meses alienado e só acordou do pesadelo quando viu, pela primeira vez, o filho recém-nascido. Assim como Da Cruz, milhares de brasileiros vencem barreiras impostas pela violência urbana, uma das principais causas de afastamento do trabalho.
Vítima da violência urbana, o policial e sua família lutam para superar as marcas deixadas por um acidente que mudou a rotina deles. Vinte e oito dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), 17 deles em coma, e 40 dias de internação não foram suficientes para restabelecer a saúde física e mental do soldado, que em abril de 2000 caiu de um telhado e bateu a cabeça em uma pia da cozinha, quando recuperava a bolsa de uma senhora que tinha sido vítima de furto.
A mulher do soldado, a psicóloga, Gislaine Da Cruz, lembra com clareza o dia do acidente. Ele saiu para trabalhar, na época, no Tático. Por volta das 13 horas, quando eu ia sair para levar minha filha para a escola, vi a viatura estacionando em casa. Pensei que fosse ele, mas logo percebi que os policiais estavam com uma fisionomia abatida e ele não estava junto, relembrou.
A notícia do acidente foi como uma bomba. Eu sabia que um dia poderia acontecer algo com ele. É um risco da profissão. Porém, a gente sempre acha que vai acontecer na casa do vizinho e nunca na casa da gente, afirmou. Daquele momento em diante, a vida da família Da Cruz mudou.
A mudança disparou o espírito de solidariedade, que chegou a atingir os amigos e parentes, lembra a psicóloga, já que o marido não consegue lembrar da fase mais traumática de sua vida. Os policiais fizeram vaquinha para ajudar a comprar os remédios. As minhas filhas e minha família se desdobraram para dar atenção e carinho a ele, disse.
Benedito da Silva (nome fictício), outra vítima da violência, ainda não consegue falar sobre a agressão que sofreu há cinco meses. Traumatizado com a violência sofrida, Silva é hoje uma pessoa dependente. Está reaprendendo a falar, a andar, a dirigir e a fazer todas as coisas que fazia antes de ser pego por dois assaltantes que o agrediram.
Ele garante que não se lembra de nada, mas seus olhos enchem de lágrimas ao tocar no assunto. Balbuciando com dificuldade as palavras, ele é hoje uma pessoa completamente diferente do que era no final do ano passado. Com ferimentos graves na cabeça, Silva passou exatos 30 dias na UTI e mais um mês e meio no quarto, internado.
Dez quilos mais magro, ele faz uma maratona diária entre fisioterapia, fonoaudiologia e médicos para se livrar das marcas físicas e psicológicas que a violência urbana deixou em sua vida. A mãe, Alice (nome fictício) disse que, por ser muito religiosa, jamais deixou de acreditar na recuperação do filho. Mesmo nos momentos mais difíceis eu não deixei de acreditar que ele venceria a barreira imposta pela violência, disse.
Segundo ela, o filho, com 44 anos, teve que reapreender tudo o que já tinha aprendido na infância. Ele voltou para casa de cadeira de rodas. Andava muito mal e não falava. Os médicos dizem que a recuperação dele está sendo rápida, mas deixou um trauma, ressaltou. Ela contou que é difícil ver o filho dependendo dos outros para executar as mesmas atividades. Ele acordava cedo e ia trabalhar, fazia tudo sozinho. Hoje, o pai dele tem que levá-lo de um lado para outro porque ele não dirige. Espero que até dezembro ele volte às atividades normais, disse, esperançosa.
Para Benedito da Silva, a violência fez com que ele acordasse para detalhes que a vida apresenta diariamente e que a correria não deixa que as pessoas percebam. Percebi que tinha muitos amigos. Eles e minha família me apoiaram muito, contou.
Ele confessou que passou a valorizar mais a vida. Lutei para sobreviver e valorizo mais a vida. Ele garante que não entendeu o que aconteceu e, em lágrimas, disse que não dá para perdoar. Nunca fui violento e não aceito o que fizeram comigo. Não lembro de nada, mas sei que a minha vida mudou. A mãe do rapaz acredita na justiça divina. O homem pode fugir da Justiça dos homens, mas Deus é justo e vai fazer justiça no caso de meu filho.
Renascimento
O soldado Carlos Alberto Da Cruz renasceu na maternidade, quando viu, pela primeira vez o rosto redondinho do recém-nascido João Carlos, seu primeiro filho homem. Eu fui para maternidade e ele, que até então estava bem fisicamente, mas não apresentava muita evolução psicológica, me acompanhou, contou Gislaine.
Quando retornei ao quarto com o bebê no colo, ele acordou para a vida. Ele olhou para nós e renasceu. Me beijou e me agradeceu por ter dado a ele mais um filho. Daquele momento em diante, ele voltou a viver. Lembrou de todos nós. Chegou em casa e reconheceu o local. Passou a lutar pela vida com mais rigor, disse.
Um ano depois do acidente, Da Cruz é um homem normal. Eu falo, ando e devo voltar a trabalhar no próximo mês, quando os médicos deverão me dar alta do tratamento. Já estou adestrando os cães e reconheço que o nascimento do João Carlos foi o ponto principal para a minha recuperação, comemora o soldado.
O acidente, segundo ele mesmo, faz parte do passado. Não lembro e não quero lembrar. Minha vida começou em dezembro. Agora quero curtir minha família porque sei que quando eu mais precisei foram eles que me socorreram e não me abandonaram, disse.
Bronca psicológica
Os primeiros 17 dias que o soldado Carlos Alberto Da Cruz passou na UTI foram os mais difíceis, segundo sua mulher, a psicóloga Gislaine Da Cruz. Os médicos não acreditavam na recuperação dele. Um dia, um dos médicos me chamou e avisou que o Da Cruz estava perdendo os reflexos. Estava morrendo. Me desesperei, contou.
A psicóloga entrou na UTI decidida a mudar a situação. Chegou perto do marido e deu uma tremenda bronca nele. Disse para ele que nós tínhamos três filhos para criar. Um deles ainda estava na minha barriga e ele não podia me deixar sozinha. Tinha que me ajudar a criá-los, contou.
A bronca também estava recheada de incentivo. Falei para ele não se acovardar. Era hora dele mostrar a força que tinha em seu interior. A partir daquele dia, Da Cruz começou a apresentar melhoras. Os médicos não tinham explicações. Mesmo sabendo que o marido estava em coma, Gislaine, lia e relia para ele bilhetes escritos pelas filhas, Taisa e Larissa. Os bilhetes eram de incentivos para ele continuar vivendo. Elas pediam para ele voltar para casa, contou.
Passada a fase crítica, o soldado foi para o quarto do hospital e, mesmo fisicamente melhor, ainda aparentava estar fora desse mundo. Ele tinha dificuldade para reconhecer as pessoas. Não se lembrava de algumas pessoas e nem de situações, contou Gislaine.
Depois da quarentena, o soldado foi para a casa. Quando ele chegou em casa, não falava, não andava e não piscava os olhos direito. Só se alimentava com líquidos. Ele sofreu uma lesão no cérebro. Tinha alucinações noturnas. Achava que tinha bandido em casa. Confundia as filhas e eu com bandidos. Tivemos que enfrentar situações difíceis, mas nunca desanimamos. Tínhamos certeza que ele se recuperaria, relembra a mulher.
O acidente fez com que a psicóloga deixasse a clínica que trabalhava para se dedicar à família. Tivemos que vender o carro, mas valeu a pena, disse. Eu e minhas filhas treinamos ele para voltar a comer alimentos sólidos. Para forçar Da Cruz a dar os primeiros passos, a família se reunia e o ajudava.
Os primeiros passos foram dados na cozinha. Um misto de emoção e alegria tomaram conta da mulher do policial. Eu estava cozinhando e coloquei ele sentado na cozinha. De repente, ele estava do meu lado. Me abraçou e eu chorei. Era mais uma etapa vencida, relembra com emoção.
As filhas, embora menores, desenvolveram um papel importante na recuperação do pai, segundo Gislaine. Eu estava grávida e tinha dificuldades para ajudá-lo. A Taisa chegou a dar banho nele. A Larissa ensinou ele a ler e escrever de novo. Ele não conseguia nem segurar o lápis. Com paciência, ela o ajudava a praticar dois tipos de exercícios. Um com as mãos para segurar o lápis e outro com a boca, para pronunciar as palavras que escrevia, disse.
O tempo foi passando e a recuperação, que parecia utópica, começou a tornar-se realidade. Aos poucos, ele foi reaprendendo cada uma das coisas e passou a viver quase normalmente.
Justiça com as próprias mãos
Uma bala na medula fez o jovem Leandro Aparecido de Paula passar a viver em uma cadeira de rodas. Vítima da violência urbana, ele garante que não tinha nada a ver com o caso, mas levou a pior. O fato aconteceu em março do ano passado, quando o jovem, então com 18 anos, resolveu procurar sua amada para fazer uma declaração. Eu a esperei na saída da escola para entregar um bilhete me declarando. Como ela não tinha ido à aula, fui até a casa dela, contou.
Ao lado da casa da moça, morava um amigo de Leandro. Como ela não estava em casa, passei a conversar com meu amigo, um dos vizinhos dela. Nisso chegou uma turma. Três pessoas, que diziam ser vítimas de furtos, acompanhadas de dois marginais, contou.
Os marginais, segundo Leandro, teriam sido pagos para recuperar as mercadorias furtadas da casa da vítima. Os dois bateram geral, como se fossem policiais. Viram que comigo não tinha nada. Eu nem sabia do que se tratava, disse.
Surgiu uma discussão que se acirrou e os dois rapazes teriam feito alguns disparos contra as pessoas na rua. Eles quiseram fazer justiça com as próprias mãos. Atiraram contra meu amigo e três tiros me atingiram. Um atingiu a minha medula, outro o rim e terceiro me deixou cego de um olho, contou.
A partir daquele dia, a vida de Leandro e de sua mãe, Luzia, mudou completamente. Eu tinha montado uma barraca para venda de pastel. Ele (Leandro) me ajudava. Ele não tinha passagem pela polícia. Somos pobres, mas meus filhos sempre trabalharam, contou Luzia.
Foram dias de luta, entre UTI e internação. Principalmente porque não temos assistência médica. Meu filho quase morreu. Hoje, só não está pior porque eu luto para que ele vença essa barreira, contou.
Um ano depois, Leandro vive o drama de passar o dia entre a cama e a cadeira de rodas. Ele perdeu a visão do olho esquerdo. É paraplégico e não tem um rim. Usa bolsa de colostomia, esclarece a mãe. Segundo ela, o filho não tem tratamento médico. Somos pobres e até para levá-lo para Ribeirão Preto, onde consegui um tratamento para ele, tenho dificuldades. Os médicos dizem que o quadro é irreversível, mas ele já consegue ficar em pé. Ele está fazendo fisioterapia na Unip, mas só posso levá-lo duas vezes por semana, contou.
A bala que atingiu a medula de Leandro continua no mesmo lugar. Um neurocirurgião pediu R$ 135 mil para fazer a cirurgia. Eu não tenho esse dinheiro. Os culpados do meu filho estar nessa situação estão livres. Eles nunca se preocuparam em saber como o meu filho ficou depois deles tentarem fazer justiça com as próprias mãos.
O inquérito que apura o caso de Leandro já foi concluído. Um dos dois rapazes autores dos disparos teve sua custódia decretada, e deveria ir para a Febem, já que era menor quando cometeu o crime, mas continua foragido. O outro não figura no inquérito e, segundo Luzia, ele foi morto recentemente no Parque Jaraguá.